Perspectivas sobre “autoridade” – 1

autoridade

Temos muitas vezes noções e juízos que não vem necessariamente de nossa experiência, mas de nosso tempo. As pessoas ao nosso redor, o ambiente que vivemos, favorecem uma certa apreensão da experiência, e assumimos essa perspectiva como ‘nossa’, quase sempre sem perceber essa vinculação. Obviamente, depois de construída essa visão, temos muita dificuldade para definir o que é propriamente pessoal, até porque, em geral, esse tipo de apropriação ocorre com questões que não têm respostas objetivas.

 

Assim, para iniciar o assunto desse post, penso que nossa atitude frente à ideia de “autoridade” é grandemente influenciada por nosso tempo, tanto que, talvez, nem tenhamos sobre esse ponto outra ideia que não seja essa, consensual, que nossa época nos empresta – ou impõe.

 

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Na minha leitura, o tema da “morte de Deus” em Nietzsche contempla também a questão da ‘morte da autoridade’ que estaríamos vivendo. imagino o homem iniciando seus agrupamentos em sociedades maiores (discuto um pouco disso aqui) e tendo que resolver o problema da hierarquia entre os grupos / membros do grupo, e a ideia da autoridade surgindo como resposta ‘natural’ ao problema (dado que até entre os animais um tipo de relação hierárquica se estabelece. Notar também o vínculo entre agressividade e “Eu”, ampliação / demarcação / defesa do espaço do “Eu”, que a psicanálise estrutura).

 

Porém, em algum momento de nossa história recente, surgiram condições para que ultrapassássemos esse modo de funcionamento. Penso que, por um lado, o sucesso na implantação do Estado enquanto “lei” tenha tornado desnecessária qualquer outra autoridade; por outro, talvez o funcionamento do mercado tenha demandado esse declínio, já que, em linhas gerais, menos autoridade = mais consumidores (o consumidor ideal sendo sua própria e única ‘autoridade’).

 

Viveríamos, então, hoje, uma experiência talvez inédita na história da sociedade humana: o declínio, em todos os âmbitos, da noção de “autoridade” como organizador das relações. Assim, os pais encontram dificuldades para impôr uma educação aos filhos, assim como os professores se vêem destituídos da autoridade que tinham a algum tempo atrás. Mesmo instituições precisam se reinventar, face o crescente espaço dado ao indivíduo – Ex.: a polícia, que representa a força do estado, não pode entrar em uma residência sem uma ordem especial – e, no limite, o Estado mesmo se vê questionado (como por exemplo propõe a visão liberal, na qual o mercado – isto é, o indivíduo – regularia as trocas).

 

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Se pegarmos qualquer campo onde exista ainda uma noção de “excelência” – isto é, autoridade -, veremos que, por diversos motivos, existirá também ali um germe de questionamento / desvalorização dessa excelência. Assim, para pegar apenas dois casos (mas o exemplo valeria para filmes, autores, filosofias…):

  • no mundo dos vinhos, sempre houve uma certa hierarquia entre vinhos tidos como melhores, e outros como piores. A definição dessa hierarquia não dependia apenas do gosto, mas da experiência como um todo (o quão difícil é fazer um vinho de tal forma, o quanto alguns resultados demandam processos inusitados, a história daquele vinho, daquele processo, naquele lugar específico / tecnologia / preço, enfim – muitas coisas que não são expressas apenas no gosto).
  • na música, sempre se valorizou a música clássica / erudita como tendo “mais valor” – mas, de novo, não pela experiência da música em si, mas pela complexidade envolvida nos arranjos, na formação do conjunto orquestral, no uso inclusive do silêncio como potencializador, etc

 

Em comum, esses exemplos mostram que a valoração da experiência em questão depende de um conhecimento prévio, maior, sobre o assunto. A experiência direta, pontual, “presente”, não é capaz de exprimir tudo o que a “aristocracia” da vivência em questão vislumbra no processo, simplesmente porque a experiência das autoridades no assunto contempla também um para além da experiência, que está na história, no passado, no contexto, mais do que no texto simplesmente.

 

Na medida, porém, em que se questiona qualquer autoridade, a própria experiência com a “excelência” se perde, se desvaloriza, muda de sentido. Perde o lugar.

 

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A questão aqui não é dizer que a música erudita “É” melhor do que a música popular, ou que é necessário que exista uma hierarquia para os vinhos inacessível para o público comum. A questão é mostrar como nossa relação com a hierarquia mudou, levando tanto à uma “democratização” da hierarquia em si – e a música erudita ganha espaço no público comum, mesmo que ele não detenha o conhecimento necessário para a apreciação da obra em toda sua complexidade, o mesmo valendo para o vinho – quanto a um declínio / desorganização da experiência que definia a hierarquia.

 

Em outros termos: ampliou-se o “mercado” consumidor dos vinhos “finos”, mas a própria valorização do “fino” em si mesmo declinou. A tendência é que vinhos que detinham uma valorização ligada à sua história e/ou ao conhecimento necessário para apreciá-los percam espaço para vinhos mais “instantâneos”, onde a experiência direta define o que é melhor (um exemplo aqui).

 

Consequência desse estado de coisas é também a atual supremacia da propaganda. Já que não há mais espaço para que autoridades definam hierarquias, passa a valer apenas o imediato, a experiência direta, sensível. Dito de outra forma: na medida em que já não dispomos do passado (ou da tradição) como suporte de nossa prática, instaura-se um ‘vale-tudo’ onde vence aquele que grita mais alto. Quase independentemente dos argumentos [1]. E o grito mais alto é geralmente aquele que mira nos sentidos (pense em como as propagandas utilizam o sexo, a conquista amorosa, ou os sinais de felicidade / riqueza, como bordões repetidos ao infinito).

 

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Para resumir: a lateralização das relações – baseada numa valorização do indivíduo – substitui as relações verticais, aristocráticas, hierárquicas – que organizavam as relações grupais -, com resultados os mais diversos. Instaura-se ao mesmo tempo uma carência e uma liberdade com relação a esses suportes: não estamos mais presos aos suportes tradicionais, mas também não encontramos suportes disponíveis, prontos, para utilizar. Precisamos, enfim, criar nossos suportes. E esse é um dos grandes problemas de nosso tempo – porque liberdade sem criatividade (autopoiese) se confunde perigosamente com abandono –

 

(continua)

 

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Notas:

[1] Aliás, aproveitando que estamos em época de campanha política: é impressionante ver como os candidatos e suas equipes realmente acreditam – provavelmente com razão – que uma campanha é simplesmente questão de dinheiro e marketing. Basta criar uma imagem e jogar bastante luz sobre ela que os eleitores – como algumas espécies de peixe que são atraídos pela luz – caiam na história, de forma completamente dissociada de qualquer aspiração concreta dos eleitores mesmo, de qualquer coisa que faça sentido organicamente, a partir da experiencia mesma do eleitorado.

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