O nascimento da psique: Winnicott, Espinosa, Damásio e o biológico.

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A psicanálise não é um todo acabado. Apesar do que dizem seus críticos, ela é um conjunto de proposições em movimento: propõe soluções, hipóteses, e acolhe ou refuta pontos de vista no combate privilegiado que ocorre na clínica. Poderia ser mais aberta, mais autocrítica, dar mais importância ao método científico? Com certeza. Mas o fato de ela ser turrona não quer dizer que seja absolutamente imprestável.

 

Proponho ao leitor a minha visão do que seria o nascimento do psicológico, da experiência do psiquismo no sujeito, a partir da psicanálise que adoto. Trata-se, repito,  de uma interpretação – sujeita à mesma precariedade salientada acima. Penso que apresentar essa visão de modo claro pode ser útil nas discussões envolvendo psicanálise (pelo menos a winnicottiana 😀 ) e as relações e limites entre psicologia & biologia.

 

***

 

Imagine o leitor um bebê no útero da mãe. Ele mal sente fome, sede ou frio; o meio em que está inserido provê tudo de que ele necessita, sem espaço, sem distância, entre o que poderíamos chamar de ‘fome’ e o alimento. Há um acoplamento perfeito entre sua necessidade e a resposta do ambiente.

 

Quando o bebê nasce, esse acoplamento perfeito se perde. Ou melhor, se transforma: o cuidado da mãe, a qualidade de seu cuidado, vem justamente se colocar no lugar desse acoplamento biológico entre o bebê e o corpo da mãe. Só que, como é claro, a possibilidade de erros e de desencontros entre ambos é muito maior agora do que antes (o corpo da mãe praticamente não erra em termos de sua adaptação ao bebê; o comportamento da mãe pode errar, e muito).

 

O bebê então nasce chorando, e não é por acaso: ele é jogado abruptamente e com sofrimento em um mundo estranho, e passa a ser assaltado por uma multidão de sensações que antes não tinha: ele agora tem que respirar[1], sente fome, sede, frio, sente o peso do próprio corpo (que antes era sustentado pelo meio aquoso da placenta) e, sobretudo, sente-se jogado em um mundo diferente: o ar, a atmosfera, não trazem o mesmo aconchego que o calor do meio interno aonde ele vivia.

 

O ambiente aonde ele vai viver deverá, idealmente, substituir aquele acoplamento perfeito que existia antes; o ambiente deverá, então, proteger o bebê de estímulos intensos demais para sua capacidade de elaboração; suprir o alimento, o conforto, a sensação de acolhimento… Pense comigo: não parece que, por mais que se esforce, o cuidado humano é simplesmente um substituto medíocre comparado com a perfeição que o bebê desfrutava antes de nascer? Parece então ser natural, algo biologicamente programado, que o quantum de sofrimento do bebê aumente com o nascimento, simplesmente porque o biológico aonde ele vivia era perfeito demais.

 

***

 

Uma tese psicanalítica diz que o pensamento nasce com a frustração, com o sofrimento. Quando tudo vai bem, não pensamos. Quando as coisas encrespam, aí sim, precisamos pensar. Talvez isso valha também para o nascimento? Não sei. Em todo caso, para Winnicott como para Espinosa, poderia ser assim, já que o mental, para ambos, é o resultado da elaboração imaginativa das experiências do corpo.

 

O nascimento da mente seria, então, a soma das experiências corporais do bebê traduzidas, transformadas, imaginadas. Note que ainda estamos em terreno absolutamente biológico: existiria uma capacidade (biológica) de imaginar, de transformar em imagem, que transformaria as experiências do corpo (também essencialmente biológicas) em imagens, em ‘representações’ mentais. Ocorre que essas próprias experiências biológicas do bebê com seu corpo são atravessadas, como vimos acima, pela qualidade do cuidado do ambiente.

 

***

 

O mental já nasceria, então, sob dois signos: o da biologia (já que deriva das experiências corporais que temos) e o do ambiente (já que essas próprias experiências corporais mudarão, conforme o tipo de cuidado que recebermos na infância).

 

Vamos a um exemplo: o bebê tem fome. Essa é uma experiência essencialmente biológica, e podemos imaginar que crie um ‘duplo’ mental, uma imagem mental, na mente. Mas a forma como, por exemplo, uma mãe atende essa necessidade do bebê pode ser diferente da forma como outra o faz. Uma, talvez porque leu um livro com os últimos ‘macetes’ sobre cuidar de bebês, alimenta seu filho religiosamente de 03 em 03 horas; outra, mas simples, espera que ele chore, que mostre que está com fome. Qual a diferença? No primeiro caso, a experiência corporal de ter fome não se vincula tão diretamente à experiência de ter a fome saciada quanto no segundo. Ou seja, do ponto de vista do bebê, essas duas coisas poderiam ser separadas: a sua experiência de necessidade e a resposta do ambiente que satisfaz essa necessidade. Traduzindo de forma mais bruta, é como se a ‘conclusão’ do bebê fosse algo como: “tenho necessidades, mas o mundo não parece se importar com isso. Ele me alimenta, mas quando quer, não quando eu quero”.

 

Imaginemos agora uma terceira mãe, que está sempre ocupada e por isso deixa seu filho chorando por horas, até ter tempo para alimentá-lo. Imaginando sempre o ponto de vista do bebê, podemos dizer que esses três casos tem a mesma experiência de fome? Que os três bebês vão formar uma imagem que traduza sua experiência do mesmo modo? Parece-me claro que não. Embora a experiência seja disparada em terreno biológico, o segundo bebê poderá extrair da experiência uma certa confiança de que o seu pedido é atendido; o primeiro talvez não vincule a experiência tanto à sua necessidade quanto à necessidade externa, enquanto o último certamente viverá a experiência de fome como algo muito mais dilacerante, na medida em que parece não haver resposta alguma do ambiente a ela[2].

 

Tudo isso para dizer que, se o mental é a tradução das experiências corporais, então, após o nascimento, esse mental se forma sempre portando algo da relação com o ambiente. Numa palavra, a mente espelha o cuidado do ambiente, assim como espelha o biológico.

 

***

 

Se agora aplicarmos o mesmo raciocínio para as diversas experiências corporais do bebê, estaremos – creio – em condições de situar o psicológico diante do biológico: o psicológico será exatamente a resultante do encontro entre o biológico do bebê e a qualidade da relação desse com o ambiente. Eis porque, para a psicanálise, a psique nunca poderá ser reduzida absolutamente ao biológico.

 

Na medida em que se postule que a relação com o outro é fundante – como tentamos exemplificar acima – sempre haverá um “algo a mais” na psique além do biológico. É importante que se diga que essa própria abertura do biológico ao ambiental é, em si mesma, biológica: o corpo poderia sim nascer menos dependente do ambiente; mas então teríamos menos ‘psicologia’. De acordo com nossa tese, é o fato da dependência absoluta do bebê em relação ao ambiente que insere o ambiente tão profundamente em nossa mente.

 

Tanto Antônio Damásio quanto Espinosa nos apresentam um quadro da biologia[3] que é fascinante. A tese de Espinosa de que a mente é a imagem do corpo permanece correta até hoje (pelo menos até onde sei :D). Sua concepção de que os afetos de alegria e tristeza são ao mesmo tempo índices e indutores de maior ou menor potência do corpo também me parece essencialmente certa. O que falta, em sua leitura (assim como na leitura de Damásio) é justamente o papel do ambiente nesse jogo entre o corpo e o outro[4].

 

Dito de outra forma, tanto Espinosa quanto Damásio desvendam a “vizinhança” da psicologia, por assim dizer, mas não a psicologia em si mesma. É claro que ao clarificar o papel da biologia nos sentimentos, por exemplo, Damásio nos dá uma visão mais clara de seu papel na própria experiência psicológica como um todo; mas ao deixar de lado o papel do ambiente, mais uma vez aquilo que seria o cerne da psicologia fica de fora.

 

Analisando a situação global e atentando para o grande papel que a biologia parece desempenhar mesmo no psicológico, talvez concluamos que a psicologia não tem, afinal, um papel tão grande no desenvolvimento humano; ela só se destaca, de fato, ali onde grandes erros de conduta do ambiente impossibilitam um desenvolvimento emocional que, entregue a si só (isto é, com um ambiente que não o atrapalhasse) teria muitas chances de ser funcionante. Mas num momento em que estamos prestes a abandonar grande parte das condições que herdamos (com bebês crescendo fora do útero e relações de cuidado cada vez mais próximas de abdicar inclusive dos pais) quiçá seja importante atentar para o que pareceu ser importante, até agora, e para as pistas que podemos encontrar aí sobre o que podemos esperar de nós mesmos, no futuro.

 

Por fim, escreverei mais adiante sobre as razões e os perigos dessa minha visão um tanto “biologizante”, tentando responder as críticas que isso geralmente suscita em psicologia.

 

 

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Notas:

 

[1] http://diariodebiologia.com/2010/03/como-o-bebe-respira-dentro-do-utero/

[2] Esse artigo discute o impacto da depressão da mãe no comportamento exploratório do filho: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822005000200008

[3] Sim, entendo que Espinosa poderia ser lido a partir da biologia, como aliás sugere o próprio Damásio, no livro “Em busca de Espinosa”.

[4] Tentei argumentar que esse ponto é o que diferencia essencialmente a psicanálise da esquizoanálise no seguinte post: https://euemtorno.wordpress.com/2018/04/11/a-questao-central-entre-esquizoanalise-e-psicanalise-e-um-resumo-de-mil-platos/

 

 

 

2 Respostas para “O nascimento da psique: Winnicott, Espinosa, Damásio e o biológico.

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