“A Grade”, de Bion – Esquema a partir de Ale Esclapes – parte 2

Escrevi este texto a partir de um ótimo vídeo do professor Alexandre Esclapes, disponível no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=DBny67ezf20. Recomendo muitíssimo o canal dele no Youtube (https://www.youtube.com/channel/UC5C-PA5h8s-IoY6vFdWGXVg) , tanto pelo ótimo conteúdo quanto pela maneira simples – e rica ao mesmo tempo – de apresentá-lo.

 

Dividi o texto em duas partes, para não ficar um texto grande demais, sendo que na primeira parte apresento  brevemente a “grade” e discuto os elementos que compõem o eixo vertical da grade, ou o eixo da gênese / evolução do pensamento. Na segunda parte discuto as colunas da grade, ou os vários usos que um pensamento pode ter. Encerro a parte dois apresentando minha visão da utilidade da grade e sua importância para o pensamento psicanalítico.

 

(Link para a primeira parte: https://euemtorno.wordpress.com/2018/05/06/a-grade-de-bion-esquema-a-partir-de-ale-esclapes/)

 

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grade de Bion

 

Continuando então, passemos ao EIXO HORIZONTAL, o qual trata dos USOS dos elementos gerados no eixo vertical. É importante salientar que em Bion, o pensamento pode ser utilizado inclusive para não-pensar. Contra-intuitivo? Com certeza, mas espero que isso fique um pouco mais claro até o final deste post.

 

HIPÓTESE DEFINITÓRIA, na coluna 1, seria algo que organiza as minhas observações. Quando escutamos o paciente na clínica, por exemplo, existe uma massa muito grande de afirmações que podemos organizar em função de um ou outro elemento – “será que isso tem a ver com o complexo de édipo? será que o paciente está falando de mim”, etc. A hipótese definitória, o elemento organizador, deve ser buscado com cautela: Bion sugere, inclusive, que grande parte do trabalho do analista consiste em NÃO SABER, não organizar, não fechar muito rápido a massa das afirmações em um sentido – pois isso implicaria em deixar de lado vários outros sentidos possíveis.

 

Claro que esse “não saber” implica em sustentar uma certa frustração… o que nos leva de volta às reflexões da parte 1: se eu já “sei” do que o paciente está falando – ou seja, se me deixo convencer muito rápido de que o que ele fala é uma ‘realização positiva’ daquilo que eu espero – isso gera crença, e, assim, o analista pode acabar simplesmente revalidando suas teorias na fala do paciente. Já manter-se em “não-saber” implica em sustentar uma realização negativa, uma frustração… a qual entretanto abre espaço para o pensamento do que realmente está ocorrendo ali.

 

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COLUNA PSI (Ψ) – Nesta coluna vai aquilo que aparece no lugar de um problema; as mentiras que conto no lugar de uma verdade problemática… algum significado no lugar de meu não-saber. Numa palavra, aqui vai a mentira, aquilo que está no lugar de uma verdade.

 

Note que cada um dos eixos tem um “uso” do tipo ‘psi’ – mentiras – inclusive o eixo “G”, que trata daquilo que conhecemos sobre nós mesmos, nosso “Ego”. O que está implicado aí, segundo comenta o professor Alexandre, é que tudo aquilo que nós conhecemos sobre nós mesmos é uma mentira, uma história que está no lugar de uma verdade. Assim, todo o nosso “Eu” estaria em G2 na grade.

 

Esse é um exemplo de uso do pensamento que, na verdade, implica na manutenção de um “não pensar”, de um não querer descobrir aquilo que se é. Bion também sugere – no meu entender – que toda teoria, mesmo as teorias ‘psis’, pode acabar tendo um uso na coluna 2 da grade. Daí a permanente postura de crítica que o autor sugere seja adotada por todo aquele que busca conhecer.

 

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NOTAÇÃO: a notação dá início a outra tríade, e tem a ver com a capacidade de observar o real e guardar uma memória sobre isso. Tem a ver com o passado, portanto, e implica nesse uso do pensamento enquanto registro, arquivo.

 

A ATENÇÃO tem a ver com um uso do pensamento voltado para o presente, para o que acontece agora. No vídeo que está nos servindo de base o professor comenta que Bion começou a grade usando a palavra “Édipo”, no lugar de “Atenção”, porque, para Bion, a tragédia grega do Édipo tinha a ver com a busca da verdade, com a coragem de buscar uma verdade que Édipo provavelmente já conhecia, mas não aceitava.

 

Outro exemplo disso é o que acontece em análise: dizemos alguma coisa sem saber muito bem porque… mas se prestarmos atenção podemos encontrar um sentido – quiçá desagradável – para isso… A atenção demanda, então, uma certa coragem para a busca da verdade. Freud também exemplificou essa postura em muitas passagens de sua vida.

 

***

 

A INVESTIGAÇÃO tem a ver com o futuro. “Bom, se isso é assim, se o uso da atenção me deu tal coisa como resultado – qual é a consequência, o que posso esperar na realidade a partir disso”? Fecha a tríade do ‘tempo’, por assim dizer, onde focamos o uso do pensamento como memória, como atenção e como investigação do futuro.

 

Por fim, a AÇÃO encerra as colunas do “uso” do pensamento, e designa sempre uma AÇÃO NO VÍNCULO, na relação entre o Eu e um outro. Podemos pensar que essa ação “informada” – ou atenta ao real – é o uso mais efetivo, a ‘realização’ do pensamento; nesse contexto, é muito interessante que toda ação se dê no vínculo, na relação com o outro… como se Bion quisesse nos lembrar  que não existe ação – ou sujeito – no vácuo, que toda ação implica o outro e minha relação com ele.

 

***

 

Encerradas as apresentações, gostaria de concluir com um breve comentário acerca do sentido que eu, pessoalmente, atribuo à grade de Bion: vejo nela uma espécie de estruturação do pensamento, de gênese do mental. Embora Bion não tenha escrito nenhum livro sobre a grade – segundo comentava o professor Alexandre – é implícito que cada passo adiante na construção da grade implica em uma certa visão do que seja o aparelho mental.

 

Creio, portanto, poder tirar da grade uma visão do aparelho mental como um efeito da relação com o outro – a mãe que apresenta a função alfa para o filho, por exemplo – assim como um aparelho destinado a lidar com a frustração envolvida em toda realização. Nesse aparelho, a capacidade de sonhar – de ter pensamentos oníricos – expressa um dos pontos altos de seu funcionamento, enquanto, por outro lado, poder sustentar a frustração (o que se enraíza na qualidade das relações que pude manter com os meus outros significativos) deriva numa capacidade ampliada de lidar com a realidade. Agir – no vínculo, enfim, seria um dos usos mais elevados que poderíamos ter desses elementos da mente.

 

Bion integra, assim, em algumas poucas linhas, décadas de psicologia e psicanálise, resumidas em algumas palavras chaves que estruturam a grade: “outro”, “relação”, “frustração”, “desejo”(pré-concepção), “sonho”, “pensamento”, “realidade”, “ação”. É quase como se a grade fosse o “esqueleto” de cem anos de psicanálise, que aparecessem condensados e, ao mesmo tempo, insaturados, em sua pena. E talvez o mais importante: Bion não fala em teorias; não importa se eu acredito ou não em Édipo, se eu uso ou não a transferência – qualquer teoria, qualquer psicanalista pode utilizar a grade para estruturar os acontecimentos da sessão – o que, em tese, permitiria uma comparação / tradução das várias teorias entre si, através daquilo que seria o seu solo comum, os acontecimentos da dupla analítica, as emoções trocadas entre a dupla. Porque, como diz Antonino Ferro em algum lugar, justamente a propósito de Bion: só podemos conhecer realmente, afinal, a experiência emocional que ocorre entre nós numa sessão –

2 Respostas para ““A Grade”, de Bion – Esquema a partir de Ale Esclapes – parte 2

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