Malena, de G. Tornatore

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No triste e profundo filme de 2000, Tornatori retrata um momento de reviravolta e transformação na vida da jovem Malena, recém casada com um Oficial do Exército, o qual, um dia após o casamento, é chamado ao fronte em virtude da guerra que começava.

 

O filme apresenta a narrativa pela visão de Renato Amoroso, um menino que, passando à puberdade, também enfrenta uma transformação enorme em sua existência.

 

O filme começa mostrando a vida pacata de uma cidade qualquer do interior, com seus personagens típicos – os velhos, os loucos, os jovens, os apaixonados, as velhas senhoras. Todos parecem viver segundo uma perspectiva que casa bem com o apresentado por Groddeck como o ISSO, quer dizer, todos parecem simplesmente viver ou expressar o personagem definido pelo lugar que ocupam. Não há verdadeira liberdade ai, não há interioridade, talvez, ou ela não aparece – não é importante. As pessoas são o lugar que ocupam e ocupam seus lugares porque isso é o que elas são.

 

Nessa vida um tanto naturalista que cairia bem também em um quadro de Brueguel, a guerra é a terceira transformação, dessa vez social, que impõe à todos a difícil tarefa de posicionar -se COMO PESSOA, como indivíduo, para além dos lugares socialmente definidos – porque esses lugares mesmo são postos em questão.

 

As três tramas então se cruzam. Malena perde seu lugar de esposa, numa infinita espera por um marido que nunca volta. O garoto Renato vai aos poucos deixando de ser criança, adentrando o território da sexualidade embalado por Malena, que – diz-se à boca miúda – é a viúva mais cobiçada da cidade. Enquanto isso é a cidade inteira quem entra em convulsão, quando o inimigo domina o território assume o controle da cidade. Os próprios figurões da antiga hierarquia já não mandam em mais nada; perdem também seus lugares

 

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Malena, como todo mundo ate então, era definida pelo lugar de esposa que ocupava frente ao marido. Nesse mundo de mulheres sem verdadeira independência financeira, perder um marido é perder muito. Ela resiste como pode à fome, aos assédios, à solidão. Até que um solteirão da alta classe resolve fazer-lhe a corte, às escondidas, e, diante da recusa, divulgar a versão de que era ele o insatisfeito com a relação.

 

Malena, a mais bela, a mais desejada – e invejada – das mulheres, tinha por isso mesmo todo o povo contra si. Os homens, porque a desejavam – e ela se esquivava. As mulheres, porque ela era a mais desejada – e se esquivava. Malena perde assim tanto o lugar de esposa quanto o lugar de cidadã – vizinha, amiga, parente. Abandonada dentro de sua própria casa, habita uma espécie de lugar estrangeiro próximo da loucura: não pode nem sair nem ficar; não pode cuidar da sua vida, nesses tempos sem espaço para a autonomia feminina, nem permanecer num espaço que já não a reconhece como sujeito digno de algum respeito.

 

Sozinha, difamada, bode expiatório dos problemas amorosos alheios (pra não dizer dos sofrimentos da guerra – pois sempre ajuda, na dificuldade, ter pelo menos alguém pra odiar), Malena acaba por agarrar-se à única moeda que ainda possui – a beleza. Requisitada pelo alto escalão das tropas inimigas, vira puta de luxo dos oficiais, encontrando no inimigo um lugar a partir do qual viver – já que seu próprio povo lhe virou as costas.

 

O menino acompanha tudo isso com um misto de curiosidade e tristeza. Ele já não é mais um menino – também deixou esse lugar -, e a crueza, a irracionalidade, das paixões que vê nos outros começa a perceber também dentro de  si. A sexualidade, essa besta indomada, distribui lugares na sociedade. Dá as cartas, como outros tantos poderes. Renato, vivendo suas próprias crises, é a única testemunha do estupro que Malena sofre – não dos oficiais inimigos, mas de seu próprio povo. Mas quem vai acreditar num menino? A paixão franca e transparente da criança Renato transforma-se em um amor cheio de camadas no homem que vai nascendo, ligando o terno e o bestial num mesmo sentimento.

 

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E a guerra por fim acaba. Aos poucos, são reconstruídos os laços, os lugares sociais; o inimigo é novamente apenas alguém para se odiar à distância  – e o marido de Malena retorna, vivo, para surpresa de todos.

 

Essa volta recoloca o problema do lugar social de Malena: como negligenciá-la, se seu marido lutou na guerra por nós, é um herói de guerra? Esses dois lugares sociais são postos na balança – o herói de guerra, de um lado, e a puta traidora, de outro. Em nenhum momento outra narrativa sobre Malena parece se sustentar, para além daquele de “aproveitadora” – seu drama pessoal não encontra ninguém que possa sustentar essa narrativa.

 

Mas o lugar do herói prevalece. Malena volta a ser a “mulher do oficial” condecorado, e o que passou, passou. Sua humilhação, a crueldade de todos contra ela, o amor e a brutalidade da paixão, tão próxima do ódio, tudo isso é deixado de lado. Não há lugar no social para essa história. A vida compartilhada impõe o esquecimento, a sustentação de alguns pontos cegos na história de cada um.

 

As cenas finais do filme são, assim, brutais, em sua aparente placitude. Malena vai às compras com o marido; as mesmas velhas senhoras que antes lhe jogavam pedras e palavrões, agora se mostram solícitas e amigáveis, oferecem ajuda, sorrisos.

 

O brutal está justamente na placides aparente, já que sabemos o que ela esconde.

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