Vontade de conhecimento como efeito da maternagem

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É preciso um caos dentro de si

para dar luz à uma estrela brilhante.

(Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).

 

 

Nietzsche diz, em uma passagem do Crepúsculo dos Ídolos [1], que o “espírito” no homem é um movimento anti-natural. Vários aforismos vão nessa direção (por exemplo, o §230 de “Além do Bem e do Mal”), e nos permitem concluir que para Nietzsche a vontade de conhecimento é uma espécie de auto-agressão, porque exprime o inverso daquilo que seria o ‘normal’ para o homem – ou seja, a vontade de ilusão.

 

De fato, iludir-se parece ser um movimento morro abaixo: basta deixar-se ir. Conhecer, ao contrário, é um movimento “morro acima”: exige esforço, atenção, tensão – sobretudo ali onde se defrontam o conhecer e o querer. Mil caminhos levam ao desconhecimento. Um caminho apenas, e estreito, leva ao conhecimento.

 

A psicanálise dá suporte a essa ideia de diversas maneiras. Freud, por exemplo, propôs já n”A Interpretação dos Sonhos” que o aparelho mental era basicamente um aparelho para alucinar uma satisfação. Entende-se que isso tenha sido – e continue sendo? – todo um escândalo. Mas é em Winnicott que gostaria de me deter nesse post.

 

Para o autor inglês, nossa relação com o real é uma relação tensa – “a realidade é uma ofensa”, ele dizia – uma ofensa à nossa (imaginada) onipotência – mas, e aí está o difícil da coisa, deixar de conhecer, de lidar com o real, também é uma “ofensa” à nossa onipotência. O homem estaria, então, preso entre dois impossíveis: conhecer o que o real “E” e deixar de conhecê-lo absolutamente; porque em ambos há pouco espaço para o sujeito e SUA realidade.

 

***

 

Em sua teoria do desenvolvimento, Winnicott aponta que para chegar à uma relação sadia com a realidade, primeiro o bicho-homem precisa ser bem iludido pela maternagem; a realidade começa na ilusão.

 

É que ao atender aos anseios da criança, a mãe acabaria inevitavelmente sobrepondo duas coisas de ordens absolutamente diferentes: o desejo ou necessidade da criança e o objeto real que sacia essa necessidade.

 

O anseio do bebê é subjetivo, é interno ao bebê. Ele – o desejo – aponta para um objeto real que lhe satisfaça a necessidade, mas ele – o bebê -, psicologicamente nada sabe sobre esse objeto. Para ele (bebê) a realidade ainda não existe. Apenas existe o desejo / necessidade. A mãe, entretanto, oferece um objeto real que sacia a necessidade do bebê. E assim, pela própria repetição desse gesto, sustenta na criança a ilusão de que desejo (subjetividade) e objeto (objetividade, realidade) pertencem à mesma ordem de coisas.

 

O que acontece aí é que a mãe sustenta a sobreposição entre a necessidade interna e um objeto externo. Eis porque essa seria a fase da ilusão, ou da onipotência: porque a maternagem, o cuidado materno, sustentaria no bebê a ilusão de que, “colado” à necessidade, há sempre um objeto que a satisfaça. É como se a realidade – o objeto que satisfaz – estivesse à serviço da necessidade. Por isso Winnicott fala em ‘onipotência’ nessa fase, porque é como se – do ponto de vista do bebê – o seu desejo comandasse o real.

 

***

 

Para Winnicott, a mente se forma a partir da elaboração imaginativa das experiências do corpo. Ora, o corpo está experimentando ao mesmo tempo a sensação de necessidade e a percepção do objeto, e é natural que ambas as experiências acabem se misturando na mente.

 

O que estou querendo dizer é que, do ponto de vista psicológico, a sensação de “real” que damos à realidade enraíza-se na sensação de “realidade” que sentimos em nossas próprias experiências subjetivas. Acreditamos no real porque acreditamos no “Eu”. Ambos desenvolvem-se mais ou menos juntos na mente, e por um tempo parecem ser inclusive a mesma coisa. Mais precisamente: ambas enraízam-se nas mesmas experiências de cuidado.

 

***

 

Com o desenvolvimento, chega um ponto em que o bebê já confia nessa sobreposição entre o objeto e sua necessidade. E a confiança na existência dessa ligação, isto é, na existência de algo, no real, que pode me ajudar, acaba servindo para tolerar os momentos em que justamente o real NÃO se mostra ligado à minha necessidade.

 

Dizemos que o bebê internalizou o cuidado materno quando ele estabeleceu esse vínculo (real x mundo interno), e esse cuidado internalizado lhe permite tolerar a frustração a cada vez que a mãe não sustenta mais a sobreposição entre necessidade e objeto. Essa tolerância à frustração – ou seja, ao real enquanto “outro”, enquanto realidade ego-distônica – terá, claro, seus limites. Para além desse limite, existe ainda, no entanto… a mãe real – ou seja, ela continua ali, e continua, idealmente, ajudando, explicando, resolvendo os problemas.

 

Vemos assim que o processo todo é uma espécie de troca, onde um tanto de onipotencia, de um lado, pode ser “trocado” por um tanto de realidade, de outro. O pivô, o operador, desse processo, é o cuidado, ou seja, a relação real de facilitação / suporte / continência estabelecida entre o sujeito e o ambiente. “Permitir” que a realidade apareça implica em ter uma certa quantidade de cuidado “guardada” (internalizada), na forma daquela confiança de que o real, no fundo, espelha a nossa vontade. Quando a confiança nessa relação não se sustenta, busca-se no ambiente um reasseguramento daquela relação entre o real e a minha necessidade (ou seja, mais cuidado).

 

***

 

É nítido o quanto esse mecanismo NÃO é voltado para o ‘conhecimento da realidade’, mas, antes, para um “suportar”, para um “conviver”, tenso, entre duas ordens diferentes e soberanas – o mundo interno e o mundo externo. Creio que fica claro também o quanto o grupo, a família ou a sociedade inteira podem acabar servindo de sustentação para a ilusão de que existe uma relação entre minha necessidade e o real – ilusão, por um lado, necessária, mas, por outro, perigosa… (basta pensar nos preconceitos como mentiras necessárias à relação com uma realidade distônica demais para certas pessoas).

 

De toda forma, a ideia geral é que só abdicamos do controle onipotente  da realidade na exata medida em que aprendemos a confiar no acolhimento do grupo (do ambiente). “Conhecer” dependeria, então, de um quantum de relação bem estabelecida, e não seria simples questão cognitiva.

 

Em outras palavras, a realidade que permitimos existir seria aquela aonde meu desejo consegue se legitimar de alguma forma, ou seja – como diria Freud -, uma formação de compromisso  aonde tanto a realidade enquanto realidade quanto o meu desejo são atendidos em parte. Mas eu sustento alguma realidade apenas na medida em que isso permite que eu sustente meu desejo.

 

***

 

Fundamental nesse processo é o ritmo em que se dá a troca (cuidado x realidade). Se a criança puder sustentar o processo sem se sentir invadida – isto é, sem que sua tolerância à frustração seja exigida demais – então aquela crença primeira de uma espécie de continuidade entre o Eu e o real pode se manter. Isso permitirá então uma espécie de tranquilidade na relação com o outro – o real, em todas as suas formas – derivada do crescimento espontâneo da relação entre esses dois diferentes.

 

Mas quando esse ritmo não é respeitado, pode ser que a criança se sinta obrigada a lançar mão de outras ferramentas, e uma delas será justamente o pensamento.

 

Para Winnicott, o pensamento nasce como uma espécie de compensação, de busca, para compensar as falhas do ambiente. Sabemos que se a mãe não está alí, a criança pode tolerar essa ausência na justa medida em que aprendeu a confiar no cuidado da mãe. Pensar permitiria expandir um pouquinho mais essa tolerância. É como se a criança dissesse: “a mãe não está aqui; porque será? não importa, logo ela deve chegar”. E então a criança passa a confiar nesses pensamentos – nessas razões – como antes confiou no cuidado materno. Pensar, assim, seria uma espécie de ambiente (interno) substituto; um ambiente que a criança comanda, e cujas razões se destinam, num primeiro momento, a aplacar sua angústia.

 

***

 

É exatamente o mesmo que diz Nietzsche: pensar é, inicialmente, uma ferramenta destinada a aplacar nossa angústia, não uma ferramenta para conhecer; muito menos para conhecer o real. O que nos permitiria imaginar – como o próprio Nietzsche sugere em algumas passagens  – que o pensador, o filósofo, muitas vezes está às voltas com problemas muito próprios, muito pessoais, na relação com o real, embora pretenda estar tratando do real em si.

 

Obviamente, isso nada nos diz sobre o pensamento em si mesmo, isto é, sobre as razões, teorias ou filosofias que surgirão dessa necessidade pessoal, dessa ‘ferida’ pessoal na relação com a realidade. Mas pode nos ajudar a compreender a compulsão de alguns na busca por entender o real, assim como a aparente insuficiência desse entendimento, quando pretensamente alcançado, para aplacar a angústia. Consideremos ainda o quanto daquele sentimento de onipotência ressurge no pensamento, aparentemente livre das amarras do real…

 

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Notas:

1 – Crepúsculo dos Ídolos, cap. “Máximas e flechas”, 6 (pg 10 da edição de 2006 da Cia das Letras)

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