Ideias soltas – para um panorama unificado de psicologia (antropogenia, etologia, etc)

horizonte

 

Post mais para registro. Tentei juntar aqui algumas ideias soltas relativas à evolução do homem buscando fundamentar o que seria a ‘psicologia’ neste campo mais amplo, mais biológico, do humano.

 

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  1. Pré-história do homem, ou evolução do corpo

 

Evoluímos – em nível corporal e cerebral – a partir da relação com o AMBIENTE (mais aqui).

 

Assim, por exemplo, períodos glaciais causaram seca na África, e isso diminuiu as árvores. Em consequência, essa mudança na vegetação favoreceu aqueles de nossos ancestrais que podiam caminhar melhor nas pradarias, ficar ereto em dois pés, etc.

 

Alguns milhares de anos depois e uma nova mudança climática favoreceu aqueles que podiam incluir carne na dieta. A carne, por ter um aporte calórico / nutricional maior, permitia o  aumento do tamanho de nosso cérebro, assim como diminuiu o intestino, etc. (estes vídeos comentam essa relação: https://www.youtube.com/watch?v=P7k83dJ9oZ0&t=2065s e https://www.youtube.com/watch?v=I0fin4kk78w)

 

O estudo dos restos de agrupamentos humanos mostra, através da ossada dos animais abatidos, que NÃO HOUVE GRANDES AGRUPAMENTOS HUMANOS ATÉ CERCA DE 50.000 anos atrás. Ou seja, por milhares de anos nossa estrutura cerebral foi formatada para viver em pequenos grupos, provavelmente familiares. OU seja, a sociedade é algo recente na história da espécie. (Ver mais sobre isso aqui e na nota 1)

 

2. SOCIAL GENÉTICO (determinado) X SOCIAL desempenhado (indeterminado)

 

Faz sentido falar em psicologia nessa época anterior aos agrupamentos maiores (antes de 50.000)? É uma questão de consenso.

 

Procuro resolver a questão dividindo, artificialmente, a sociabilidade em duas frentes: a parte genética ou INCORPORADA da sociabilidade, e a parte VIVIDA ou DESEMPENHADA da sociabilidade. Faz parte da minha premissa que a psicologia só existe aonde existe sociabilidade – e, mais especificamente, sociabilidade vivida, e não apenas genética.

 

A SOCIABILIDADE GENÉTICA seria aquela parte da função da sociabilidade que já foi incorporada pelo organismo. Assim podemos dizer, grosso modo, que há uma “imagem” ou equivalente no organismo que representa a sociedade na qual certos comportamentos, ditos “sociais”, irão se desempenhar. Assim, os comportamentos sexuais ou agressivos fazem parte de uma sociabilidade genética, por exemplo.

 

A SOCIABILIDADE VIVIDA seria aquela porção da função social que é propriamente desempenhada, isto é, atualizada, realizada, no campo social propriamente dito. Dito de outra forma, é a parte da sociabilidade que se abre para um indeterminado na vida social, ou que procura incorporar esse indeterminado (desempenhado) no organismo.

 

Porque separar artificialmente uma função que, aparentemente, seria melhor representada por um contínuo do que por uma justaposição de partes individuais? Porque a primeira metade da função, a sociabilidade genética, NÃO ADMITE INOVAÇÃO, não admite novos ‘dados’ em sua estrutura; ela está montada desde que esteja integrada, e não admite variação. Daí ela ser “genética”. Já a parte ‘vivida’ da função varia e admite modificação, ao menos em algumas espécies preparadas para lidar com essa variação. Vejamos um exemplo.

 

Um animal em época de acasalamento pode ter seu comportamento sexual despertado pelos sinais do ambiente (seja um cheiro específico no parceiro, seja uma época do ano, etc). Esse comportamento e seu despertar seriam, no nosso esquema, integrantes da parte GENÉTICA da função social. Mas, ao realizar esse comportamento para a fêmea, por exemplo, pode acontecer de o macho estar machucado, porque, digamos, cortou a perna numa fuga empreendida na noite anterior. O acidente com a perna não estava definido no gene do comportamento social; não poderia estar incluído. Entretanto, ele existiu, e afetou o desempenho da função. Desde que a fêmea esteja preparada para perceber essa variação no desempenho da função, a variância existe, e influirá no resultado. Eis porque proponho que a parte “desempenhada” da função social admite variância.

 

3. SOCIEDADE e PSICOLOGIA

 

Proponho que só existe “psicologia” aonde existe sociedade. Mais especificamente, a parte “desempenhada” da função social seria uma pré-condição da psicologia. Senão vejamos: as abelhas possuem uma organização social. Entretanto, sua sociabilidade está tão definida em termos de sua organização corporal – seus instintos, digamos, sua sociabilidade genética – que simplesmente não há espaço para a parcela “desempenhada” da função social, ou essa parcela é muito menor (comparando conosco). Não há porque falar, então, em “psicologia” das abelhas (embora se possa falar em sociabilidade das abelhas, em instintos complexos ou mesmo sociais, etc).

 

O mesmo valeria para outras sociedades aonde, aparentemente, a parcela desempenhada da função social é pouco desenvolvida – seja porque os comportamentos são muito definidos, seja porque não há como perceber a variância na relação – , como as formigas, certos peixes, etc.

 

Diria que, como regra geral, parece haver uma relação direta entre a “abertura” da função social de uma espécie e sua necessidade de uma psicologia. Dito de outro modo, só há psicologia aonde existe uma certa indeterminação na relação entre os indivíduos de uma mesma espécie. (e essa indeterminação parece ser uma função da complexidade dos indivíduos; quanto mais complexos eles forem – biologicamente – mais indeterminados poderão ser).

 

4. BIOLOGIA e PSICOLOGIA

 

Essa indeterminação, por óbvio, será uma escolha biológica, ou seja, será uma função da determinação genética da espécie. Algumas espécies definem grandemente suas relações interpares, outras abrem margem para a variação. Para quê psicologia aonde tudo já está definido? Mas ali aonde existe indeterminação social – criada pela determinação biológica, repito – , a natureza criou faculdades para lidar com essa indeterminação. Essas faculdades, no conjunto, constituem aquilo que chamamos de psicologia.

 

Senão vejamos: a faculdade de imaginar o outro; de se identificar com ele; de ter empatia para com ele; de projetar um funcionamento próprio no outro; são todas funções psicológicas que, vistas em conjunto, procurariam dar conta justamente dessa INDETERMINAÇÃO na relação.

 

Assim, definiríamos a psicologia como essa faculdade de lidar com a indeterminação nas relações interpares de uma mesma espécie, buscando criar soluções individuais para essa indeterminação (social).

 

Repito ainda outra vez: a indeterminação é causada pela biologia, é uma “escolha” genética, biológica, da espécie. Mas, uma vez criada, ela passa a ser apreendida e “resolvida” pelas faculdades psicológicas – que abrem espaço para o individual. Durante a história evolutiva do homem, provavelmente expandimos nossa sociabilidade ‘desempenhada’, a indeterminação de nossa sociabilidade. Essa expansão pode ter sido contrabalançada por uma expansão de nossas capacidades psicológicas.

 

O importante aqui é deixar claro que o psicológico ocupa o espaço deixado pela determinação biológica das relações sociais. Nesse sentido, o psicológico é biologicamente determinado. Mas essa determinação não parece ser absoluta. Isto é, a psicologia, na medida em que procura lidar com uma INDETERMINAÇÃO criada pelo “retirar-se” do biológico, mantém, em si mesma, uma certa indeterminação. Em uma palavra, a psicologia não substitui a indeterminação por uma determinação; ela apenas nos permite trabalhar, elaborar – (viver?) COM a indeterminação.

 

5.  ENFIM, A PSICOLOGIA

 

A psicologia é o lugar da relação social, ou melhor, da indeterminação das relações sociais. Ela não é o lugar da sexualidade, como queria Freud (embora seja quase isso, porque sexualidade e relação social são muito próximas), nem o lugar da reverberação do político na ilusão do individual, como quer a esquizoanálise (embora também ela tenha acertado algo, já que a política é totalmente contaminada pela indeterminação das relações sociais). Tampouco é o lugar do social propriamente dito, embora a sociabilidade e sua determinação tenha tudo a ver com a psicologia.

 

Na verdade uma soma da psicanálise (sexualidade enquanto relação) e da esquizoanálise (política enquanto indeterminação) daria um resultado muito próximo do que proponho.

 

Mas é com Winnicott que minha hipótese encontra maior afinidade. A hipótese winnicottiana do caráter fundante da relação entre o sujeito e o seu ambiente é exatamente o que estamos propondo em um nível de sobreposição biológica / antropológica / psicológica.

 

Para Winnicott a criança precisa encontrar no ambiente uma “sustentação” para que suas (da criança) próprias faculdades amadureçam. Em nossos termos, diríamos que o ambiente inicial da criança (a mãe) deve cuidar da criança de tal forma que ela passe gradativamente da ilusão de que existe um ambiente relacional DEFINIDO para a percepção de que está imersa num ambiente relação INDETERMINADO, ou de grande indeterminação. E o problema da espécie humana será justamente conviver com essa indeterminação social.

 

Traduzindo, a questão do desenvolvimento emocional/psicológico seria exatamente passar para a criança as ferramentas psicológicas para lidar com aquela indeterminação nas relações sociais através de uma relação social mais ou menos determinada biologicamente (a relação de dependência absoluta da criança com relação ao ambiente, ou a relação de cuidado da mãe para com os filhos). As estruturas psicológicas assim criadas seriam maleáveis até certo ponto – qual seja, a manutenção de sua funcionalidade. Elas substituem estruturas determinadas e rígidas (biológicas) por estruturas indeterminadas e maleáveis.

 

6. O ESTADO ATUAL DA PSICOLOGIA

 

Essa percepção do que seria a psicologia em termos de sua função biológica e antropológica nos permitiria pensar numa unificação da psicologia, ou pelo menos numa definição do que seria o seu campo, sua especificidade.

 

O que teríamos atualmente, em termos de psicologia?

  • Varias tentativas / propostas de definição das variáveis envolvidas (inteligência; linguagem; memória; afetividade; ego; pensamento, etc);
  • Várias tentativas de organização dessas variáveis em termos de uma prática (a TCC e o uso dos “Pensamentos centrais”; a esquizo e o uso das relações, dos desejos e da política; a psicanálise e o uso dos instintos no contexto do outro, etc);

 

A grande questão é que todas as propostas de organização das variáveis psicológicas implicam em algum tipo de RELAÇÃO; a clínica, mesmo em forma ampliada, sempre implica em algum tipo de relacionamento, e isso explicaria o funcionamento das várias escolas de psicologia. Mesmo que a escola entenda que resolve o problema porque focou nos “significantes”, por exemplo, o fato é que para chegar a isso ela instaurou uma relação entre paciente e terapeuta, e a relação é tudo. Toda a questão é construir com o paciente um tipo de ambiente interno (ou de relacionamento externo) que o ajude a dar conta da indeterminação social que nos é inerente (biológica).

 

7. REDUNDÂNCIA

 

É importante notar que muitas esferas contribuem para a situação pessoal do doente. Na medida em que a psicologia é uma função que opera no vácuo SOCIAL /antropológico criado por uma indeterminação BIOLÓGICA, tudo que se relacionar com esses campos terá influência no psicológico. Assim, se uma patologia se cria como tentativa de resolver um problema relacional individual, o fato de a sociedade ser mais permissiva com o comportamento do doente, facilita sua problemática, ou seja, a resolução do PROBLEMA relacional individual. Da mesma forma, a existência de maior ou menor nível de estresse influencia no modo como o problema é vivido; as concepções sociais do que é devido ao outro em termos de respeito, cuidado, consideração, etc. Tudo isso influi na vivência da doença psicológica.

 

Na prática, é uma questão de REDUNDÂNCIA: sistemas conexos se influenciam mutuamente, e o resultado observado seria a soma das influências de cada um desses sistemas. Se a biologia influi em 30% para um problema (por exemplo, por uma constituição com baixa tolerância ao estresse), e a sociedade aonde o problema se desenvolve contribui com outros 30% (ao ser intolerante com desvios sexuais, por exemplo), bastariam mais 40% de determinantes psicológicos para que o problema em si aparecesse. Dada a redundância, outros pesos seriam possíveis (por exemplo, 60% para o biológico ou para o social, etc). Isso explicaria tanto a dificuldade de demarcação do que é CAUSA em cada problema específico (porque a flutuação das variáveis conexas é muito grande) quanto o fato de que existem diversas abordagens que FUNCIONAM: cada abordagem focando apenas um aspecto do problema, mas sendo suficiente para alterar a “soma final” que define o problema enquanto tal.

 

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Notas:

 

  1. Antônio Damásio atualiza, confirmando, essa datação em “A estranha ordem das Coisas’, Companhia das Letras, 2018, pg 21/22. Ver também nota ‘3’ do mesmo livro.

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