Um homem

um homem

 

Eu tinha mais coragem quando jovem. Uma vez, adolescente ainda, disse pra mim mesmo que “agora podia morrer”, só porque fiquei com uma guria que parecia impossível para mim.

 

“Morrer”. Que sabia eu de “morrer”, aos quinze anos?

 

***

 

Hoje as coisas são diferentes. “Não sei se preguiçoso ou se covarde”, como diz o Chico, mas não digo mais “agora posso morrer”. Gosto mais da vida, e só. Acho que é isso. É um fato.

 

Também conquistei mais coisas; não posso nem pensar em deixá-las pra trás, assim sem mais nem menos. Dizem que “possuir é ser possuído”, mas de fato muitas coisas me enraízam na vida agora, coisas que eu mal percebia antes.

 

***

 

Por exemplo, meus desejos. Na minha juventude, ter desejos era uma espécie de sofrimento, porque eles quase nunca se realizavam. Ser jovem é lutar para existir, para deixar de realizar o desejo dos outros. Mas daí até sustentar o próprio desejo há um longo caminho… e mais longo ainda é chegar a poder realizá-los.

 

***

 

O engraçado – e bom – da história é quando nos surpreendemos a nós mesmos, querendo coisas que antes não estavam em nosso campo de visão. De repente, por algum motivo, algo se torna importante. Bem analisado, é uma nova vida, um novo ‘broto’ de vida que nasce ali. Ganhamos um novo território no mapa da existência, e agora nos cabe colonizá-lo.

 

Nunca me interessei por motos, por exemplo. Um dia, sem mais nem menos, comecei a achar legal aquilo. A liberdade, a ousadia, a rebeldia – e também a economia… – de ser um motoqueiro brilhavam pra mim, e algo me perguntava insistentemente como eu ainda não estava lá, vivendo esse novo mundo.

 

É assim. Os desejos nascem, e muitas vezes se impõe. A gente é que tem que se virar pra achar um lugar pra eles, como uma visita que chegasse sem aviso.

 

***

 

Minha ideia é que esse visitante estrangeiro somos nós mesmos, já se vê; uma parte de nós que nesse meio tempo andava em outro lugar, não sei bem aonde. E é bom receber sua visita, e expandir aquilo que somos.

 

Quem olha de fora pode até dizer: “ah, mas a moto dele é mesmo bonita”, ou “pra quê gastar dinheiro com isso?”. No fundo, não é a moto, mas a visita, a expansão daquilo que somos, que mais importa.

 

***

 

Bem analisado, acho que foi isso que eu quiz dizer, naqueles longínquos quinze anos, quando disse: “agora já posso morrer”. Era uma forma de celebrar a vida, de dizer o quanto ela me parecia feliz agora. Mas era também uma forma de dizer que morria alí minha juventude, como se um visitante não esperado chegasse repentinamente, um visitante para o qual eu poderia ter perguntado, naqueles verdes anos: “mas quem é você?”, obtendo então, como resposta: “um homem, meu caro, apenas um homem”.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s