A Questão central entre esquizoanálise e psicanálise – e um resumo de Mil Platôs

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A formação e os caminhos percorridos por um psicólogo dizem muito, creio, sobre ele mesmo enquanto pessoa. De minha parte, como já tive oportunidade de comentar (LINK), iniciei a carreira clínica me entendendo – mais do que Atendendo – um esquizoanalista. Diversas circunstâncias fizeram-me abandonar essa posição, e hoje me vejo, não sem certa surpresa, muito mais próximo da psicanálise. (Não sem reservas, no entanto. Considero-me hoje um psicanalista “malhado” – isto é, misturado, não puro. Mas isso é assunto para outro dia…).

 

Nos últimos meses, entretanto, um grupo de estudo tem me feito revisitar esse ‘passado esquizo’, e o confronto entre as duas visões de mundo tem sido inevitável. Alguns frutos começam, entretanto, a surgir, e hoje nos ocuparemos de um deles. A ideia aqui será apresentar o que me parece ser o cerne da diferença entre ambas as escolas – psicanálise e esquizoanálise. Anexo também um resumo do capítulo “Rizoma”, do livro 1 de “Mil Platôs”, obra fundamental de Deleuze e Guatarri e que tem tudo a ver com a discussão que pretendo iniciar.

 

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A esquizoanálise se caracteriza por uma leitura horizontal e política das forças que nos constituem. Se estamos nos sentindo mal, se estamos deprimidos, a causa não é um acontecimento da infância ou muito menos uma estrutura psicológica, uma forma específica de nos relacionarmos com o mundo, que estaria no inconsciente. As causas serão sempre forças atuais, pois, repito, para a esquizoanálise não existe uma hierarquia pré-determinada de forças: tudo o que incide sobre o humano são forças, e todas têm o mesmo peso. Há uma “democracia” das forças, por assim dizer, um funcionamento rizomático, como diz Deleuze, e isso implica numa horizontalidade das condicionantes de qualquer comportamento.

 

A própria ideia de “rizoma”, que define bem o modo de funcionamento esquizoanalítico, implica em um estado de permanente abertura às forças. Estruturas que possam ser agenciadas, em uma ou outra circunstância, serão, por isso, sempre provisórias, passíveis de desconstrução – senão não haveria rizoma, isto é, deixaria de ser possível o funcionamento democrático das forças.

 

Para a psicanálise, por outro lado, existem, sim, condicionantes privilegiados do comportamento – e tais condicionantes são entendidos como estáveis ou como tendendo à estabilidade (apesar de a própria clínica implicar numa possibilidade de mudança nas estruturas). Embora exista discussão entre as diversas escolas psicanalíticas na definição do quê seria, exatamente, esse condicionante, podemos dizer, grosso modo, que a infância estruturaria formas predominantes de relação com o mundo, que tenderiam a permanecer estáveis ou quase estáveis.

 

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À primeira vista, então, temos apenas uma diferença de grau: a esquizoanálise iria um pouco mais longe na concepção de que somos o resultado de agenciamentos diversos – e isso estaria no centro do entendimento esquizoanalítico – enquanto para a psicanálise existiria, sim, possibilidade de mudança, mas o foco estaria antes na qualidade da estrutura (mental) formada.

 

Vamos a um exemplo: um bebê que não foi desejado na família em que nasce, poderia, segundo a psicanálise, desenvolver um tipo de comportamento onde estará sempre se defendendo de uma possível rejeição – que repetiria a rejeição vivida na infância. Assim, talvez ele evite, sem pensar, qualquer tipo de relação aonde uma rejeição pode tornar-se possível (como um relacionamento mais sério), talvez ele se mostre sensível demais para qualquer recusa do outro, mesmo que justificada, etc.

 

Do ponto de vista da psicanálise, isso aconteceria porque o modo de relação do sujeito com o outro seria estruturado na infância, especialmente do nascimento até o primeiro ano de vida (segundo Winnicott, pelo menos). Mais especificamente, o que se estruturaria aí seria o próprio mental, isto é, a capacidade da mente humana de elaborar experiências e incorporá-las como algo seu, próprio do indivíduo que as vive[1].

 

A consequência disso é que dependendo da qualidade da formação desse mental elaborativo, algumas experiências poderão ser elaboradas, outras não. Teremos, portanto, limites de tolerância ao stress diferentes para cada tipo de sujeito, limites de relações que são possíveis num caso, mas impossíveis em outro, etc. No exemplo acima, a rejeição familiar seria uma experiência impossível de elaborar, e por isso acabaria determinando o comportamento futuro do sujeito. Note-se que a determinação do comportamento acontece por via indireta: a incapacidade de tolerar uma rejeição seria definida não pela determinação do mental enquanto tal, mas justamente pela falha na instauração dessa instância.

 

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Uma forma de dizer isso é estabelecer que quanto mais determinado – isto é, mais fixo, mais estereotipado -, for um comportamento, mais ele pode ser o resultado de uma tal falha na constituição do mental. Haveria então uma relação inversa entre a qualidade da elaboração mental e a estereotipia de comportamento do sujeito: quanto mais determinado o comportamento, menos bem formado foi, provavelmente, o mental elaborativo do sujeito. Mas o que estou querendo defender aqui é que não são tanto experiências específicas que ficam condicionadas pela vivência infantil, mas sim a capacidade global de lidar com as experiências em geral.

 

Dito de outra forma, o que é determinado pela experiência infantil é o grau de liberdade de relação que o sujeito vai ter na elaboração das “forças” com que entrar em contato. A experiência infantil determinaria diretamente a capacidade de elaboração (“digestão”) do sujeito, e a partir dessa capacidade algumas experiências vão se tornar ‘digeríveis’, outras não.

 

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Não sei se fica claro, mas ao menos para mim isso é bastante próximo daquilo que propõe a esquizoanálise: todas as experiências estão mais ou menos no mesmo plano, desde que se tenha um “estômago” mental elaborativo bem formado. A diferença principal que vejo entre as duas teorias estaria, portanto, na centralidade que a psicanálise dá para a formação desse mental como intermediário entre as forças que nos afetam e a capacidade de nosso organismo de lidar com essas forças.

 

Diria que a psicanálise, tal como eu a vejo hoje, trabalha justamente com esse “estômago” mental. É seu funcionamento, sua disfuncionalidade, sua qualidade, ou até sua ausência, que caracterizaria uma “doença” ou um sofrimento do ponto de vista do mental, mais do que qualquer relação específica. Ou ainda, o fato de uma relação específica ser condicionada pela falha da constituição do mental importa menos do que o estado desse mental em si.

 

No exemplo que demos, importa menos “interpretar” para o paciente que ele teme rejeições no presente por causa das relações de sua infância do que ajudá-lo à expandir sua capacidade de elaboração mental, de forma que ele possa ‘digerir’ essas experiências infantis que estariam, ainda, “indigeridas”. Importa expandir esse mental intermediário entre as forças e nossa capacidade de lidar com elas.

 

Se bem me lembro, não existe um equivalente a esse “mental” na esquizoanálise. Ela advoga uma horizontalidade radical, aonde a própria capacidade de um corpo de lidar com as forças é apena mais uma força. Isto é, não há instâncias privilegiadas, não há estruturas intermediárias entre uma força e outra. Não há intermediários. Há somente forças.

 

Isso torna possível que se retome, como faz Deleuze, a teoria espinoziana para aplicá-la igualmente às forças físicas do mundo, às plantas, aos animais inferiores e ao homem: todos são resultantes de “forças”, de relações entre aspectos da mesma substância única. Repito ainda outra vez: não há instâncias intermediárias, não há instâncias que diferenciem radicalmente qualquer desses seres vivos uns dos outros. A melhor imagem que conheço para resumir essa visão geral da esquizoanálise é o próprio conceito de rizoma, conforme Deleuze apresentou em Mil Platôs (obra cujo primeiro capítulo resumi nos meus tempos de ‘esquizo’, e que se encontra disponível ao final desse texto).

 

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Essa ausência de instâncias intermediárias, mediadoras entre as forças do mundo e nossa capacidade de lidar com elas, também existe na psicanálise, mas aí configura mais propriamente um problema: falo da psicose, que se caracterizaria justamente pelo claudicar daquela instância que estamos chamando de mental elaborativo. Já a saúde na acepção psicanalítica dependeria fundamentalmente da consistência da formação do mental como instância elaborativa.

 

Como dissemos acima, tanto a psicanálise quanto a esquizoanálise entendem que a abertura (ou liberdade, ou criatividade, ou produtividade, ou diferença…) é um atributo ligado à saúde. Só que no caso da segunda isso parece ser uma premissa, um resultado dado por si, ‘natural’ – desde que forças despotencializantes não atrapalhem; na psicanálise, ao contrário, isso só se dará como resultado de uma constituição bem feita do mental elaborativo.

 

Um crítico esquizoanalista poderia dizer que essa aparente necessidade de uma instância intermediária (que constituiria um ‘mental’, ou uma subjetividade, ou um interior, ou uma permanência do passado no presente, etc) não reflete uma verdade, mas antes um estado de forças, uma resultante de um jogo político, histórico, específico, que nos faz acreditar – nos despotencializando – que algumas coisas são necessárias quando, no fundo, não são. Nesse ponto estamos nas superestruturas: cada escola “lerá” a outra a partir de seus próprios fundamentos, e tenderá, por isso, a fazer uma leitura auto-validadora.

 

O que me ocorre como resposta seria dizer que, por um lado, trata-se realmente de uma hipótese, não de uma verdade. Na medida em que se entenda como uma ciência[2], a psicanálise deve apenas substituir uma hipótese por outra melhor, que aparente conter um grau mais elevado de aproximação – ou de consistência – com as demais hipóteses, consideradas em conjunto. Em segundo lugar, essa hipótese tem uma validação clínica: ela parece descrever bem aspectos clínicos que Freud foi o primeiro a integrar num todo coerente, e sobretudo ela funciona, isto é, ela produz resultados condizentes com aquilo que se espera a partir das hipóteses do sistema teórico psicanalítico. Em terceiro lugar, minha experiência como paciente faz parecer muito mais plausível a hipótese psicanalítica (argumento que reconheço limitado mas… parte da minha resposta, indubitavelmente :D).

 

Por fim, enquanto não tivermos dados concretos a favor de uma ou outra orientação (pesquisas, etc), entendo que cada um deve usar aquilo que lhe parecer melhor. A dura realidade é que sabemos tão pouco sobre o humano que toda hipótese deveria ser assumida com certa prudência. Volto sempre a esse ponto: apesar das diversas limitações que o método científico e a ciência em geral possuem, ela ainda é uma das formas mais consistentes que temos de vincular variáveis e tentar postular conjunções constantes.

 

Para além disso, a teoria deve ter também o seu valor como potencializador: recorrer às teorias não porque elas sejam mais verdadeiras ou mais diferençantes, mas porque elas nos ajudam a construir, com o paciente, algo mais potente; nos ajudam a continuar querendo escutar; nos ajudam a ajudar, de alguma forma; nos ajudam a reencontrar o ponto de equilíbrio (ou de desequilíbrio) que precisamos para funcionar.

 

***

 

Para encerrar, analiso uma questão conexa: assumindo que seja necessário um mental elaborativo, ele precisa necessariamente ser formado a partir da infância?

 

A questão é pertinente. Existem indícios, nomeadamente na clínica, que sugerem que, ao menos para o ser humano, a infância e o primeiro ano de vida são, sim, fundamentais para essa estruturação (nesse vídeo Ivan Capelatto defende veementemente essa posição: https://www.youtube.com/watch?v=oy77qdXnWf4. É importante dizer que isso não é consenso nem entre os psicanalistas).

 

É discutível no entanto se outras instâncias não poderiam assumir o lugar da mãe, por exemplo, no cuidado dos filhos pequenos. Experiências realizadas com grupos (como se pode ver nesse video, de Maria Rita Kehl: https://www.youtube.com/watch?v=TzijGSN6dGk) sugerem que sim, é possível distribuir a educação das crianças entre vários integrantes de uma população. A questão que fica é se isso seria possível – e, sobretudo, saudável – no período crítico que estamos considerando, isto é, entre o nascimento e o primeiro ano de vida.

 

Autores como Winnicott tendem a diluir os limites entre esses extremos – os pais de um lado, o grupo social de outro – ao valorizar o papel do ambiente como o fundamento da constituição do mental. O ambiente, em Winnicott, não precisa realmente ser a mãe em pessoa, sendo antes uma função ligada ao cuidado, que pode existir tanto na mãe quanto na sociedade em geral.

 

Assim, o ambiente poderia ser o pai, outro homem, uma mulher ou até uma instituição. Para esse autor, no entanto, a mãe seria a depositária natural da estruturação do filho no período crítico que consideramos. Entre outras razões porque a “devoção materna primária”, aquela devoção comum da mãe pelo seu filho, seria um componente fundamental da capacidade de constituição do mental no bebê.

 

Na hipótese do autor inglês, a devoção da mãe, fruto de seu amor e idealização / identificação com a criança, seria importante para o pleno desenvolvimento do mental elaborativo. Uma instituição, por melhor que fosse, dificilmente conseguiria replicar essa devoção, simplesmente porque não teria interesse suficiente, identificação suficiente. Entretanto, como vimos acima, a hipótese não defende uma vinculação exclusiva: dizemos que a qualidade do cuidado na primeira infância estaria ligada à qualidade da relação social que o sujeito pode estabelecer. Não se trata de uma questão do tipo “sim” ou “não” – a falta de uma boa relação infantil implicando na ausência da capacidade de relação social. Haveria, portanto, margem para outros tipos de cuidado, cada um implicando, possivelmente, num tipo predominante de relação social.

 

Encerrando a questão, remeto o leitor interessado a dois posts desse mesmo blog, aonde abordei a questão da psicanálise e apresentei algumas pesquisas que suportam as ideias aqui apresentadas (para a visão especificamente winnicottiana do problema existem diversos posts aqui no site que podem ser lidos com interesse). São eles:

 

https://euemtorno.wordpress.com/2018/03/11/psicanalise-ciencia-refutacao-e-gostos-pessoais/ , e

https://euemtorno.wordpress.com/2017/11/09/pesquisas-sobre-o-que-e-efetivo-nas-terapias-carl-rogers/

 

 

E aqui o link com o resumo do primeiro capítulo de Mil Platôs: Deleuze, G – Mil Platôs – I

 

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Notas:

[1] Uma boa metáfora é comparar esse mental elaborativo com um estômago: é ele quem ‘digere’ nossas experiências e nos permite aproveitá-las, incorporá-las ao nosso corpo. Para uma ideia mais clara do que entendo por “mental”, ver https://euemtorno.wordpress.com/2018/04/14/o-nascimento-da-psique-winnicott-espinosa-damasio-e-o-biologico/

[2] Aliás, uma consideração radical da esquizoanálise enquanto rizoma implicaria que o conhecimento científico perderia qualquer pretensão de – mesmo uma relativa – consolidação. É certo que para a ciência empírica, o conhecimento é sempre uma aproximação, mas a ciência não nega, em si, a possibilidade de que construamos um conhecimento correto; ela apenas advoga que não temos outro meio de validar essa correção senão a testagem. Parece que, nesse ponto específico, a ciência é menos taxativa que a esquizoanálise, que deve negar a possibilidade de avanço no conhecimento na medida mesma em que se pretende rizomática – já que “avançar” no conhecimento implica numa certa permanência das variáveis estudadas. Se estou correto nesse ponto, a esquizoanálise teria ressonâncias paradoxais com a religião, ambas negando na base a possibilidade de um avanço no conhecimento humano.

Uma resposta para “A Questão central entre esquizoanálise e psicanálise – e um resumo de Mil Platôs

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