Resenha: “Sobre o risco e a solidão”, de Adam Phillips – ou: saúde e transgressão.

ASSIM_FALAVA_ZARATUSTRA_1428783672444472SK1428783672B

Neste post, apresento um resumo / resenha do ótimo artigo de Adam Phillips intitulado “Sobre o risco e a solidão”, disponível no livro “Beijo, cócegas e tédio”, traduzido e editado no Brasil pela Companhia das Letras.

O artigo aborda diversos temas, todos organizados em torno das relações entre os riscos que assumimos na vida – prazeres, inquietações, escolhas – e a solidão que eles muitas vezes implicam, sendo ela ao mesmo tempo um desses riscos e – talvez – o maior risco.

O autor inicia diferenciando a abordagem da solidão em Freud e em Winnicott. Freud teria se apropriado do tema somente a partir da experiência da falta – a criança temendo a solidão porque ela implicaria, sempre, na ausência da mãe – enquanto Winnicott teria percebido que a solidão pode ser uma conquista que implica justamente numa certa quantidade de presença da mãe: uma espécie de presença “em reserva”, um acumulado de presenças (conforme comentamos aqui).

***

Tais paradoxos, realmente, tem sido reconhecidos como uma marca de Winnicott: poder ficar sozinho implicaria numa quantidade anterior de relação (ou presença); ou: teríamos necessidade de sermos iludidos para poder chegar à realidade (como abordado aqui). Outro paradoxo, muito utilizado no artigo, é o que apresenta a morte do objeto como condição de sua realização. Nas palavras de Phillips: “Winnicott encara o desenvolvimento como envolvendo formas cada vez mais sofisticadas de descaso em relação ao objeto, mas com o intuito de tornar possível um contato real com o objeto real” (59)

Entendamos: a criança inicia a vida subjetiva, na visão de Winnicott, sem reconhecer objeto algum; nem ela, nem mãe, nem ambiente, existem. Aos poucos, na medida em que a continuidade dos cuidados cria alguma estabilidade, a criança começaria a discernir objetos – ou descontinuidades… outro paradoxo -, até chegar a perceber que ela – seu corpo – é um objeto separado dos demais, assim como que há um objeto em especial, ao qual ela se sente muito apegada – a mãe ou o seio – que aparentemente não lhe pertence (isto é, trata-se de um objeto externo).

Essa separação entre o “Eu” e os “objetos” de amor seria bastante difícil para a subjetividade infantil, e ela tenderia a lidar com isso através do controle onipotente, isto é, do uso da fantasia, da ignorância (não-saber), do recalque (não querer saber), da negação, etc, para manter uma espécie de sobreposição entre a mãe que ela deseja – a união com o objeto que existia até então – e a mãe que ela começa a perceber –  a mãe real.

***

Já falamos longamente sobre a complexidade dessas relações entre o objeto percebido e o objeto desejado. Quem tiver curiosidade, pode procurar pelo termo “realidade” na caixa de pesquisa do blog. Mas aqui, interessa perceber que essa disparidade entre a mãe desejada e a mãe percebida levará ao ódio contra a mãe (real); um ódio que, em seus extremos, levará a criança a desejar a “morte” da mãe (na fantasia) – prova maior de seu controle onipotente.

Só que a mãe real continua viva… e, com isso, por sua sobrevivência mesmo, diferencia-se cada vez mais da mãe fantasiada. Cria-se assim uma divisão, uma ambivalência, entre  “duas espécies” de mãe: a mãe real, para a qual passa a ser canalizado todo o amor – que ainda existe, afinal -; e a mãe da fantasia, a qual é continuamente morta, no inconsciente, por justamente não se adequar ao desejo infantil, insistindo em ser “real” – isto é, separada, independente, “outra”.

Essa seria, para Winnicott, a origem “natural” da culpa: dado que haveria sempre um componente de crueldade no desejo infantil (por sua voracidade, por sua despreocupação com o objeto), a morte do objeto amado seguir-se-ia também naturalmente, na medida em que sempre haverá uma dissimetria entre o objeto desejado e o objeto realmente encontrado (novo paradoxo: o amor despreocupado engendraria a culpa, origem da preocupação com o objeto).

A morte do objeto, paradoxalmente, nos aproximaria de sua realidade, e a culpa advinda de sua “morte” – do ódio inconsciente – seria justamente um dos ingredientes que nos ajudariam a suportar a sua objetividade – a sua não coincidência com o nosso desejo. Como se a criança dissesse: “eu deixo você ser real, em compensação a eu ter te odiado/matado no inconsciente – e continuar te odiando, aliás!”

***

É fundamental perceber que a atitude da mãe para com a criança é central nessas primeiras experiências de expressão da agressividade. Pois, assim como a sobrevivência da mãe (= objeto amado & odiado) implica na sua diferenciação ou “realização” (preservando ao mesmo tempo o amor da criança e sua agressividade – permitida na fantasia justamente porque equilibrada com o amor na realidade), assim também sua morte ou transformação implicarão numa repressão da agressividade e na perda de sua contribuição tanto ao amor quanto à caminhada em direção ao real.

A transformação ou ‘morte’ da mãe pode ser qualquer coisa: basta que a criança sinta uma mudança na postura da mãe como retaliação. A retaliação, diferente da simples ‘sobrevivência’ da mãe, torna mais difícil para a criança suportar a própria agressividade, na medida em que desequilibra a balança que se estende entre a mãe como objeto de amor e essa mesma mãe como objeto de ódio.

Phillips mostra como essa centralidade da mãe é algo novo em Winnicott, apesar de sua insistência em remeter esses desenvolvimentos à Klein. Nova também seria a possibilidade de entender a solidão como um resultado ou acumulado de relações de presença – e não pura ausência, como queria Freud e boa parte da psicanálise.

***

Haveria então, algo de saudável na solidão; ou melhor, haveria uma possibilidade de saúde na solidão, ao lado de outra solidão mais reativa. Esta, que é a parte mais interessante do texto, é também a mais difícil.

Na minha visão, o autor propõe que a solidão seria uma conquista, um efeito natural justamente da boa maternagem, do bom provisionamento ambiental na primeira infância. Em consequência, o ser humano saudável deveria estar apto a desvencilhar-se do outro sempre que ele se interpusesse entre o sujeito e os seus desejos.

Em outras palavras, o autor sugere que, na luta cotidiana que travamos com nossos desejos mais profundos – que podem custar muito caro, em termos de concordância, aplauso, incentivo, apoio do outro  – podemos muitas vezes nos apequenar, nos conformar, com algo que atende mais ao outro do que ao resultado da nossa luta interior. Dito de outra forma, é como se a velha batalha entre a mãe desejada e a mãe real retornasse: só que agora, a mãe desejada é justamente o desejo sem custos, a fantasia da realização de um desejo que não implique um resto, uma interrogação, um problema. E a mãe real é… o desejo real.

Vale dizer: quanto de nossa relação com o outro não acaba sendo uma espécie de troca complacente, onde está implícito que nada de real vai ser dito / trocado nessa relação? Em que medida nossas relações adultas não são uma reedição da mãe desejada, uma encenação de que retornamos àquela completude da primeira infância?

Surge então a figura do artista, em Winnicott, como modelo a ser seguido, por justamente não se limitar ao jogo da culpa. O artista, diria Winnicott, não se deixa obstruir pela culpa. Isto é, alí onde seu desejo se choca com a falta de suporte do outro, o artista, simplesmente, avança. Ele não sente culpa. Ele não abdica do seu sonho por um conformismo qualquer. Melhor ainda: ele não entra numa relação com o outro porque precisa (porque sua culpa o leva a isso). Ele se relaciona com o outro como um igual – na diferença. Alguém com quem se pode trocar alguma coisa de real (pela arte… paradoxalmente).

***

Inquietante proposição. É fácil enxergar aí um certo individualismo ingênuo, bem ao gosto do nosso tempo. Mas, se entendi bem, Phillips sugere que o individualismo, assim como a solidão, tem duas vertentes: numa, implica em reação, defesa, fuga, face uma necessidade de relação muito custosa; o indivíduo sofre / sofreu em seu desenvolvimento naquilo que dependia do outro, e por isso idealiza, hoje, que tudo pode sem esse outro. Simples reemergir do controle onipotente da infância. Na outra vertente a relação ocorreu, e foi possível internalizar o outro como ambiente de sustentação interno, a tal ponto que, hoje, o outro externo pode ser dispensado.

Seguindo nessa trilha, Phillipes nos convida a pensar a ausência de preocupação com o objeto como o ponto extremo de um desenvolvimento saudável. Paradoxal como sempre, Winnicott teria proposto que terminamos aonde começamos – sem muita preocupação com o outro, apenas que, agora, ao final, podendo dispensá-lo justamente na medida em que o portamos internalizado. Dito de outra forma: dispensamos ou nos relacionamos não pela culpa – mas pela realidade do outro. E é nossa realidade que o permite.

Ou, como sugere Phillips: tratar-se-ia de criar, não apenas na arte, mas também na vida, um ‘outro’, um ambiente – um “nós” – que suportasse nosso agressividade mais intensa. Nossa agressividade, entenda-se, é a expressão mais própria de nosso self, nosso desejo mais próprio. Difícil não ver aqui um ‘eco antecipado’ daquilo que Deleuze proporia algum tempo depois: o artista como aquele que cria (para) um povo porvir. Ou ainda, como queria Bergson n”As duas fontes da religião e da moral”: o artista como aquele que cria uma nova emoção, uma nova sociabilidade, uma nova sensibilidade: um novo ‘ambiente’ ou experiência comum para o humano.

Pensando nas consequências dessa postura para a clínica, me pergunto ainda se uma tal dialética não se aproxima daquilo que Masud Khan praticou, e tão belamente descreveu eu seu último livro, “Quando a primavera chegar”, onde nos apresenta diversos casos relacionados – segundo ele mesmo – com a transgressão. A transgressão, afinal, que é a marca – necessária – da adolescência. Mas também da arte. E talvez, também… – da saúde?

**********************

(Na sequência, tópicos extraídos do artigo, na intenção de resumí-lo; a separação numerada é minha; os números entre parêntesis, no final, correspondem às páginas do original O que for escrito entre colchetes [ ] é interpolação minha. Já adianto que esse é um artigo que merece ser lido na íntegra. )

  1. “A primeira solidão, assim como a primeira experiência com o outro, é repleta de perigo” (45)

comenta como, em Freud, a solidão se liga à experiência infantil de estar privado da mãe; ou seja, é uma falta.

Freud teria tido uma repressão da solidão – de sua abordagem teórica. Embora vários de seus conceitos (narcisismo, o sonho, o luto) atestem a visão freudiana do ser humano como profundamente solitário (45/6).

2. Realmente, o bebê ‘viaja rumo à morte’ quando fica tempo demais à espera da mãe.

Por meio do desejo [da mãe?], a criança descobre sua solidão, e por meio da solidão, seu desejo.

Na análise, o paciente se defronta com o risco de ter de cuidar de si mesmo.

O analista faz o “holding” [a sustentação da situação], enquanto o paciente assume o risco de associar livremente, não sabendo o que vai dizer. (48)

Supostamente, um bebê dependente, dotado de uma mãe que lhe dê suficiente atenção, resultará em um adulto capaz de enfrentar a solidão (sentindo-a inclusive como uma privacidade regeneradora) (48)

Assim, a solidão implicaria numa capacidade de entregar-se ao que está para além de nosso controle, de nossa onipotência (exemplo do adolescente que aprende a nadar qdo se ‘confia’ à agua – qdo se permite ser sustentado por ela) (48/9)

3. Um dos paradoxos da adolescência é que apenas os objetos fora de seu controle podem ser considerados confiáveis [ele quer ir além de si mesmo, por isso tem que ultrapassar inclusive o que controla] (49)

ou seja, em certo sentido, o oposto da onipotência [que caracteriza a infância] pode ser essa entrega, essa confiança, essa capacidade de confiar no outro enquanto outro [isto é, não controlado; obviamente, isto implica na existência de um bom ambiente interno que sustente essa confiança] (49)

O bebê depende da mãe para evitar ficar aonde não dá pé [=fora de seu controle]; proteção que o adolescente ao mesmo tempo deseja e desafia. (50)

Nesses exercícios para ESCAPAR à submissão [de estar sobre o controle da mãe], o adolescente procura RISCOS [ que é também aquilo que está para além de SEU controle onipotente]

Dentre esses riscos está a solidão. O adolescente busca a solidão. (50)

4. Dentre os objetos que estão fora do controle onipotente do adolescente, podemos incluir o seu próprio corpo. “Para um adolescente, o corpo é, como o analista na transferência, o mais familiar dos estranhos” (50)

“Na puberdade, o adolescente desenvolve uma transferência para seu próprio corpo” (50/1)

“O adolescente começa a compreender que a mãe original é o seu corpo” (51) [e nessa medida ele entra nos regimes de risco, nos testes, na busca-e-rejeição daquilo qeu lhe escapa]

Equivale a dizer que o adolescente busca riscos para justamente testar sua nova ‘casa’, seu novo ambiente (51)

Discute a dificuldade da psicanálise de entender a busca por ‘riscos’ como algo não relacionado à patologias; argumenta que uma vida sem riscos não seria uma vida ‘viva’; e sugere que a perversão poderia ser uma maneira de sexualizar aquela parte do self que continua buscando o risco [=buscando testar – para consolidar – sua nova morada] (51)

A capacidade de o adolescente entregar-se ao seu corpo (como novo ambiente) dependerá de ele ser capaz ou não de confiar-se ao holding (sustentação) de seu corpo [=volta de novo: àquilo que ele não controla] (52)

5. A adolescência recapitula partes da infância, mas modifica a relação entre risco e solidão.

A questão do risco, para alguns psicanalistas, liga-se à questão da preocupação com o outro. (52)

Criamos o risco quando colocamos em perigo algo que estimamos.

“Não existe na obra de Freud nenhuma descrição explícita ou coercitiva daquilo que constitui uma vida boa; e isso é uma das muitas coisas que distinguem Freud dos seus críticos e seguidores” (53)

No entanto, faz parte de nossa moral supor (e isso se reflete no kleinianismo) que a preocupação com as outras pessoas é parte integrante de uma vida boa (53)

“Para Winnicott, o desenvolvimento depende da capacidade de abandonar ou suspender a preocupação com o objeto” (53)

Isso não quer dizer que ele não mencione a preocupação; mas seus escritos, justamente por serem escritos, são entrecortados por contracorrentes e apinhados de contradições (53)

Winnicott diz que a preocupação com um objeto se torna com facilidade um obstáculo ao desenvolvimento pessoal, o que tem implicações importantes para a relação do sujeito consigo mesmo  (53)

O primeiro risco involuntário da infância vem justamente da confiança que o bebê deposita nos cuidados da mãe. Idealmente, a mãe deveria se adaptar tão bem ao bebê que é como se ela, como objeto separado, NÃO EXISTISSE (o cuidado da mãe deveria poder ser encarado pelo bebê como efeito do SEU – do bebê – desejo) (54)

Caso a mãe insista em ser uma pessoa real, o bebê tem de inventar um falso self para lidar com ela. Assim, a patologia é o resultado da exigência do objeto, ou de sua exigência (suposta)… de preocupação. (54)

Como então se chega à uma preocupação ‘genuína’?

6. Winnicott postula uma crueldade primitiva, ligada ao desejo do bebê, uma ‘voracidade’ [seu desejo não tem limites, não tem ‘preocupação’ para com o objeto; nesse sentido é ‘cruel’] (55)

Da mesma forma, para ele, a culpa é algo que surge ‘naturalmente’ no desenvolvimento (55)

De certa forma, a moralidade está à serviço do desenvolvimento [isto é, aquilo que vemos como ‘moral’ é apenas o efeito de um desenvolvimento ótimo que TAMBÉM é buscado – pela fisiologia? pela biologia?] (55)

mais exatamente, a moralidade trabalha a favor do desenvolvimento apenas enquanto protegem o próprio desenvolvimento. Ou seja, “o desenvolvimento pessoal necessita de certo oportunismo moral” (55)

questiona a derivação dessas ideias de Winnicott a partir de Klein. para ele, W redescreve tanto a ideia kleiniana de ‘posição depressiva’ que a transforma em outro conceito (56)

Um índice dessa diferença estaria na centralidade do conceito de ‘mãe’ para Winnicott: de fato, para esse, a criança, em algum momento, começa a perceber que seu desejo, sua atração pelo objeto (a mãe), contém algo de destrutivo; daí seu início de sentimento de ‘culpa’. Para contrabalançar esse sentimento, a criança ensaia um gesto de REPARAÇÃO; e o que decide tudo é a capacidade da mãe de RECEBER esse gesto de reparação, de SOBREVIVER ao gesto agressivo do bebê, de “fazer as pazes” com ele (não mudar seu comportamento). Nada disso existe em klein (56).

Essa capacidade da mãe de “aceitar” o gesto reparador do bebê [ex.: a criança pede pra ajudar a cozinhar; nao faz nada que preste, mas sua ‘intenção’ seria importante] “ajudaria a criança a aceitar a responsabilidade pela fantasia total do pleno impulso instintivo qeu antes era cruel” (56/7)

Mas, em seguida, contradizendo tudo que disse até aqui, Winnicott refere-se ao artista, como a alguem que não efetuou essa passagem para a preocupação – e isso não o incapacita; pelo contrário, ele parece um certo arranjo ideal, para W. (57)

O artista seria alguém que se deu conta da culpa, mas encontrou maneiras de não se sentir embaraçado por ela. W. conclui: “pessoas comuns acham isso assombroso, embora tenham um respeito dissimulado pela crueldade que, de fato, realiza coisas maiores do que o trabalho orientado pela culpa” (57) !!!!

“Ele acrescenta: se o psicanalista fosse esse tipo de artista criativo, e não uma pessoa compulsivamente reparadora, como haveria de ser o seu trabalho?” [penso em Khan aqui]

7. Ou seja, Winnicott apresentou uma alternativa à posição depressiva de Klein; (58)

Para W, o objeto subjetivo [a mãe enquanto fantasiada, ou investida dentro da área de onipotência do bebê] só se torna “real” – só se separa da fantasia onipotente – quando é destruído na fantasia, mas mesmo assim, sobrevive ao ódio (58/9)

De certa forma, é como se, ao sobreviver para além do controle onipotente, o objeto desmascarasse suas características “outras”, reais, para além do sujeito [mas esse “outramento” do sujeito só é sustentado pelo amor que ele CONTINUA a sentir pelo objjeto – mesmo destruíndo-o]

E aí voltamos à preocupação: pq para que o objeto possa ser destruído – plenamente odiado, na fantasia – a preocupação com ele teve que ser suspensa; “apenas ao desprezar o objeto podemos chegar a conhecê-lo” (59) [ ok, mas a fase de ‘preocupação’ viria DEPOIS da fase do ódio… e até como resposta à ele]

Essa suspensão da preocupação – seria uma afirmação da própria solidão; e com isso, a solidão seria inerentemente um ato cruel

“Winnicott encara o desenvolvimento como envolvendo formas cada vez mais sofisticadas de descaso em relação ao objeto, mas com o intuito de tornar possível um contato real com o objeto real” (59)

Argumenta que isso muda nossa visão sobre a perversões, mostra como o sadomasiquismo põe em ato essa dialética entre o sujeito e o objeto – alguém deve ser controlado onipotentemente, alguém deve controlar, e não pode haver a recusa. O objeto concorda em ser destruido/danificado; isto é, ELE NÃO SOBREVIVE (como seria necessário, segundo W, para que o obejto se tornasse REAL, isto é, saísse do controle onipotente; com o que o que o sadomasoquismo busca é a evitação dessa ‘objetificação’, dessa ‘realização’ do outro  COMO outro) (59)

[notar as implicações disso em termos ECONÔMICOS; ao impedir o confronto e a sobrevivência dos diferentes, impedimos também a realização do outro como outro, como diferença; ou seja, a competição capitalista – como expressão do ódio –  seria CONDIÇÃO para a diferenciação do outro COMO outro – ?? – o que poria em cheque o argumento central do anti-édipo??]

8. O desenvolvimento envolve criatividade e crueldade. A criatividade envolve a tentativa de estabelecer um contexto, um ambiente, um relacionamento, que pudesse sobreviver à capacidade de destruição mais ardente da pessoa (60)

[ou seja, uma vida criativa buscaria criar aquilo mesmo que pudesse resistir ao seu próprio ódio mais profundo; é a ambivalência, o amor-ódio de Freud levado um passo adiante; notar que isso não exclui o cuidado, a identificação – mas abre um espaço para aquilo que seria proprio, individual, na existência. O que é próprio só pode ser tratado com ódio (para o outro, isto é O odioso… até Nietzsche concordaria ]

“O risco de estabelecer a solidão de uma pessoa é o risco da sua liberdade potencial” (60) !!!!

Claramente, a necessidade de fazer uma reparação vincula a pessoa aos objetos. Como entra o artista nisso (já que ele não teria essa necessidade?) (60/1)

Exemplo de Rilke que confirma a tese (solidão como revigorante, produtiva). Outra coisa que seria negada na solidão seria o próprio corpo [como desenvolvimento do ambiente? notar que isso parece contrariar a tese de Nietzsche] (61)

“Uma solidão fértil é um benfazejo esquecer-se do corpo, que passa a tomar conta de si mesmo; e, nesse contexto, o desejo se torna um recordar-se” (61)

Lembra que para Freud, no sonho (expressão do desejo…) o corpo não deve ser despertado. [Ou seja, o sono, o sonho, como expressão dessa solidão criativa, regeneradora] (61)

dá um exemplo de Nietzsche elogiando a solidão (em Zaratustra)

O objeto entao pode ser ser viabilizador [a criança depende do objeto] ou presença usurpadora [qdo atrapalha o sono, a criação, a regeneração da solidão] (62)

Em algum ponto [entre ambos…] o analista encontra a si mesmo, situado na transferência do paciente (62)

Ou seja, o desejo de solidão pode ser uma negação da dependência [uma solidão reativa, que seria sintoma] ou uma expressão de um reconhecimento da dependência em seu mais alto grau [um efeito da dependência levada à termo](62)

Para W, a capacidade de estar só depende da experiencia de a criança estar sozinha, sob o cuidado (na presença) da mãe. Isto é, sua solidão expressa uma confiança na PRESENÇA da mae – uma presença fidedigna, nao invasora, da mãe – e não uma ausência, uma falta, como pensava Freud. (62)

3 Respostas para “Resenha: “Sobre o risco e a solidão”, de Adam Phillips – ou: saúde e transgressão.

  1. Pingback: “Realismo moral” e arte | eu(em)torno·

  2. Pingback: Lacan – O Seminário (livro 1; aulas 1 e 2) | eu(em)torno·

  3. Pingback: O problema da ação moral em Darwin e a psicanálise | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s