Bergson, Damásio, Freud & Winnicott: um romance psico-biológico

evolucao

 

Em algum lugar de seus escritos (talvez n’A Evolução Criadora’? – Cito de memória), Bergson comenta que a diversidade das formas de vida não poderia ser explicada sem um princípio orientador. Isto é, que o puro acaso seria insuficiente para explicar nossa diversidade biológica do ponto de vista da sua criação.

 

Não estou, com isso, discutindo a seleção natural. Afinal, essa atuaria depois, selecionando os organismos melhor adaptados ao meio. Mas se a criação também ocorresse “naturalmente”, sem uma direção, veríamos, ainda hoje, formas de vida absolutamente caóticas, inapropriadas – ou ao menos seus restos.

 

Não é o que acontece (até onde eu sei). Embora a vida dê, sim, seus tateios, na maior parte do tempo ela pareceria seguir alguns fios diretores, ou pelo menos parar de arriscar naquilo que já se mostrou adequado.

 

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visao

Pensemos na estrutura dos olhos, por exemplo. Ela é compartilhada por várias espécies (inclusive marítmas), e parece difícil explicar sua “supremacia” ou constância (genericamente falando) apenas do ponto de vista da seleção natural. Afinal são literalmente diversas estruturas complexas conectadas; se cada uma pudesse variar aleatoriamente – sem que aí interviesse um fio condutor – nós muito dificilmente chegaríamos a repetir sequer o sucesso alcançado pelo primeiro “olho”.

 

É mais provável – e esse era mais ou menos o argumento de Bergson, conforme me lembro – que algum fator diretivo influa na criação, ajudando a manter o que funciona – sempre do ponto de vista da criação, não da destruição ou seleção – e a criar formas com maior probabilidade de  adaptação.

 

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Pois bem, que fator seria esse? Uma das possibilidades elencadas por Bergson seria justamente a relação do organismo com o meio. Pegando o exemplo do olho mais uma vez, poderíamos dizer que ele seria o resultado justamente do encontro da massa viva com o estímulo luminoso.

 

Assim, em algum longínquo momento do passado, a célula viva teria adquirido a capacidade de sentir – perceber – a luz, e se adaptado para cada vez perceber melhor esse estímulo.

 

O grande “nó” nessa questão é que ela implica que a matéria viva tenha uma capacidade de “perceber” o ambiente e de reagir a ele criando soluções – algo que beira a inteligência. Não vamos discutir esse argumento. A partir daqui vamos aceitá-lo tal como está, e acompanhar suas consequências junto com algumas proposições de Damásio para nosso aparelho mental. Guardemos apenas que, segundo o que ficou dito, não seríamos fruto apenas do acaso (seleção natural), mas da combinação do acaso com um certo esforço da matéria viva na direção da vida.

 

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Damásio propõe, no seu livro sobre a Consciência (resumo do primeiro capítulo aqui), que o sistema cerebral como um todo pode ser entendido como a evolução daquele primitivo esforço da matéria viva por adaptar-se ao meio – por interagir com ele – mantendo seu meio interno a salvo – mantendo a homeostase.

 

Se admitirmos esse esforço como uma característica da matéria viva – o que é mais ou menos aquilo que propunha Bergson – podemos tentar interpretar toda a evolução das formas da biologia como o resultado desse esforço. E, voltando nossa atenção para nós mesmos, podemos tentar entender como cada característica de nossa mente ‘responde’ a uma certa situação na relação do organismo com o ambiente.

 

Pensemos, por exemplo, na memória, e nos perguntemos: “porquê a matéria viva teria sentido necessidade de criar nos organismos uma memória?”. Ou: “qual a necessidade de um sistema nervoso?”. Creio que encontraremos várias respostas possíveis, a dificuldade estando em encontrar razões apenas – para o psicológico.

 

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Bem. Sabemos que a memória está em constante relação com dois sistemas essenciais para a vida, quais sejam, o sistema perceptivo e o sistema muscular ou relacionado ao movimento. Basicamente, ela armazena as percepções do organismo, e as informa ao sistema muscular diante de novas situações envolvendo questões ou escolhas do organismo.

 

Uma primeira resposta seria dizer então que a memória auxilia na preservação da vida. Como diz Bergson em “Matéria e Memória”, poderíamos inclusive relacionar o tanto de passado armazenado por um organismo com sua capacidade de ação sobre o futuro, ou seja, quanto mais memória, mais liberdade de ação, mais informação na escolha da ação, mais domínio sobre o ambiente.

 

Entretanto, o que gostaria de salientar aqui é o quanto a criação de uma memória nos informa sobre a situação da realidade ‘em si’ – aquela que, supomos, é ‘percebida’ pelo organismo vivo em seu esforço de perseverar. E o quanto isso pode ter tido consequências imprevistas para a maneira como nós vivemos.

 

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A existência de uma memória implicaria em duas coisas, sempre do ponto de vista da matéria viva: primeiro, que as relações do organismo com o meio mantém alguma constância – e então vale a pena preservar algumas percepções e ações do passado para, então repeti-las num futuro – e ao mesmo tempo que não existe constância suficiente para que essas repetições possam ser armazenadas – ou cristalizadas – no orgânico.

 

Explico: se uma função é consistentemente constante, pode ser “introjetada” pela matéria viva e traduzida num órgão ou função. Temos, assim, populações inteiras de animais que sobrevivem comendo plantas. Se a existência de plantas não fosse uma “constante” para a matéria viva, podemos supor que ela não ‘criaria’ formas de vida baseadas em plantas, ou que, pelo menos, essas formas não sobreviveriam. Da mesma forma, a existência constante de oxigênio na atmosfera permitiu que as formas de vida saíssem das águas em direção à terra firme.

 

Agora, certas situações têm constância intermediária. Não podem ser ditas constantes, mas também não são tão caóticas que não valha a pena manter algum registro de seu funcionamento. Assim, um organismo pode lembrar que em tal região quase sempre tem comida em tal época do ano. Ou que em outra região costuma haver água, etc.

 

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Se mantivermos a perspectiva genérica acima, podemos dizer que nossa espécie está em estreita continuidade com as demais. Teríamos apenas uma memória um pouco expandida e um sistema nervoso mais complexo para lidar com toda a informação armazenada, mas a direção do desenvolvimento parece clara.

 

No entanto, também parece claro que algo nos separa. Aonde localizar esse ‘algo’? Proponho, no contexto do que viemos discutindo, que nossa diferença em relação aos outros animais não se dá tanto em nível biológico, quanto em algo relacionado à dependência social do organismo humano justamente em função da ampliação daquele mecanismo de apropriação / memorização do ambiente.

 

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Se a memória tiver mesmo relação com a apropriação que um organismo faz de seu ambiente, podemos pensar no homem como uma espécie que ampliou tanto esse mecanismo que se tornou capaz de prescindir de um ambiente específico, ou, dito de outro modo, que se tornou capaz de se adaptar a qualquer ambiente.

 

A apropriação de um ambiente se dá, vimos acima, através de uma memorização ampla das relações do organismo com ele. Se no caso do ser humano essa memorização se expandiu para diversos tipos de ambiente, como passá-los adiante, como ensinar às novas gerações aquilo que a memória dos antigos apreendeu?

 

“Aumentando a dependência do organismo em relação aos organismos mais antigos” – essa poderia ter sido a  resposta da matéria viva. Assim, a dependência da cria humana em relação aos mais velhos – uma ‘escolha’ biológica, afinal – permitiria que o aprendizado se desse independentemente do ambiente concreto onde os organismos humanos vivem.

 

Só que, no mesmo movimento, essa dependência e essa memória aumentadas se conjugaram, fazendo com que as experiências do desenvolvimento adquirissem uma importância também aumentada. E com isso, creio, poderia estar nascendo aquilo que hoje chamamos de … psicologia.

 

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Entendo por “psicolóǵica” essa parte de nossa existência fruto das experiências de desenvolvimento / relacionamento iniciais, aonde a criança humana aprende a se relacionar com o “ambiente” dos pais. Cria-se aí, por exemplo, um “Eu” que é relativo ao ambiente social, ao lado ou para além daquele “Eu” ou “Ego” que possa existir corporalmente, aquele que, podemos supor, existia ‘naturalmente’ a partir da internalização operada pela matéria viva das funções ou condições constantes – e benéficas – na relação do organismo com o ambiente.

 

O Ego corporal seria, assim, fruto das relações constantes armazenadas no organismo – poderíamos dizer, as relações com a matéria, com a manutenção dos níveis de equilíbrio necessários ao funcionamento do organismo, etc -, enquanto o Ego psicológico seria relativo às relações menos constantes, aquelas ligadas à memória, ao indefinido que caracterizaria algumas relações do organismo com o meio, especialmente no homem.

 

O próprio Damásio propõe que haveria um Ego ou consciência básica ou primária, ligado à manutenção básica da vida, e uma segunda consciência – chamada por ele de “autobiográfica” – relacionada justamente à memória.

 

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Faz bastante tempo que Nietzsche propôs que nossa consciência – nosso Eu consciente – se relacionava à nossa necessidade de comunicação com o grupo. De forma semelhante – cum grano salis -, Lacan edificou uma teoria complexa que também vincula as estruturas psicológicas à linguagem e ao outro. Freud e Winnicott entendem que a psicologia deriva das relações estabelecidas desde cedo pelo vivente com os pais / ambiente. Temos motivos, portanto, para acreditar que nossa vida consciente é tecida com os fios de nossa experiência infantil junto com aqueles provenientes da sociedade, entendida como esse ambiente amplo do qual nossa memória se apropria.

 

Creio que fica claro que pouco ou nada desse ‘psicológico’ precisa ser localizado no organismo. Teríamos, claro, nossas tendências e mecanismos de ação relativos ao Eu corporal – aquilo que as ciências procuram encontrar e modificar, como por exemplo aqui – e ao lado delas teríamos nossa história, isto é, nossa memória pessoal, da qual construiríamos um “Eu psicológico” que não estaria enraizado em nada mais para além de nossa experiência e nossa memória.

 

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A genialidade de Freud estaria, pois, em ter dado o tiro certeiro que direcionou o psicológico à memória – “Os histéricos sofrem de reminiscências”, ele dizia. Bérgson, a seu modo, também o fez, e à Winnicott coube conjugar esse vínculo à dependência com o ambiente, fechando o ciclo.

 

Damásio, hoje, talvez seja o pesquisador que melhor colhe essa herança. Se me obrigassem a escolher, diria que é nessa direção que a psicologia tende a se desenvolver. Teríamos assim um psicológico entendido como fruto da memória – apesar de seu enraizamento óbvio no corpo e nas experiências do corpo & da linguagem – ou seja, um autêntico “não lugar” do ponto de vista da matéria, mas um ‘não lugar’ com o qual a vida tem estado a se relacionar desde muito tempo –

 

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