A sociedade atual e a autonomia impossível

independencia

Um aspecto da mudança paradigmática que Winnicott operou na psicanálise diz respeito ao lugar da cultura na vida humana. Em Freud, esse lugar está relacionado à sublimação de impulsos – pelo menos na “vulgata” freudiana, digamos assim. Mas em Winnicott surge todo um outro potencial, vinculando a cultura ao suporte ao grupo e ao enfrentamento da frustração. Vou tentar explicitar algo disso e também comentar um pouco como essa visada winnicottiana nos permite entender algumas derivas subjetivas que parecem centrais nos dias de hoje.

 

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1. Da dependência ao real

 

Winnicott é um dos poucos psicanalistas que defende uma noção desenvolvimentista do ser humano. Além dele, talvez só Freud e Erikson tenham defendido essa noção, o primeiro ao apresentar a teoria do desenvolvimento psico-sexual, e o segundo com sua visão psico-social do desenvolvimento. No vídeo linkado a seguir Leopoldo Fulgêncio aborda essa situação https://www.youtube.com/watch?v=2BzIVPnYhls&t=41s. [1]

 

Muito resumidamente, o desenvolvimento para Winnicott é um desenvolvimento psico-emocional, no qual adquirem protagonismo conceitos como DEPENDÊNCIA, AMBIENTE, FRUSTRAÇÃO, SUPORTE da frustração, TRANSICIONALIDADE, REALIDADE e ONIPOTÊNCIA. Diversos posts no blog abordam essas temáticas [2]. Vejamos brevemente como esses conceitos se relacionam com o nosso tema.

 

Para Winnicott, a cria humana nasce prematura do ponto de vista do psicológico;  ela não tem ainda as ferramentas mentais necessárias para lidar com as várias situações de sua vida, e o papel do AMBIENTE (geralmente a mãe) será justamente OCUPAR ESSE LUGAR DO “MENTAL” do bebê, cuidando da criança, interpretando o que está acontecendo com ela (“ela está chorando porquê? será fome?”, etc), dando-lhe uma referência contínua em termos de presença e dedicação, etc.

 

Numa palavra, é como se a mãe e seus cuidados agisse, no mundo externo pós-parto, como o útero agia antes do nascimento. O fundamento disso é a extrema DEPENDÊNCIA que nos caracteriza quando nascemos. Winnicott caracteriza essa situação como de “dependência absoluta”.

 

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À medida em que esse processo vai acontecendo e sobretudo FUNCIONANDO – isto é, o ambiente realmente atuando como o “mental” da criança- , pode acontecer de o bebê vir a adquirir uma certa CONFIANÇA, uma crença de que existe “algo” que o ajuda, algo que provê as suas necessidades, algo que resolve seus problemas. Uma confiança de que, não importa qual problema surja, “algo” acontece, e ajuda. Esse “algo”, como é claro, será introjetado como parte da constituição da subjetividade da criança, ajudando-a a enfrentar as frustrações de sua vida posterior.

 

No útero, cada necessidade da criança era atendida quase que imediatamente. Depois do nascimento, isso poucas vezes se repetirá: haverá sempre uma DISTÂNCIA entre o surgimento de uma necessidade e o seu atendimento pelo ambiente cuidador. Essa distância gera FRUSTRAÇÃO. Dizemos, portanto, que a frustração é inevitável. Entretanto, à medida que se constitui aquela confiança na capacidade de o ambiente responder às nossas necessidades, gera-se também uma certa CAPACIDADE DE SUSTENTAR SUA PRÓPRIA FRUSTRAÇÃO.

 

O que estou dizendo é que o bebê vai suportar melhor a sua própria frustração apoiado na sustentação do ambiente. Repetindo: ele ainda não dispõe da aparelhagem mental necessária para dar conta de suas experiências, e então precisa apoiar-se no ambiente para elaborá-las.

 

Dito de outro modo, o bebê vai adquirindo, na relação com o ambiente, uma espécie de “ambiente interno” que lhe permite, diante da frustração, “dizer” a si mesmo – ou, antes, sentir: “calma, o ambiente já vai vir, pois isso já aconteceu antes, assim e assado…”. E enquanto ele sente essa confiança ele pode esperar, isto é, suportar a frustração. Confiar no ambiente é, então, poder suportar um tanto de frustração, e tanto mais frustração é suportada quanto mais se sente confiança no ambiente.

 

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Paralelo a esse desenvolvimento em termos de confiança, Winnicott entende que ocorre também um outro processo relacionado à nossa relação com a realidade. Como comentado aqui e aqui, num primeiro momento o bom cuidado ambiental sustentaria na criança a ilusão de que tanto o problema que ela sente (ex: fome) quanto a solução que O AMBIENTE apresenta (ex: seio) pertencem ao “Eu”, isto é, pertencem ao conjunto de experiências que ela vai aos poucos aglutinando e integrando para formar um Eu psicológico.[3] Com a continuidade desse processo, a criança acabaria por concluir que é ela quem cria todas as coisas com que se relaciona, e daí sua “onipotência”. Dizemos então que um bom ambiente de cuidado sustenta na criança uma ilusão de onipotência.

 

É claro, no entanto, que essa ilusão de onipotência não pode ser sustentada por longo prazo. Como vimos, a frustração é praticamente inevitável no desenvolvimento emocional normal, e assim, mais dia menos dia, a criança acabará percebendo que, entre um desconforto e a solução do ambiente, existe um espaço, uma distância. Ou seja, acabará percebendo que a solução não pertence à ela, não está sob o seu domínio. Logo, que ela NÃO é onipotente.

 

Obviamente, isso implica numa frustração, e aqui o mecanismo da confiança surge novamente. Pois quanto mais ela puder confiar no ambiente, mais ela poderá sustentar a frustração envolvida em perceber a realidade como “outro”, como diferente, como “não-EU” – passo fundamental para ir configurando, aliás, os limites desse “Eu”. E o que é isso que ela vai diferenciando como “não-eu” senão… a realidade?

 

Fecha-se o ciclo. Podemos resumir tudo dizendo que perceber a realidade (ou o “outro”, ou a diferença) implica em poder abdicar da ilusão de onipotência. A frustração envolvida será tanto melhor sustentada quanto mais confiamos no ambiente. Dai que, em conclusão, quanto mais confiamos no ambiente, quanto mais suporte encontramos nele, mais abertos à realidade podemos ser – menos necessidade de ilusões onipotentes teremos. Ilusão e onipotência andam juntas, assim como realidade, frustração e suporte (confiança).

 

2. Do transicional à cultura

 

As últimas frases não devem nos enganar, fazendo-nos pensar que já estamos (ou podemos chegar) em um ponto de pura realidade e zero de ilusão. Na verdade, os escritos de Winnicott nos sugerem antes que devemos estar preparados para perceber que nossa vida transcorre sempre num meio termo, com pontos cegos necessários, ao lado de focos de realidade e frustração.

 

Esse “meio termo” é justamente o que Winnicott chamou de “transicional”, ou seja, uma coexistência de dois termos excludentes (como “ilusão” e “realidade”, por exemplo). A genialidade do conceito, a meu ver, está em mostrar que não resolvemos certos paradoxos – e esse “não resolver” é nossa melhor resposta, é nossa resposta propriamente humana para certos problemas.

 

O fato é que necessitaríamos de um pouco de subjetividade, de “Ego”, de ilusão – e de ilusão de onipotência – para podermos suportar o mundo[4]. Pois, notemos, o mundo é pura objetividade; ele não se importa conosco. “A realidade é de um desinteresse verdadeiramente inquietante para comigo”, cada um poderia dizer … . Winnicott diz: “a realidade é uma ofensa”. De fato, dado que o nosso mundo psicológico se organiza em termos de intencionalidades, de causação, de atribuição de responsabilidades, de imputação de sentidos – e dado que nada dessas coisas existe no real – há uma dissimetria, um desencontro, inevitáveis, entre nosso mundo subjetivo e a objetividade do real.

 

Entretanto, também precisamos da realidade. Precisamos saber como as coisas são para agir sobre elas e obter os resultados que esperamos. Não podemos viver no vácuo, alucinando que estamos supridos de alimentos quanto, na realidade, passamos fome. Assim, necessitamos também de uma limitação da nossa ilusão, da nossa onipotência. Como solucionar esse paradoxo?

 

***

 

Segundo Winnicott, não solucionando. Isto é, mantendo ambas as necessidades lado a lado. Vivendo naquele “meio termo” que comentei acima. Assim, por exemplo, ‘resolvemos’ o problema da objetividade “demasiada” da realidade com a religião: ela me permite manter algo da minha onipotência – pois sou o “filho de DEUS” – ao mesmo tempo que algo da minha onipotência nela é barrado – pois sou “FILHO de Deus”. Então, não devo roubar, matar, desejar a mulher do próximo… (todas expressões de onipotência).

 

A mesma coisa aconteceria na ética: ela nos prescreve uma série de limitações e considerações – “seja prudente, não aja por impulso, seja temperado, pense antes de agir”, etc -, assim nos  levando a considerar a realidade e limitar nossa onipotência, ao mesmo tempo que gratifica nossa onipotência, já que, em tese, teríamos, pela via ética, o controle de nossa existência. Pois o quê promete toda ética senão um meio de alcançar um fim desejado, isto é, uma espécie de “receita” para uma “vida boa”?

 

Entendemos assim porquê,  para Winnicott, toda a cultura seria um desenvolvimento do transicional. Nela abordamos alguma coisa da realidade, e ao mesmo tempo inserimos nessa relação com o real algo nosso, subjetivo, simbólico, que nos permite, de alguma maneira, resgatar aquele sentimento de onipotência. Todo artista, afinal, ao criar, retorna àquele sentimento: ele realmente cria o mundo, produz uma nova mistura de realidade e ilusão – uma nova ‘solução’ para a dualidade insolúvel que somos.

 

3. O momento atual

 

Creio que nosso momento atual, entretanto, se caracteriza por uma certa reviravolta nesses grandes balizadores de nossa experiência subjetiva / objetiva. Grosso modo, vimos que existiria no ser humano tanto uma necessidade de ilusão / onipotência quanto de realidade / limites à onipotência. O pivô dessa relação seria o ambiente: a capacidade de sentir confiança num ambiente (seja ele a mãe, a família, o grupo de amigos ou a comunidade em sentido mais amplo) permitiria sustentar a frustração, e então operar a passagem de um polo a outro – da ilusão onipotente à realidade não-onipotente.

 

Hoje, entretanto, parecemos viver tanto uma exacerbação da ilusão de onipotência individual quanto uma falta de relações de suporte (relações de pertencimento ou identificação que atuem como “suplemento” ao nosso ‘mental). Ambos os vetores, já se vê, caminham na direção de uma diminuição do espaço da realidade, isto é, daquele espaço de reconhecimento do “outro” como “outro” – seja o real, em sua objetividade, seja o outro, como sujeito, isto é, a diferença, o “não-Eu” – tudo que é ego-distônico.

 

Olhando esses movimentos à uma certa distância, é quase como se uma questão ecoasse ao longe, definindo o nosso tempo: “para quê, afinal, realidade / outro / diferença?” –

 

***

 

A questão aqui é que não entramos em relação com a realidade porque “queremos”; sempre fomos obrigados pela vida a encontrar algum lugar para ela. Nossa necessidade material, de um lado, e emocional, de outro, nos empurravam para o real. Mas, no fundo, aquele impulso pela onipotência continuava bem vivo. A rigor, podemos dizer que ele manifesta-se ainda através de nossa consideração ao real mesmo – pois conhecendo a realidade nós a controlamos, e assim, paradoxalmente, satisfazemos ao mesmo tempo os dois grandes impulsos que consideramos – a realidade e suas imposições à nossa onipotência, e essa própria onipotência.

 

O que parece estar acontecendo hoje é que avançamos enormemente por essa via do controle do real. Assim, a realidade, em seu aspecto material, foi grandemente suplantada por esse sucesso, e isso fez recuar nossa necessidade de considerar o real, em prol da manutenção daquela onipotência. A sociedade já fez por nós o trabalho de conhecer (isto é – se submeter a) o real; nós só colhemos os frutos disso, com nossa onipotência.

 

Sobra então o outro lado da realidade, ou seja, o real enquanto limite do “Eu”, enquanto reconhecimento do espaço de tudo que é ego-distônico, “não-Eu” – e nesse ponto claudicamos. Avançamos enormemente em termos técnicos, mas permanecemos mal estruturados para lidar com o “outro”. Somos fortes do ponto de vista técnico/material, mas fracos em nossa psicologia.

 

***

 

Creio, em resumo, que nosso tempo se caracterizaria por um grande sucesso materialista, associado à uma subjetividade empobrecida. Se e como esses extremos se relacionam são questões interessantes, mas para outro momento. Acho importante salientar por hora como essa subjetividade empobrecida se relaciona com uma situação de pertencimento / suporte ao grupo também esvaziada.

 

Pois o movimento geral da sociedade parece caminhar na direção de um esvaziamento dos espaços comuns, ou, mais especificamente, da própria experiência de pertencimento a um grupo, da identificação que – como vimos – propiciava um importante suporte no enfrentamento da frustração.

 

Como encarar a frustração envolvida no confronto com a realidade do outro, sem o apoio de um ambiente facilitador? Parece-me que este é um problema em aberto para nosso tempo. Nesse sentido, parece existir um vetor dirigido para o isolamento dos sujeitos, todos incapazes de suportar uma relação real com o outro e ao mesmo tempo necessitando desesperadamente desse tipo de relação.

 

No vácuo criado pelo esvaziamento do grupo, remédios, terapias e a própria psicologia ganham destaque[5]. Mas não só: todo tipo de apoio especializado surge com a promessa de resolver a dificuldade de sustentação de um estilo de existir. A autonomia e a capacidade de escolha tornam-se ideais, vendidos no mercado aos berros, enquanto as pessoas parecem cada vez menos capazes de sustentar suas próprias escolhas.

 

Por outro lado, é como se o pertencimento a um grupo tivesse sido trocado pela satisfação do consumo. A propaganda nos promete felicidade ao adquirir tal produto, mas trata-se de uma felicidade solitária. O “nós” parece fazer cada vez menos sentido, e é como se a sociedade se apoiasse então apenas em função das leis do mercado, regulando o único pertencimento que parece ainda se sustentar.

 

Com tudo isso, cria-se um ideal de autonomia impossível – baseada não na consistência da relação e da confiança no suporte de um grupo – como queria Winnicott – mas na fantasiada capacidade de viver sozinho – um “self-made man” que sofre, justamente, de “self” – e cujo ideal é outra das mercadorias mais vendidas (e desejadas) desse nosso ‘mercado’ –

 

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Notas:

[1] No vídeo, Leopoldo Fulgêncio comenta que Lacan situou-se propositalmente numa visada ANTI-desenvolvimentista, argumentando que a complexidade do ser humano não cabia numa suposição de desenvolvimento que sempre supõe fases mais ou menos estanques.

[2] O tema já foi abordado diversas vezes aqui no blog. Alguns dos posts tratando do assunto são os seguintes:

https://euemtorno.wordpress.com/2017/06/24/winnicott-a-arte-a-guerra/

https://euemtorno.wordpress.com/2017/07/12/winnicott-e-a-realidade/

https://euemtorno.wordpress.com/2017/07/17/winnicott-e-a-realidade-ii-a-necessidade-de-desilusao/

https://euemtorno.wordpress.com/2017/08/01/a-importancia-do-ambiente-psicologico-analogias-com-o-ambiente-fisico/

https://euemtorno.wordpress.com/2017/11/13/winnicott-e-a-consciencia-de-si-mesmo/

https://euemtorno.wordpress.com/2018/04/14/o-nascimento-da-psique-winnicott-espinosa-damasio-e-o-biologico/

[3] O pressuposto aí é que a criança não nasce sabendo diferenciar o “Eu” do “não-Eu” a nível psicológico. Por mais que isso possa estar estabelecido biologicamente, sua tradução ou correlato mental ainda teria que ser construído, na visão de Winnicott.

[4] Nietzsche expressou ideia semelhante em “Além do Bem e do Mal”, § 4.: “sem medir a realidade com o mundo puramente inventado do absoluto, do igual a si mesmo, o homem não poderia viver”.

[5] Benilton Bezerra Junior comenta sobre essa situação no video https://www.youtube.com/watch?v=-r1tzUkCeIg

Uma resposta para “A sociedade atual e a autonomia impossível

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