Filoctetes II – os dois tipos de selvageria

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Este post continua um primeiro, onde comecei a delinear como a peça de Sófocles opunha um regime “selvagem” na vida humana – ilimitado, indeterminado, infantil, sem leis – à um regime “civilizado” e correlativamente limitado, responsável, adulto. Procurei mostrar como nosso tempo parece valorizar demais a abertura, a indeterminação, na vida adulta, sem no entanto atentar-se para a necessidade de mediação entre os dois extremos – porque ambos extremos existem no homem. Nessa segunda parte tento argumentar que há uma diferença entre o selvagem que não se inscreve na cultura – que não é mediado pela cultura, reconhecido por ela – e o selvagem que encontra reconhecimento e lugar cultural.

 

***

 

Voltemos à peça. Nela vemos o velho opor-se ao novo, assim como a guerra ‘civilizada’ e a guerra ‘selvagem’, sem lei. Filoctetes represente tanto o velho quanto o novo em sua selvageria. Seus gritos, o cheiro que exala, lembram o animal selvagem, assim como seu comportamento que impossibilitou o culto aos deuses (algo eminentemente humano). Seu próprio nome parece indicar que ele está um pouco aquém do humano: “phílos”, amigo, e “ktétes”, do verbo “ktâsthai”, possuir, adquirir, angariar – poderia ser traduzido como “aquele que estima muito o que possui”[1]; entendemos que uma estima pessoal em demasia, desvinculada de seu uso na cultura, não seria algo ‘civilizado’. É possível que esse nome seja uma alusão também ao ódio de Filoctetes por Ulisses, já que sentiu o seu abandono na ilha como uma traição. Esse ódio excessivo, claro, também o aproximava do animal.

 

Tudo em Filoctetes lembra a medida do humano por aquilo que a ultrapassa: suas flechas são divinas – e o que é divino está acima do ‘humano’ –, mas seu estilo de vida solitário e baseado na caça lembra mais um animal do que um homem. O coro lamenta sua sorte: “Ah! Deplorável existência a de um homem que há 10 anos não teve a alegria de ver lhe servirem vinho…”[2]. Detalhe que o vinho simboliza aqui mais uma vez a vida cultivada.

 

Em oposição a esse selvagem pela exclusão do civilizado, Neoptólemo representa o selvagem do infantil, o que ainda não entrou na vida da cidade – mas cuja exterioridade existe na cultura. O que lhe pede Ulisses é análogo ao que era pedido aos efebos nos ritos de passagem (ver primeira parte): ele deveria vencer uma prova (geralmente a caça) pela astúcia, isto é, pela selvageria[3]. Só que, diferentemente da infância e da própria selvageria de Filoctetes, essa astúcia era permitida enquanto rito de passagem, isto é, enquanto subordinada a um sentido compartilhado pela cultura. A caça ‘selvagem’ de Neoptólemo e a caça selvagem de Filoctetes se opõe então claramente como dois tipos de selvageria distintos: aquela que está inserida nos marcos da civilização – mesmo que como uma fronteira, poderíamos dizer – e aquela que se desenrola para além das fronteiras do civilizado.

 

***

 

Neoptólamo está relutante em cumprir sua missão enganando o selvagem herói. Poderíamos pensar que começa a se desenvolver nele uma identificação com Filoctetes – um afeto nasce entre os dois, admiração, respeito, amizade, etc – impedindo que o engano se perpetue. Ocorre que ao não enganar o herói – ao ficar “do seu lado’ – Neoptólamo realiza em ato o juramento dos hoplitas, dos combatentes adultos – que, lembremos, nunca abandonam seu companheiro de batalha. O jovem realiza, assim, o seu ‘rito de passagem’, pois é bem sucedido ao ‘caçar um animal’, e ao mesmo tempo manteve-se ao lado de seu companheiro de batalha. Filoctetes, em sua posição ambígua, é os dois ao mesmo tempo, o animal caçado e o companheiro de batalha.

 

O que fundamenta o sucesso do jovem, a nosso ver, é justamente esse afeto, a admiração, a identificação que ele consegue realizar com o herói. Essa admiração permite-lhe fazer a travessia entre o selvagem por exclusão e o selvagem permitido na cultura; é ela que transforma Filoctetes de um animal excluído em um herói reencontrado, restituído à vida da cidade.

 

Há também a malícia de Ulisses. Podemos pensar que esse, ao encarregar o jovem e belo (mas inexperiente) Neoptólemo de ‘capturar’ Filoctetes, estivesse justamente depositando na beleza do jovem parte grande de suas esperanças. Se foi assim, uma das grandes conclusões da peça poderia ser que essa ‘selvageria’, esse jogo baixo de Ulisses, se justificaria na medida em que é usada para reconduzir o selvagem à cidade. Teríamos, assim, a chave para a passagem de um regime ao outro: o selvagem é permitido desde que seu sentido, sua função, pertença ao grupo, reconduza ao grupo.

 

É exatamente nesse sentido que Jung diz, em algum lugar, que um crime cometido em segredo aparta o criminoso da sociedade, mas a confissão o reconduz à ela. Ou seja, ao cometer algo que a sociedade não reconhece como seu, como permitido, o criminoso se aparta do grupo, do reconhecimento dos seus; torna-se um ‘fora da lei’. Mas ao confessar o que fez, ele automaticamente se reintegra à coletividade, porque a confissão faz o trânsito entre a exterioridade do ato criminoso e o acolhimento do grupo. O criminoso confesso é exterior à sociedade enquanto criminoso, mas é também parte da sociedade enquanto confesso.

 

Na peça, o amor é o grande encarregado de fazer o trânsito entre os dois extremos: de um lado, Neoptólemo e sua admiração por Filoctetes; de outro, Filoctetes e sua admiração pelos gregos, pelo jovem efebo e, talvez, por si mesmo, por sua ‘glória’, pela inscrição de sua história nas narrativas de seu povo. Mas isso veremos melhor no próximo post.

 

(continua)

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NOTAS

 

[1] Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/filoctetes-em-tempos-de-odisseu/

[2] “Mito e tragédia na Grécia Antiga”, pg 125/6, op. cit.

[3] Citado por P. Vidal-Naquet, pg 132, op. cit.

 

2 Respostas para “Filoctetes II – os dois tipos de selvageria

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