“Realismo moral” e arte

arte

 

Revendo o excelente programa “Ensaio”, com Elis Regina (https://www.youtube.com/watch?v=cgqO3PNMRac&t=3053s) , noto que Elis, falando sobre o início de sua vida de artista, sentiu necessidade de “explicar” as dificuldades financeiras da família – entre comer e comprar um piano, decidiram comer, diz ela – e essa atitude me fez pensar na desvalorização, muito comum antigamente, da vida do artista.

 

De fato, por muito tempo, a arte não foi uma opção profissional ‘aceitável’. Havia até uma associação entre ‘pintura’ e ‘loucura’.  Fazer arte, tudo bem. Era um dom, um plus, um algo a mais. Agora, querer viver disso, fazer disso um meio de vida, era um tanto maluco.

 

Balzac foi o primeiro escritor a viver apenas da escrita, salvo engano, e isso nem faz tanto tempo assim. O que me leva à impressão inicial, com Elis: porque as coisas parecem se complicar, quando se quer ser artista?

 

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Uma reposta possível é o entusiasmo do artista, ou sua falta de moralidade – sua crueldade mesmo, digamos (como comentamos aqui). Mas queria tentar pensar também outra possibilidade, mais ligada à sociedade: qual seja, um certo pragmatismo, ou realismo, da moral.

 

De fato, quando acompanhamos as mudanças nos costumes, notamos um movimento geral que mais ou menos podemos definir como um entregar ao indivíduo, à sua escolha pessoal, algo que, antes, era “balizado” pela tradição. Uma individualização dos costumes, digamos.

 

Assim, por muito tempo, o casamento foi uma escolha institucional. Isto é, não cabia ao indivíduo escolher, por amor / afinidade / afeição, quem lhe interessava. Era o interesse da família, o dote, o cálculo patrimonial, quem ditava as regras.

 

Quando tento entender porque as coisas eram assim, uma resposta possível  é a seguinte: a inclinação pessoal não seria algo consistente, quando se trata de pensar em algo tão importante quanto um casamento (onde, geralmente, o destino de heranças estão em jogo). Inclinações mudam, e a paixão de hoje pode se transformar facilmente no ódio de amanhã. Não havendo constância suficiente para se erigir sobre isso um costume, buscou-se noutro lugar essa consistência – na autoridade dos pais ou da sociedade – e sobre ela erigiu-se então uma tradição.

 

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Se essa suposição tem algum valor, poderíamos ver nela uma espécie de “pragmatismo” da moral. Como uma forma arcaica de ciência, ela seria o resultado de um pensar mais amplo, que não se fiaria nas aparências, mas procuraria ver o que há de sólido por trás da cortina de fumaça de nossos comportamentos. A moral seria então uma instância supratemporal, colhendo, de nossa experiência finita, uma conclusão um pouco alargada, um olhar mais amplo (nem por isso necessariamente correto, é verdade).

 

Mas – avançando na suposição – será que o mesmo não se daria com relação às artes? Isto é: se a moral representava uma espécie de “realismo”, quase um “conselho das eras” justamente contra as paixões, não seria coerente ela defender um trabalho tradicional, o esforço paciente e suado de uma profissão, e se posicionar contra as artes, exatamente na medida em que a arte trabalha com… o prazer?

 

Porque não há arte sem prazer. E o artista, por mais que tenha trabalho para produzir sua obra, também goza com ela. A arte (falamos mais sobre isso aqui) é justamente uma espécie de desvio na relação dura do homem com a realidade, um meio termo onde a realidade é ao mesmo tempo acatada e negada. Na arte somos senhores da realidade, mesmo que nosso domínio não seja absoluto – precisamos de uma plateia que reverbere nossa supremacia. A arte envolve prazer, dá prazer – ao consumir e ao produzir. Como então poderia a moral… recomendar a arte?

 

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Entendamos: se a moral era mesmo, para além de um jogo de poder ou de um reservatório de costumes, algo onde um certo pragmatismo se adensava, como ela iria bendizer um fazer aonde justamente o difícil trabalho de suportar a realidade – trabalho que o homem faz tão a contragosto – era deixado de lado? Pois a arte sempre foi uma vitória “roubada” do homem; de nada vale o mais belo quadro se o pintor e seus admiradores passam fome. É preciso primeiro comer; e para comer, há que se submeter ao real – e não à arte.

 

Aí poderia estar também um dos motivos que fez a prostituição ser malvista pela moral; não (apenas) porque a sexualidade era tabu, ou porque a mulher e seu desejo inquietavam o homem. Mas simplesmente porque aí também se lida com o prazer.

 

Como psicanalista, não posso deixar de notar a dureza do tom dos moralistas, quando resmungam contra algo que não se coaduna com sua moral: é como se ali, nessa dureza mesma, fosse possível ouvir, de forma perfeitamente audível, o quanto eles mesmos se sentem atraídos pelo imoral, por esse “outro” tão belo, tão sedutor – mas que, no fundo, não lhes é permitido, porque… precisam lidar com o real. Sua própria dificuldade ao lidar com a realidade é que lhes obriga a serem tão duros com o outro, o artista, que se abandonou ao “irreal” da arte. Quando lhe dizem “não”, é a si mesmos que estão negando algo.

 

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Hoje os tempos mudaram, e todos podem ser artistas. Os casamentos já não são arranjados, e apenas a prostituição continua negada, provavelmente porque, além do componente de prazer envolvido – mais fantasiado do que real, imagino, para quem com isso trabalha – está também em questão a fronteira do próprio corpo, algo que costumamos identificar muito fortemente com o “eu” e que, na prostituição, deve ser entregue. O que sugeriria que nosso capitalismo não pode prescindir do “eu”?

 

Seja como for, no que toca aos conselhos ‘pragmáticos’ da antiga moral realista, eles já não se sustentam. A sociedade avançou, e a própria necessidade de levar em conta o real foi especializada, dissociada, capitalizada. Tornou-se propriedade de cientistas, pensadores, políticos, diplomatas. E em parte, também, propriedade de cada um. Podemos, afinal, tentar fazer algo por nós mesmos nessa vida – o que é uma responsabilidade imensa, difícil, cansativa… da qual descansamos, muitas vezes, na arte. A qual, felizmente, está aí, cada vez mais ao nosso alcance.

 

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