Sobre os limites da comunicação

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Tenho participado de um grupo de estudos. A experiência tem me feito refletir sobre os limites da comunicação. O tema já foi abordado, antes, neste link. Basicamente, mantenho a mesma impressão: existe um abismo entre um sujeito e outro. Hoje quero apenas comentar um pouco mais sobre esse abismo.

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Cada pessoa tem uma experiência de vida. Essa experiência é indissociável das posições que a pessoa assume. Não é diferente dentro do campo científico: basta pensar na dificuldade de mudar correntes de pensamento dominantes.

As dificuldades começam na linguagem. A linguagem – já abordamos esse ponto aqui – não é nosso ponto de vista; ela apenas exprime, traduz, aquelas experiências que nos formaram. Essas experiências, muitas vezes, são inexprimíveis – mas existem, estão lá.

Sabemos (nem sempre com clareza) que elas têm um peso e que nos inclinam a um ou outro posicionamento. Mas é claro, penso eu, que existe uma discrepância, uma diferença, entre a multiplicidade de experiências que vivemos e as poucas palavras que dispomos para expressá-las.

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Pense nisso: quantas experiências tivemos que são únicas? Quantas situações vivemos como consequência de um passado absolutamente irrepetível, cada efeito dependendo de múltiplas variáveis cuja combinação específica simplesmente não pode se dar na mesma ordem na pessoa ao lado?

Por outro lado, cada palavra existe para traduzir numa única forma diversas experiências semelhantes – mas não idênticas. Imagino uma palavra como um recorte numa linha contínua: ela “marca”, aproximadamente, os limites de sentido que ela traduz. A grande questão é: quem vive exatamente essa linha de sentido aonde a palavra marca seus limites? Resposta: precisamente, ninguém.

Cada um de nós vive uma miríade de “linhas” de sentido em grande parte irrepetível, absolutamente única. Essas linhas podem até se cruzar com as linhas “genéricas” que constituem o sentido das palavras no dicionário, mas seu contexto – seu antes e seu depois – são diferentes. Tem que ser diferentes.

Assim, o sentido pessoal das palavras muitas vezes distorce a comunicação. Estamos falando coisas diferentes usando as mesmas palavras. Como nos entender, nessa situação?

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Não nos entendemos. Exemplos claros são as discussões entre a direita e a esquerda no Brasil atual. Chega a ser engraçado ver como cada lado interpreta os mesmos fatos com sentidos absolutamente diferentes. A conclusão é uma só: eles não estão falando da mesma coisa, embora pretendam estar discutindo o mesmo assunto. Cada lado está tão fortemente ligado ao mundo de contextos que o caracteriza como ‘esquerda’ ou ‘direita’ que tem muita dificuldade em entender realmente o que o outro lado está falando.

O mesmo vale para diferentes teorias. Em psicologia, assumimos uma teoria de forma muito pessoal. Afinal, não estamos falando de pedras, de elementos químicos ou de forças gravitacionais: estamos falando do humano, então não temos como não projetar na teoria que elegemos algo da nossa própria visão do que é o ser humano.

(Talvez uma visão mais justa seja dizer que há uma retroalimentação entre ambas: de um lado, nossas experiências nos predispõe a tolerar uma certa margem de sentidos; de outro, as teorias dão palavra à pensamentos que nem sabíamos que nos habitavam. Mas estavam lá, fazendo parte das experiências que nos constituem.)

No limite, parece haver uma relação necessária entre aquilo que a pessoa É e aquilo em que ela pode acreditar. Temos todo um conjunto de experiências biológicas que formam um fundo comum, e a partir desse fundo nos entendemos. O resto é desentendimento – ou encontro, ali onde experiências semelhantes permitem posições semelhantes.

Ninguém pode falar a partir de um lugar que não viveu, que não é o seu. A não ser que fale como teórico – “teórico” aqui equivale a falar de lugar nenhum, de um certo ‘não lugar’. Não por acaso, teorizar demais foi cedo percebido como um afastamento da realidade, e já no tempo dos primeiros filósofos gregos a sabedoria popular nos advertia contra o olhar distante do filósofo, que contempla as estrelas mas não vê o buraco para onde está se dirigindo. [1]

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Notas:

[1] http://socientifica.com.br/2016/10/talesdemileto/

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