Real, corpo e sujeito psicológico

blake - nabucodonosor

Quebro a canela. Pelo que leio em alguns autores da psicologia / filosofia, pareceria que se não existisse tal frase “quebrei a canela” na linguagem, eu nada saberia disso. Será mesmo?

 

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Parece-me óbvio que a experiência corporal de dor, relativa à canela quebrada, estará alí, de um jeito ou de outro. Afinal, os animais sentem dor, embora nada digam disso. Mas, voltando aos humanos, assim como a experiência corporal, também as emoções estariam ali.

 

A. Damásio é bem claro com relação à isso [link], mostrando o quanto as emoções são uma espécie de orquestração ORGÂNICA do corpo, uma ação do corpo sobre o corpo mesmo – como os hormônios, aliás – que simplesmente não dependem da linguagem para agir.

 

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Agora, outra coisa é a existência dessa ‘canela quebrada’ para o sujeito PSICOLÓGICO. Nossa experiência de “EU” parece muito ligada à linguagem. Nietzsche já sugeriu isso (link), Lacan tem toda uma teoria sobre isso… mas minha questão é: o sujeito psicológico é TODO o sujeito??

 

Chamo a atenção para o fato de que o próprio Freud NÃO pensava o sujeito psicológico como um ser “de linguagem” – ou não apenas isso. Ao menos é o que se pode depreender de seu último escrito, inacabado, conhecido como “Esboço de psicanálise” – cujo primeiro capítulo recebeu dos organizadores alemães o interessante título de “A natureza do psíquico” (Cf. “Nota do Editor Inglês”, pgs 154 do volume 23 das “Obras Completas de Freud”, Ed Imago). Nele Freud supõe que a organização psíquica que acaba de recapitular, dividida em Id, Ego e Superego, caberia também aos animais superiores (pg 159, idem).

 

Então, das duas, uma: ou os animais superiores possuem mais linguagem (e subjetividade) do que costumamos reconhecer, ou eles não possuem linguagem – mas poderiam, mesmo assim, ter os rudimentos da estrutura mental que nos caracterizam. Nesse segundo caso, parece-me que a conclusão lógica é que a estrutura mental NÃO dependeria da linguagem – pelo menos em seus fundamentos.

 

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É claro que não precisamos concordar com Freud. Mas é interessante constatar que, nisso, Winncott e os psicanalistas da chamada “corrente inglesa” permaneceram bastante freudianos. Pois nada impede que, neles, se trace uma espécie de continuidade entre um impulso que, nascido no corpo, no orgânico, ‘deságue’, por assim dizer, no psicológico.

 

Bion talvez seja o mais claro em relação à isso. Conforme tivemos ocasião de comentar (aqui, aqui e também aqui), ele entende que um estímulo, antes de ser elaborado pela psique, constituiria um elemento Beta, e que a elaboração desse estímulo, através de uma função mental que ele chamou de “função alfa”, transformaria o elemento “Beta” em elemento “Alfa”.

 

Note-se: é o mesmo elemento, é o mesmo estímulo. Apenas, quando em estado “beta”, não poderia ligar-se à outros estímulos (ou palavras, ou pensamentos), ou seja, não seria possível constituir uma continuidade, uma narrativa, entre os diversos elementos da experiência – essa seria uma característica dos elementos alfa.

 

Elementos díspares, dissociados, não constituem memória (não se ligam num contexto, não podem ser memorizados em relação a um “Eu”, que também supõe alguma continuidade…). Assim, não podem ser nem guardados nem esquecidos – porque ‘esquecer’ supõe uma elaboração do estímulo, um ativo “não mais querer ver”, que não acontece quando o estímulo não é passível de alguma elaboração / tradução.

 

Grosso modo, o elemento beta poderia ser a percepção a nível corporal, e o elemento alfa essa percepção transformada, traduzida, para um nível utilizável pelo mental.

 

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Obviamente, pode-se discutir se o elemento alfa é efetivamente o “mesmo” elemento beta, após transformado (ou em que consistiria essa ‘mesmicidade’). Mas o que me interessa aqui é a ideia da continuidade, da processualidade, que existiria entre uma percepção ou estímulo ORGÂNICA e a construção de uma partícula de elemento MENTAL.

 

Veja-se que, quando digo que há continuidade ou processualidade, não estou dizendo que existe causalidade ou mesmo direcionalidade específica. Ou seja, não estou dizendo que, analisando-se apenas o elemento beta, poder-se-ia chegar ao elemento alfa, ou vice-versa. Isso porque, para Bion, o fator de transformação – a função alfa – é um fator contingente, isto é, relacionado diretamente às experiências da pessoa, à capacidade de elaboração dos outros representativos para aquela pessoa ao longo da vida – fatores impossíveis de prever ou determinar a priori.

 

Ou seja, entre beta e alfa, existe, sim, diferença. Mas essa diferença não implica em dissociação / incomunicabilidade: o alfa NÃO EXISTE SEM UM BETA ANTERIOR. Sobretudo, para a discussão que nos interessa, não existe apenas o alfa – apenas o mental, o psicológico ou o linguístico. Antes disso já existem elementos corporais muito claros, os quais são suficientes para atualizar alguma subjetividade – mesmo que muito rudimentar e não linguística, mas nem por isso nula (o que vai na direção do que dizia Freud, como apontamos acima).

 

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Voltemos então à nossa “canela”: lá estou eu, com a canela quebrada, mancando. A dor é tanta, que mal consigo perceber o que acontece à minha volta. Minha consciência pode desfuncionar, mas o aparelho psíquico é mais do que minha consciência: ele esta lá, suponho, processando os estímulos que percebo, e transformando, na medida de sua capacidade, esses estímulos (os elementos beta) em elementos alfa.

 

Nessa altura, nossa questão sobre as dimensões do sujeito psicológico podem se transformar em: exatamente em que ponto acontece a percepção da dor? Será necessário um sujeito psicológico plenamente estabelecido para perceber a fratura, ou essa percepção pode dar-se abaixo do nível que estamos chamando aqui de ‘psicológico’?

 

Creio que a resposta é inequívoca, e vai na direção de algo como: não, o estímulo é percebido à nível corporal. Ele não necessita de um sujeito psicológico que o perceba. Uma vez percebido pelo corpo, pode disparar uma série de reações orgânicas, entre as quais se incluem as emoções, e essas reações podem alterar, em conjunto, o estado do corpo – criando toda uma nova situação corporal que pode ter, por sua vez, uma série de consequências no plano mental.

 

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Chegamos, assim, à seguinte proposta: o estímulo inicial – a canela quebrada – dispara uma série de consequências (orgânicas) no corpo; essas consequências podem, cada uma, criar outras alterações corporais (e aí se incluem as emoções). Ou seja, o estímulo único, inicial, na verdade se divide em uma série de estímulos secundários, que criam estímulos ou alterações terciárias… e assim sucessivamente, criando uma série de alterações em cascata. Em cada nível desses, as alterações podem ser percebidas tanto corporalmente quanto mentalmente.

 

Quando existe “mental” suficiente – isto é, função alfa -, é possível que a percepção subjetiva, vinculada ao “Eu”, aquela composta por elementos “alfa”, retroceda até o início da cadeia – a canela quebrada – e a “perceba” como causa de toda aquela série de acontecimentos. Quando esse mental não existe – por exemplo em uma criança de colo, ou, suponho, nos animais – não se dá essa percepção mental – mas a percepção corporal continua existindo, firme e forte, dando sentido e direcionamento para a reação do organismo.

 

Nada impede que, naqueles indivíduos com mental funcionante, ambos os tipos de percepção coexistam – e creio que esse seja o caso mais comum. Entretanto, é claro que só poderemos falar daquela percepção que, por sua própria natureza, foi transformada em elemento alfa – e então pôde ser usada para constituir linguagem, memória, consciência… Mas é ir um pouco longe demais dizer que a outra percepção “não existe” porque não pode ser “dita”. Ela simplesmente não pôde ser transformada, elaborada – mas mesmo assim existe enquanto pressão, empuxo, demanda – justamente aquela tensão que estímulos não elaborados provocam na mente visando sua transformação.

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