O que um psicanalista SABE??

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Creio que existe um mal-entendido acerca da psicanálise e dos psicanalistas. Em minha clínica recebo, por exemplo, pacientes que já no primeiro dia comentam: “eu não queria vir porque, sabe como é né, a gente tem medo daquilo que o psicólogo SABE da gente”. Essa perspectiva de que o psicólogo já saberia, antes mesmo de ouvir o paciente, qual seria a sua ‘verdade’, por assim dizer, é muito difundida e não traz, a rigor, grande prejuízo para a análise – a não ser quando é compartilhada pela crítica.

 

Porque os analistas são muitas vezes criticados por operarem uma suposta REDUÇÃO da vida subjetiva do paciente: na verdade, dizem esses críticos, a análise operaria uma RECONDUÇÃO daquilo que era até então uma subjetividade única e idiossincrática à uma subjetividade dita ‘normal’, e nesse ‘normal’ estaria aquilo que os críticos entendem como o ‘saber do psicanalista’. E só. Nada mais.

 

Em outras palavras, o psicanalista seria alguém que simplesmente não entende a riqueza subjetiva que tem diante de si, e procura, através da terapia, reeducar, reconduzir, normalizar, transformar a subjetividade do paciente numa subjetividade comum, adaptada, genérica. Parafraseando Tom Zé, “ao persistirem os psicanalistas, consulte os sintomas”, isto é, o sintoma seria mais saudável que a terapia, no fundo.

 

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Isso é errado por vários motivos, mas quero destacar um: o saber do psicanalista NÃO SERVE para reconduzir o caso concreto do paciente aos casos genéricos previstos pela teoria – ao normal, ao socialmente aceitável, etc – , senão para PERMITIR AO ANALISTA ESCUTAR JUSTAMENTE O INFORME, O NÃO-SABIDO, O DIFERENTE, que se apresenta no paciente.

 

Isto é, tudo aquilo que estudamos e aprendemos com as diversas teorias não estão ali para servirem de meta, de objetivo; não se trata de reencontrar no paciente aquilo que já se saberia sobre o ser humano – o édipo, a mãe, a culpa, etc. O uso correto da teoria, assentado desde Freud, é justamente utilizar as teorias PARA PODER ALCANÇAR UM NÃO-SABER, para poder estar à vontade com o “não-saber” diante do paciente, e para, a partir desse não-saber, CONSTRUIR, junto com o paciente, um saber específico para aquele caso, que sirva para o paciente, que seja potencializador de sua vida, suas relações, suas possibilidades – que mude sua postura diante de seu sofrimento.

 

Assim, quando demandado a definir como, afinal, se faz uma análise, Freud preferiu escrever textos muito genéricos, indefinidos. E não por falta de matéria, experiência ou capacidade: àquela altura já havia uma psicanálise muito bem estruturada – que mudaria, é verdade, muitas vezes, como muda ainda. Mas Freud tinha perfeita ciência de que de nada adianta dizer ao paciente: “você está sofrendo assim por causa da sua mãe” – mesmo que isso seja verdadeiro – porque o que provoca mudança psíquica é outra coisa.

 

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De nada adianta jogar na cara do paciente algo – mesmo que verdadeiro, repito – que ele simplesmente ainda não tem condições de ouvir. De nada adianta apresentar a ele algo genérico, que ele não reconheça como seu, como integrado à sua história – mesmo que depois se mostre que sim, que era algo dele mesmo; de nada adianta estar “correto” diante do paciente, se ele mesmo, paciente, não vê assim. É o paciente que comanda o andamento da análise, através basicamente de suas necessidades subjetivas – aquilo que ele pode (ou não) ouvir agora, aquilo que ele pode (ou não) reconhecer agora, etc.

 

Ser um bom analista é estar em condições de reconhecer em que momento o paciente está, isto é, justamente essa medida do que pode ou não pode ser útil àquele paciente específico, naquele momento específico. Isso é muito difícil, e é justamente para isso que servem as teorias. Elas nos ajudam a tentar perceber aonde o paciente está. Mas não usamos as teorias para fechar o paciente nelas, senão para nos abrir ao que pode ser útil para o paciente realmente.

 

Dito de outra forma, usamos a determinação das teorias – existe um desenvolvimento emocional em Winnicott, por exemplo, que tem tais e tais andamentos, etc – para alcançar uma indeterminação na escuta que nos permita construir junto com aquele paciente específico a melhor solução que pudermos encontrar. É o mesmo que dizer que devemos construir uma nova teoria para cada novo paciente, e é assim mesmo. Se, ao final, encontrarmos nessa nova teoria, construída ‘sob medida’ e ‘a quatro mãos’ com o paciente, as mesmas invariantes que nossa teoria genérica previa antes, isso pode ter significância teórica – mas não terá nenhum sentido para o uso terapêutico daquele paciente específico. O que importa, como já disse, é construir, junto com ele, uma teoria única, adaptada e enraizada no seu caso, na sua história de vida..

 

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Porque tem de ser assim? Uma razão, já comentada em diversos posts desse blog, é que nossa subjetividade é essencialmente relacional. Mais do que a teoria – tanto a genérica / velha quanto a individual / nova – importa o trabalho de construir juntos uma teoria (uma história, uma narrativa). Pois isso inevitavelmente será uma relação, e um pré-suposto que nenhuma teoria nega (até onde eu sei) é que a relação é algo fundamental para nossa construção subjetiva.

 

Estar despreparado – isto é, desprevenido, sem um saber anterior, ou, como eu digo, estar em ‘não-saber’ – é fundamental também para poder ouvir o que o paciente está falando de verdade. Temos que abdicar de nosso conhecimento anterior para poder nos deixar surpreender pelo que está sendo dito. Senão, o que acontece é aquilo que Antonino Ferro chama de “colonização do texto do paciente”: ‘já sabemos’ o que ele quer dizer, traduzimos sua fala em termos de nossa teoria, e assim ‘colonizamos’ seu discurso. Com isso me parece claro que perdemos o que é específico daquele paciente, o que é diferente de nós – para nos reencontrar apenas, de modo seguro e previsível.

 

Há várias sugestões de analistas mais experientes que vão na mesma direção que estou tentando explicitar. Creio que uma das mais claras é a de Bion, quando diz que o analista deve ser “sem memória e sem desejo”, isto é, deve apresentar-se totalmente despreparado, sem nenhum saber anterior que o suporte ou desejo que organize sua postura diante do paciente. Mas Freud já adotava uma postura parecida, ao sugerir que o analista deve deixar-se levar por uma escuta ‘uniformemente flutuante’ – isto é, não deve postar-se no lugar daquilo que já sabe, mas deve, antes, deixar-se levar, como num sonho, pela fala do paciente.

 

Essa é, parece-me, uma boa imagem da análise: a escuta como um movimento de vai e vem, como ondas de sonho e de retorno ao “continente” – do real, do já sabido, da história, etc – procurando sempre extrair algo desse encontro que possa ser útil ao paciente. Ou, para dizer o mesmo de outro modo: não importa tanto o que o analista sabe, mas sim sua capacidade de lançar-se ao não saber da fala do paciente – de contaminar-se pelo que ele diz, por sua doença – e encontrar em si, construir em si, uma saúde reencontrada – que ele então deverá saber comunicar ao paciente no momento certo.

 

 

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