A menina-flor

menina flor

 

Amaro conhecia Bianca desde pequeno. Cresceram juntos num bairro simples de uma cidade do interior. Foram colegas, foram confidentes, foram amigos. O início da vida adulta os separou. Bianca foi estudar na capital, e Amaro ficou. Por razões mais ou menos obscuras, escolheu ser padre.

 

Padre Amaro era bem visto na cidade. Tratava a todos com respeito, alegria até; mas tinha sua estranheza, sua ‘pequena loucura pessoal’, como ele dizia. Sua verdadeira alegria estava na relação com as plantas. Falava com elas, referia-se a elas como amigas, usava-as em seus sermões: “as plantas, meus amigos, tudo nos dão, sem nada pedir; basta estender os braços…”, etc.

 

Bianca casou. Mas após um longo intervalo, voltou à cidade natal. Diziam que ela apanhava do marido. De fato, mancava um pouco; olhava as pessoas de soslaio. Era estranha. Ninguém sabia de nada, mas todos comentavam.

 

Tendo o pais falecido, Bianca era sozinha no mundo. Nada mais natural, portanto, que se voltasse para os velhos conhecidos, os velhos rostos, entre eles o do padre Amaro. Só que o rosto do padre não era velho, pelo contrário; continuava moço, viçoso. Uma “planta bem cuidada”, ele dizia, quando alguma jovem o elogiava – para logo se retirar. Padre Amaro era muito sensível. A amizade antiga aproximou-os novamente.

 

***

 

E então a natureza fez das suas. Bianca sofrera muito nas mãos do marido. Voltara à cidade natal fugindo, disposta a não mais se envolver com homem algum. Mas Amaro era tão tranquilo, tão calmo. Sem que ela percebesse, a amizade neles foi se tornando algo mais profundo, confuso, tenso. Não bastava estarem juntos. Ela queria algo mais.

 

O padre sentia essa tensão muito distintamente. Ele, que sempre encontrava refúgio nas plantas, parecia incomodado com esse outro tipo de vida, digamos, mais animal. Sofria com ela, evitava-a a todo custo. Aquela situação o desestruturava por dentro, e ele conjecturava o que fazer.

 

Uma noite – fazia calor na cidade, um calor úmido – Bianca foi até o quarto do padre sem se deixar notar. Foram amigos, cresceram juntos, e aquelas bincadeiras não eram exatamente novas para ambos. Bianca chegou-se discretamente ao ouvido do padre, e disse-lhe algo como “Amaro, eu sou como tuas plantas; eu também quero me dar inteira pra ti; não te peço nada, apenas que estendas tuas mãos”.

 

O padre estava horrorizado.

 

***

 

Era tarde da noite, e o calor transformou-se em chuva. Alternando ruídos secos de trovões com pancadas indistintas, a chuva espalhou pela cidade sua benção, trazendo alívio a todos. Segundo uma tradição meio esquecida, é em dias assim que transformações chegam às nossas vidas. Sem aviso.

 

Talvez isso explique o que aconteceu com Bianca, que não foi mais vista na cidade depois daquela noite.

 

Dizem uns que ela se mudou novamente, ou voltou para o antigo marido. “Tem mulher que gosta de apanhar”, dizem. A maioria deu de ombros, culpando secretamente a mulher pelo estado do padre, cada vez mais taciturno. Alguns poucos, no entanto, uma minoria, olhavam o padre com desconfiança.

 

Amaro mais e mais se apegava à suas plantas.

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