A crítica da diferença (idealizada).

ensaio-sobre-a-miopia-by-layana-leonardo-1

 

É um axioma conhecido que ninguém ultrapassa o horizonte de sua época, provavelmente porque esse horizonte nos constitui; olhamos as coisas com os “olhos” de nosso tempo, por isso não nos desvencilhamos dele. E o que constitui os olhos do nosso tempo?

Difícil dizer. Estamos perto demais, vivendo as coisas demais, para poder ter o distanciamento necessário para entender o que se passa. Entretanto, gostaria de tentar pensar um dos vetores que constitui o nosso olhar atual, a saber, o elogio da diferença.

 

***

 

À primeira vista esse elogio parece ser uma reação a um passado em que justamente a diferença era negada. Se pensarmos no curto prazo ou no horizonte pessoal podemos dizer que as ideias da “hegemonia masculina”, do “homem branco”, do “europeu civilizado”, etc, eram todas expressões dessa negação da diferença. Havia um ideal bem marcado que representava o “norte” da cultura, e todas as demais pessoas/situações eram referidas à esse ideal. No horizonte ampliado da cultura podemos pensar que a Idade Média, com sua forte determinação religiosa da vida, representava a mesma situação: existia um grande sistema que tudo explicava – o religioso – e as demais formas de pensamento só podiam existir à margem desse sistema.

 

Isso mudou visivelmente. Hoje todos entendemos que o diferente deve ter o direito de existir em pé de igualdado com qualquer um. Em termos da cultura, assistimos uma nítida derrubada dos grandes sistemas, em favor da proliferação dos sistemas ‘menores’, por assim dizer, sistemas que não se querem ou não se pensam majoritários, mas se pretendem feitos pra a ocasião, a mudança, com uma certa ‘precariedade’ vista hoje como qualidade. O que unifica grande parte desses sistemas é justamente a afirmação do diferente, ou, para usar outro termo, do indeterminado: o elogio da indeterminação que permeia a vida necessariamente, e que faria parte, inclusive, do ‘tempero’ da vida, daquilo que lhe dá intensidade, cor, alegria. Da vida como aventura, digamos assim.

 

Nada a opôr contra essa direção do pensamento. Penso inclusive que algo de muito verdadeiro foi adicionado à imagem que tínhamos da vida por esse esforço de tentar pensar aquilo que é determinado – a vida mesma – por sua relação com a indeterminação.

 

***

 

Entretanto, existe um risco: se por um lado ganhamos em termos de democracia e de ampliação das formas de vida e pensamento possíveis, por outro as vezes parece que se passa a um extremo aonde a diferença deixa de ser afirmada para ser a única posição possível. Me explico.

 

Comecei o texto com exemplos históricos de como antes teríamos vivido um tempo de maior determinação daquilo que seria o bom, o ótimo, o desejável, na cultura, e de como hoje isso se expandiu horizontalmente, por assim dizer; a sociedade e a vida deixam de ser tão verticalizadas para dar lugar a uma vida ‘mais horizontal’. O grande problema da configuração antiga parece ser justamente sua verticalização: as diferenças estavam aí, com certeza, mas eram menos valorizadas do que o ideal (“homem branco civilizado”, etc). Mas o que acontece quando o próprio elogio às diferenças passa a ser verticalizada, e ocupa o mesmo lugar ideal ocupado antes pela ‘norma’?

 

Dito de outra forma: será que no afã de afirmarmos o diferente não estamos excluindo o ‘normal’ (ou o “menos-diferente”, digamos), de forma semelhante ao que ocorria no passado – e o diferente está se tornando então a nossa ‘norma’?

 

***

 

Penso que isso fica mais claro se nos ativermos aos sistemas de pensamento. Como falei antes, existe aí, hoje, um elogio da diferença que trouxe ganhos enormes para a cultura. Basta pensar na ciência, que é, em si mesma, um sistema de pensamento absolutamente horizontal, já que nenhum pensamento pode se impôr aos demais, se assim não o autorizam os fatos. Na filosofia, assistimos a um contínuo ‘desmanche’ dos sistemas tradicionais, infiltrados, por assim dizer, por uma valorização cada vez maior da indeterminação. Só que, como dissemos acima, o que acontece quando a indeterminação passa a ocupar o mesmo lugar ideal que antes era ocupado pela determinação?

 

Peguemos o exemplo da vida. Por toda a idade média existiu um consenso no qual Deus era visto como a única determinação de tudo. Em reação a essa determinação ‘espiritual’, por assim dizer, o iluminismo e o materialismo procuraram encontrar as determinações materiais para a vida, e em grande parte conseguiram. Vemos hoje que isso ainda continua, no afã de reconduzir toda a vida psicológica ao cérebro, por exemplo. Nesse contexto, uma contra-reação parece estar se instaurando, valorizando novamente a indeterminação que se aplica inclusive aos gens, só que dessa vez valorizando a figura da cultura, ou da experiência, ou da sociedade, etc.

 

O que se perde aí, creio, é que ao se instalar absolutamente apenas de um lado – ou da determinação ou da indeterminação – se perde os ganhos do lado que se deixou.

 

***

 

No exemplo da vida, parece claro que a indeterminação é realmente um dos principais fatores a incidir sobre o corpo – até porque não existe vida sem uma abertura para o ambiente, para o ‘fora’ do organismo, que muitas vezes define o próprio organismo, para além de suas determinações. Entretanto, é claro que existem determinações necessárias: nós, por exemplo, seguimos um plano corporal muito estrito, inscrito nos gens, por mais que a genética esteja aberta ao indeterminado. No plano da cultura, ao afirmar absolutamente o indeterminado, perdemos no mesmo movimento determinações que parecem necessárias, como alguns lugares de autoridade, por exemplo (há um movimento perceptível de incômodo mesmo com aquelas coações que entendemos necessárias – como a coação estatal dos criminosos).

 

Para dizer tudo, creio que ao lado dos ganhos – indiscutíveis – que obtivemos com a afirmação da diferença existe também uma espécie de afirmação ingênua da diferença, que não leva em consideração a por vezes necessária determinação.

 

Pois ambas são necessárias, ambas têm um papel em nossa vida. Como sempre, a realidade é mais complexa do que nossas teorias; ela não se incomoda em ser coerente conosco, ela não exclui nada daquilo que se mostre suficientemente forte para existir.

 

Em contraste com essa nossa afirmação ingênua da diferença, lembro do mito de Filoctetes, do qual tratei aqui e aqui, o qual discute exatamente o lugar do civilizado (ou determinado) e do selvagem (ou indeterminado) na vida social. Creio que a sabedoria dos antigos se mostra em sua prudência de não excluir nenhum dos lados, de mostrar ambos como parte importante da vida – de não saturar as conclusões, em suma. Porque, para dizer ainda uma vez: mesmo quando elogiamos a diferença, se isso é feito de modo absoluto, estamos, sim, sendo parciais.

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