A ciência e o visível – o caso da psicanálise

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  1. A ciência começa no visível

 

Por muito tempo, o homem só teve um tipo de auxílio em seu esforço pela sobrevivência: os sentidos. Perceber um animal, sentir seu cheiro, ouvir os barulhos que ele faz, eram ferramentas inestimáveis. O mundo era percebido diretamente pelos sentidos, e prendiam o homem ao presente, ao real. Não por acaso, até hoje, todos somos um pouco “Judas” – só acreditamos vendo.

 

Só que muito cedo também o homem aprendeu a se relacionar com o que ele NÃO VÊ: os deuses, a relação com os mortos, a astrologia, foram todos expressões de coisas que o homem sentia – e que demandavam um sentido. A religião, inicialmente, expressava o fato de  o homem necessitar explicar as coisas – se tudo tem uma causa, então qual será a causa primeira? – Deus foi a primeira resposta, embora invisível, para um anseio claramente VISÍVEL, percebido, de sentido.

 

A questão do sentido põe às claras um ponto fundamental para se pensar o conhecimento humano: ele tende a servir à demanda de sentido humana, mesmo em detrimento da verdade.

 

Imaginemos que num dado momento da nossa pré-história, um ancestral começa a reparar que quem bebia água da fonte X, acabava adoecendo. “Porquê”, pensou ele? ‘Talvez um “DEUS” esteja enfurecido naquela fonte”, conclui, e isso faz com que ele deixasse de beber lá. Logo a aldeia inteira adota esse ponto de vista e deixa de passar mal em função daquela água.

 

O que aconteceu? O conhecimento está nitidamente errado, diríamos, nós; mas mesmo assim foi efetivo. Explicou a situação, inseriu um sentido em algo até então enigmático, e sobretudo resolveu o problema.

 

2. A ciência avança no invisível

 

Com o avanço do conhecimento, logo conclusões antigas pareceram não dar mais conta dos fenômenos. Se não acreditamos mais em deuses, temos que encontrar outra explicação para o adoecimento causado por aquela fonte de água. Então, o conhecimento avançou, incluindo pontos de vista que antes não eram considerados.

 

Podemos dizer, generalizando, que  antes o conhecimento tendia a ser mais antropomórfico. Ele expressava a relação direta do homem com as coisas, ou, de outro lado, uma relação imaginária, mas ainda nascida de uma necessidade direta – a necessidade de termos “pais” celestes, ou a necessidade de os mortos existirem em algum lugar, pois nós sentimos falta deles, etc.

 

Hoje, ultrapassamos, em certo sentido, essa “medida” antropomórfica do conhecimento. O recenseamento de dados e a confrontação dos mesmos permitiu um tal avanço do que conhecemos que muitas vezes nosso conhecimento simplesmente deixou de ser palpável: conhecemos coisas que mal podemos experimentar, embora todas as nossas teorias sustentem que é assim que as coisas são.

 

A gravidade é um exemplo simples. Galileu postulou que as duas pedras deveriam cair com a mesma velocidade, independentemente de seu tamanho. Na verdade, a tese incluía a ideia completamente anti-intuitiva de que uma PENA e uma pedra cairiam a mesma velocidade, se pudéssemos desconsiderar a resistência do ar. Veja, nós não vivemos num mundo aonde possamos desconsiderar a resistência do ar: nada em nossa experiência direta nos mostra que a pena cairia com a mesma aceleração da pedra.

 

Entretanto Galileu provou, e experiências[1] posteriores confirmaram, que as coisas acontecem assim. O que significa, em poucas palavras, que ultrapassamos a medida de homem antiga com nosso conhecimento atual; conhecemos coisas, hoje, que a maioria de nós simplesmente não tem como experimentar diretamente. Ao mesmo tempo, expandimos a medida do que seja o “homem”, pois esses conhecimentos nos permitiram chegar ao espaço, construir aviões, voar.

 

3. Sentido, utilidade e verdade

 

Embora nosso conhecimento avance, nunca poderemos ter a CERTEZA de que encontramos a verdade última sobre as coisas. Basicamente, não lidamos com as coisas diretamente, quando pensamos sobre elas, mas somente com nossas ideias, nossas representações das coisas. Então podemos conseguir no máximo uma certa coerência entre nossas ideias, e torcer (ou pesquisar!) para que essa coerência espelhe o funcionamento das coisas na realidade.

 

Por outro lado, simplesmente não temos como saber o que se passa com as coisas “em si mesmas”, porque sempre nos relacionamos com elas visando algum fim, alguma utilidade HUMANAS. Nesse sentido, nossas práticas nos levam a construir certos conhecimentos, e nossos conhecimentos nos permitem criar novas práticas. Uma coisa leva à outra, mas sempre com um viés humano nessa abordagem.

 

O entrelaçamento entre conhecimento e prática faz com que, também, “conhecer” não seja um ato simples, válido por si mesmo, nem que o avanço no conhecimento se deva apenas ao esforço dos envolvidos: questões políticas, religiosas, tabus, forças econômicas, influenciam e direcionam o conhecimento, aproximando-o de certos temas e afastando-o de outros, adotando conclusões que entram em sintonia com o status quo e dificultando a adoção de ideias que quebram essa sintonia e obrigam a uma remodelação do conhecimento.

 

Por fim, as coisas não andam necessariamente  juntas. Existem conhecimentos que ainda não deram frutos na prática – como questões de física quântica ou algumas conclusões da teoria da relatividade geral de Einstein -, assim como práticas que ainda não foram completamente compreendidas (como alguns remédios e tecnologias).

 

4. A psicanálise

 

Temos então um grande quadro do que seria o conhecimento: um esforço por dar sentido, por dominar algum fenômeno, atravessado por diversos vetores sociais – econômicos, religiosos, institucionais, etc – e impossível de verificar de forma absoluta, sendo sempre aproximativo e tendo como meta algum uso, alguma prática, algum sentido. Numa palavra, a resolução de algum problema.

 

Todo esse quadro epistemológico serviu apenas para contextualizar como entendo a complicada questão do conhecimento em psicanálise. Dito de forma simples, o conhecimento psicanalítico deveria ser tentativa aproximativa (como todo conhecimento) de explicar certos fenômenos clínicos, tendo seu “lastro”, sua garantia de valor, na efetividade clínica. É isso que acontece? Mais ou menos.

 

Freud, por um lado, conhecia muito bem o método científico e fazia questão de ressaltar que suas teorias eram hipóteses, ideias que ajudavam a avançar na pesquisa de um campo ainda inexplorado. Por outro lado, Freud mesmo comportou-se como um fundador de religião, colecionando amizades e inimizades conforme os “súditos” se convertiam ou não às suas teorias.

 

Por outro lado, ao propôr a existência de um “inconsciente”, a psicanálise criou pra si mesma um problema de difícil solução: o inconsciente seria por definição um “invisível”, algo não visto em si mesmo, mas somente inferido como princípio explicativo de outros fenômenos, esses sim, visíveis, mas aparentemente sem sentido.

 

Assim, se eu digo “adeus” a um recém conhecido, quando queria dizer “olá”, um psicanalista poderia propôr que esse aparente ERRO foi na verdade uma expressão do inconsciente, pois, por algum motivo, eu não gostei do interlocutor e gostaria, no fundo, de encerrar logo a conversa. A proposição tem lógica, mas como posso ter certeza de que esse invisível – o inconsciente – é que explica a situação, e não outra coisa?

 

Na clínica, o próprio desenvolvimento da ‘sessão’ poderia confirmar a interpretação ou não; ao ter sua atenção chamada para esse fato – o não gostar do interlocutor – talvez o paciente se dê conta de que, realmente, ele não tinha gostado daquela conversa, etc. Então, o andamento da sessão confirma a interpretação. Mas isso poderia não acontecer – e então a interpretação foi simplesmente um erro, e deve ser deixada de lado.

 

Freud apregoava claramente que é a fertilidade da interpretação que decide sua validade – e não a pretensa “verdade” da mesma. Se eu digo que o problema do sujeito é a relação dele com sua mãe, o que me importa, clinicamente, é o que vai surgir dessa proposição, e não o fato real de que ele tenha uma mãe assim ou assado.

 

O que quero dizer é que, em resumo, o conhecimento é por si só um campo onde é difícil avançar, não só pelos inúmeros atravessamentos que aí incidem, mas pelo fato intrínseco de que conhecer não é expressão direta das coisas, mas sim expressão de nossa relação com as coisas. No meio disso tudo, a psicanálise ainda

 

a) inventa um “inconsciente” que não pode ser diretamente percebido, mas é sempre, por definição, inferido indiretamente;

b) propõe, a partir desse inconsciente, que temos fantasias as mais esdrúxulas possíveis (a mãe e seus objetos, o pênis e sua castração, os significantes e os nomes-do-pai, etc);

c) vincula a resistência em assumir uma certa posição com a confirmação de que essa posição é correta – se eu reluto em admitir uma coisa, talvez essa relutância mesma prove que a coisa é correta, etc;

d) tem um passado quase “religioso”, com hordas de seguidores para um lado e para o outro, em flagrante contraste com o que seria esperado de um grupo de cientistas em busca de uma aproximação da verdade de interesse de todos;

e) não procura dialogar com outras ciências ou outras formas de entender os mesmos fenômenos;

f) não valoriza o conhecimento empiricamente obtido e parece não se esforçar por buscar provas empíricas que validem suas proposições.

 

Enfim… A psicanálise não se ajuda!

 

5. Conclusão

 

Tentei mostrar como o problema do conhecimento é um problema complexo em si; ao aplicar nossas expectativas (legítimas!) de conhecimento à psicanálise – que também é algo complexo -, complicamos ainda mais o quadro…

 

Entretanto, o fato de algo ser complicado não implica que não deva ser utilizado: desde que existam indícios suficientes de sua aplicabilidade, efetividade, produtividade, etc. Logicamente, cada um vai estabelecer uma relação com a psicanálise e suas ferramentas, tornando a questão de definir se ela “é” ou “não é” útil uma questão muito pessoal, dependente da experiência de cada um. Na falta de um consenso sobre esse ponto, devemos basear nossa aceitação em nossa experiência.

 

Felizmente, a psicanálise atual está deixando (aos poucos…) de ser aquela corrente algo ensimesmada que achava que “não precisava” validar seus pontos, ou traduzir seus achados em termos de outras perspectivas teóricas, outras linguagens, etc. A própria  possibilidade de trocar experiências com outras áreas – que por muito tempo foi mal vista, dada a pretensa ‘supremacia’ da psicanálise – hoje volta a ocorrer, permitindo tanto uma extensão quanto uma correção de sua aplicabilidade.

 

Resta esperar que esses esforços rendam frutos; enquanto isso, pra encerrar, podemos usar a psicanálise como um cego usa uma vareta – tateando, devagar, sem supôr que a realidade mesma consiste na vareta que usamos para gerir as nossas cegueiras.

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