Filoctetes I – entre o selvagem e o civilizado

(c) National Galleries of Scotland; Supplied by The Public Catalogue Foundation

 

Sófocles escreveu mais de 100 peças, das quais apenas 07 chegaram até nós. Entre essas últimas, a “Filoctetes” é provavelmente a menos conhecida, embora não deixe de ressoar importantes questões inclusive para nosso tempo. Nessa primeira parte do post (serão mais duas) procuro apresentar o contexto da peça e esboçar rapidamente as oposições que ela dramatiza através de seus personagens principais.

 

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Filoctetes é um herói grego que, tal como os demais, enfrenta um dilema propriamente humano. Ou, para ser mais específico, trata-se justamente da passagem do que seria anterior ao humano àquilo que caracterizaria o humano como tal.

 

Pierre Vidal-Naquet entende que a peça tem a ver com “o que se pode chamar de o paradoxo da efebia ateniense” [1], que assim pode ser resumido: o jovem ateniense (isto é, o efebo), na passagem para a vida adulta, prestava o juramento dos hoplitas, dos combatentes adultos, que basicamente o ligava aos companheiros e ao estilo propriamente grego de luta, em oposição à guerra indiscriminada e sem leis. No entanto, na própria festa ritual aonde o juramento era pronunciado ocorria uma prova que só era vencido pela astúcia, pelo engano, pela trapaça (isto é, pela negação da lei).

 

Como nota o autor [2], “este paradoxo era o da efebia toda e, (…) simbolizava a passagem da condição de criança à de adulto”. A criança, o jovem, aparece então como aquele que não precisa seguir as regras do combate; ele pode usar da trapaça, do ardil, do engano. Ele é um não-civilizado, por assim dizer. Já o adulto não: ele está preso aos companheiros e às leis da guerra; emitiu um juramente [3] que define aquilo que pode e o que não pode fazer. Opõe-se, portanto, claramente ao mundo infantil e “selvagem”, sem regras.

 

Filoctetes, no entanto, é ao mesmo tempo o “selvagem” e o “guerreiro”. Como ficamos sabendo, no caminho para sitiar a cidade de Tróia, Filoctetes foi picado por uma cobra venenosa, e seus gritos (junto ao mau cheiro que exalava a ferida) perturbaram o exército, que “não podia mais fazer em paz uma libação nem um sacrifício; em outras palavras (…) sua presença impossibilitava o exercício do culto cívico” [4]. É então exilado em uma ilha, e lá permanece, sozinho, até que, dez anos depois, os gregos tentam reconduzi-lo, com seu arco divino, à guerra. A presença de ambos era importante porque “O adivinho Heleno (…) revelara que só sua presença e a do arco assegurariam a tomada de Tróia”[5]. Ulisses encarrega então Neoptólemo, jovem filho de Aquiles, pra reconduzir Filoctetes e seu arco à civilização, através da astúcia, e “a maior parte da peça é constituída de diálogos entre Filoctetes, o herói envelhecido, (…) e o adolescente cuja juvenilidade é a todo instante sublinhada” [6].

 

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Traduzindo a peça em termos atuais, diria que ela põe em jogo dois regimes de constituição subjetiva, dois modos de viver que não cessaram de chocar-se ainda hoje: o ‘infantil’ e o ‘adulto’, o ‘sem-lei’ e o ‘regrado’, o ‘infinito’ e o ‘finito’ ou, em termos mais abstratos, o “aberto” e o “fechado”.

 

Vivemos uma época em que a verticalidade dos discursos autoritários (o fechado) foi substituída por uma horizontalidade que tudo – ou quase tudo – permite (o aberto). No caminho, ganhos e perdas. Entre os primeiros, a maior possibilidade (mesmo que, em muitos casos, apenas teórica) de mobilidade e reconhecimento social. Entre as perdas, parece que esquecemos como se faz a passagem entre o infinito de nossas possibilidades – nossa liberdade ‘infantil’, por assim dizer, porque não reconhece nenhuma lei, nenhuma autoridade – e o finito necessário para uma vida social responsável – que, portanto, acolhe alguma lei, alguma regra. Esse é justamente o interesse que, parece-me, a peça pode ter para nós.

 

Em termos muito gerais, nossa época parece estar presa em uma polaridade exclusiva – OU vivemos uma absoluta submissão às leis, OU vivemos uma absoluta liberdade que não reconhece nenhuma lei. Como uma espécie de reação aos tempos culturalmente mais definidos do passado, hoje acreditamos numa promessa de felicidade baseada na liberdade pura: “basta ter liberdade que o resto se ajeita”. Mas as coisas não são tão simples assim…

 

A peça foca justamente na necessidade de construir uma mediação entre os extremos. Reconhece, assim – o que é psicologicamente mais verdadeiro – que a vida humana é tanto selvagem quanto civilizada. Somos os dois, portamos os dois extremos. Basta pensar no selvagem do instinto, do ódio, do desejo, mas também no sublime da cultura, da abnegação, da solidariedade. Nietzsche [7] dizia inclusive que não podemos viver um extremo sem desenvolver o outro – e a psicanálise parece segui-lo também nisso.

Ao afirmar a liberdade acima de tudo perdemos tanto a noção dos riscos que envolvem a liberdade quanto – e principalmente – a capacidade de transitar entre os extremos, ou, dito de outro modo, perdemos os lugares sociais que permitiam incluir a ‘selvageria’ na vida cultivada. E quer me parecer que sofremos muito pela falta desse trânsito.

 

(continua)

 

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NOTAS

 

[1] “Mito e tragédia na Grécia Antiga”, pg 125, livro escrito com Jean-Pierre Vernant. O artigo em questão é “O Filoctetes de Sófocles e a Efebia”. São Paulo: Perspectiva, 1999

[2] idem, op. cit.

[3] “Não abandonarei o meu companheiro de fileira”, ibidem. Note-se que o juramente opõe justamente o que pode parecer uma vantagem pessoal diante da batalha – fugir, abandonar o posto – ao interesse maior do grupo.

[4] Pg 132, op. cit.

[5] Pg 128, op. cit.

[6] Pg 129, op. cit.

[7] Nietzsche, F., “Além do Bem e do Mal”, §23.

 

3 Respostas para “Filoctetes I – entre o selvagem e o civilizado

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