Psicanálise & ciência – refutação e gostos pessoais

bebe utero

Dia desses, discutindo sobre psicanálise & esquizoanálise num grupo de estudos do qual faço parte, tive a impressão de que nessa discussão várias coisas se misturaram, e resolvi escrever esse texto para tentar clarear pelo menos algumas dessas questões. Como se verá ao longo do texto, me vi na incômoda situação – para mim – de ter que defender a psicanálise. Espero que se entenda, ao final, que não estou exatamente defendendo que a psicanálise seja “a” verdade – a questão, ao meu ver, é que ainda não temos elementos suficientes para afirmar categoricamente que ela é a mentira. Comecemos então pela questão da ciência.

1) Realidade x ciência

Talvez a pergunta pareça óbvia, mas… você já parou pra pensar POR QUE precisamos de ciência? Isto é, porque precisamos de toda essa complicação de testes e mais testes, teorias, confrontações, pesquisas… A resposta também parecerá óbvia, creio, mas o fato é que não enxergamos a realidade como ela é.

Sim, simples assim. Sabemos que somos atravessados por diversos condicionantes, que ao mesmo tempo estruturam o nosso olhar e o condicionam a uma certa perspectiva. Por exemplo, temos determinantes econômicos, históricos, culturais; também temos determinantes biológicos, fisiológicos, provavelmente psicológicos… todos eles atuando ao mesmo tempo, fazem com que nossa visão das coisas hoje seja diferente de como eram a 200 ou mesmo 100 anos atrás.

Para dar algum exemplo, nossa visão é limitada a um espectro específico de luz; não vemos todas as cores que existem, mas apenas um recorte delas. Essa limitação ao mesmo tempo permite que enxerguemos – porque ver tudo talvez exigisse processamento demais do cérebro, e não nos seria útil – mas também nos limita a uma perspectiva. Outros animais enxergam diferentemente, e o mesmo se dá com a audição, o olfato…

No lado da cultura podemos pensar – e a história nos sugere – que a maneira como as pessoas sentiam a si mesmas não foi sempre igual, por exemplo, tendo variado no tempo. Da mesma forma, na Índia atual, a percepção que cada indivíduo tem de si mesmo ainda ocorre baseado num sistema de castas (o sistema foi revogado oficialmente, mas ainda parece vigorar em termos afetivos). Assim é que os que pertencem à classe mais baixa não se sentem ofendidos ou lesados por serem maltratados (aos nossos olhos) pelos da classe mais alta, porque o sistema de castas dá um sentido para essa atitude, e sentido é compartilhado e mais ou menos aceito pela sociedade como um todo (Benilto Bezerra Jr comenta sobre isso mais ou menos aos 1:20hs do seguinte video: https://www.youtube.com/watch?v=dMY4mYGKxx0).

Essa incidência necessária de condicionantes que ao mesmo tempo que estruturam o olhar o limitam, é mais ou menos o mesmo que Nietzsche propunha com a ideia do perspectivismo necessário de toda vida. Para o filósofo, não podemos olhar as coisas a partir de lugar nenhum; precisamos assumir uma perspectiva, um ponto de partida, e isso implica que toda visão será sempre perspectivística.

Daí então a necessidade da ciência, que se propõe, basicamente, a encontrar conjunções constantes na relação entre duas ou mais variáveis, e testar essa relação, para ver se ela acontece mesmo, tão independentemente quanto possível desses vieses e perspectivas.

2) O científico é o verdadeiro?

Entretanto, a ciência é apenas um método de testagem das teorias que propomos. Basicamente, através do método científico procuramos testar as hipóteses que construímos da realidade; ela não nos dá o poder de ver a realidade em si mesma; continuamos limitados pelo nosso olhar.

Assim, o fato de algo ser cientificamente comprovado NÃO SIGNIFICA QUE ESSE ALGO SEJA “VERDADEIRO”. Significa apenas que ele foi bastante testado, e TALVEZ coincida em grande parte com a realidade. Mas o fato inicial persiste: não temos acesso à realidade última, e não temos como saber se algo é realmente o que nos parece.

Essa impossibilidade de acessar a realidade última nos diz que a ciência é – e será sempre – algo provisório, uma busca constante, com resultados necessariamente instáveis, que podem ser contestados a qualquer momento que novos fatos venham contradizer as teorias aceitas. Certamente a ciência progride – pelo número de fatos que consegue integrar, testar, comparar entre si, etc – mas dificilmente chegaremos um dia a compreender todos os fatos, até porque tudo indica que o mundo não está dado, mas sim que é um devir, um “acontecer”, um processo ainda em andamento.

Por fim, o mais importante: se por um lado não temos acesso à realidade em si, por outro lidamos com essa realidade na prática. Há um descompasso aí: toda nossa ação se passa no real, mas nosso pensamento, não. Consequentemente, priorizamos o real, a prática, e sempre que um fato contradizer uma teoria, é a teoria que deve ser mudada. Ou, dito de outra forma: a prática é a finalidade de qualquer teoria; é ela quem nos diz se uma teoria serve ou não serve. Não importa quão bela ou coerente pareça ser uma teoria, se ela não se ajusta aos fatos da prática, ela não serve. Simples assim.

3) Conceitos operativos.

Já vimos que não acessamos a realidade diretamente, e também que a ciência, por isso, é um processo contínuo, com resultados sempre provisórios. Os resultados, a prática, são os senhores nesse campo, e qualquer teoria deve ser julgada por eles. Mas existem conceitos que, mesmo não podendo ser contrastados com a realidade, ajudam outros conceitos, dando-lhes apoio ou permitindo dar sentido a afirmações aparentemente contraditórias. Assim são os conceitos de “gravidade”, “vida” e “átomo”, por exemplo. Pode parecer surpreendente, mas não sabemos o que esses conceitos designam, exatamente. Apesar de serem de uso cotidiano, ainda são um mistério, e não sabemos nem se eles designam uma “realidade”.

Vemos, por exemplo, que os objetos caem; dizemos: “é a gravidade”. Mas aonde está a gravidade aí? Nós vemos “algo” que seria a gravidade “puxando” os objetos, movendo-os? Não. Tanto é assim que o conceito assumiu várias configurações diferentes ao longo da história, e se hoje podemos explicar diversos fenômenos com sua ajuda, nem por isso a busca por sua “realidade” foi encerrada (veja-se por exemplo aqui https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2017/07/entenda-nova-teoria-da-gravidade-que-desbanca-einstein-e-newton.html e aqui https://www.epochtimes.com.br/fisico-propoe-nova-teoria-da-gravidade-a-gravidade-nao-existe/).

Vou chamar esses conceitos de “operativos”, porque eles permitem explicar uma série de fenômenos mesmo que não tenhamos ainda uma comprovação de sua existência. Eles nos ajudam a avançar, em suma, embora sejam, em si mesmos, questionáveis ou não tão bem fundamentados.

4) A psicologia

Como é óbvio, no campo da psicologia também não temos acesso direto à realidade “em si”; apesar de vivermos nossa psicologia em “primeira mão”, ainda assim encontramos aqui o mesmo abismo entre a realidade que podemos viver na prática e as ideias ou teorias que conseguimos produzir sobre essa realidade. Então, lançamos mão de diversas teorias para tentar entender os fenômenos desse campo, ou para alcançar os resultados que desejamos. Aqui, o caráter provisório da ciência parece ser ainda mais exacerbado, por duas razões, creio:

a) porque é uma das ciências mais novas, tendo apenas pouco mais de 100 anos de idade; e

b) porque é uma ciência complexa, dado que o ser humano é o resultado, como falamos no início, de uma série de condicionantes (biológicas, fisiológicas, sociológicas, linguísticas, culturais, etc), e a psicologia, a princípio, deveria ser capaz de explicar o humano no entrecruzamento de todos esses vetores.

5) A psicanálise

A psicanálise é uma das teorias dentro da psicologia, que se propõe a explicar o comportamento humano baseado em alguns conceitos próprios. Existem dezenas de “linhas” dentro da psicanálise, cada uma com conceitos e práticas próprias, mas todas compartilham, mais ou menos, os conceitos de inconsciente, do infantil e seu peso para a vida adulta e do comportamento como resultado dinâmico de uma série de componentes da psique.

Alguns desses conceitos já encontraram comprovação científica. Repetindo o que dissemos no início do texto, isso não quer dizer que esses conceitos sejam “a” realidade. Eles apenas descrevem aspectos dessa realidade e parecem não ser contraditos pelos fenômenos – até agora. Sua utilização depende, como toda teoria, de sua capacidade de fazer predições e/ou de explicar os fenômenos, e principalmente de alcançar resultados na realidade (alterações na personalidade, melhora em quadros de sofrimento, etc). Uma boa discussão sobre a psicanálise & a ciência pode ser encontrado no seguinte artigo, de Dunker: https://blogdaboitempo.com.br/2017/05/30/a-psicanalise-como-ciencia/[1]

Dentre os exemplos de pesquisas que comprovam alguns conceitos utilizados pela psicanálise, podemos citar a existência de funcionamentos inconscientes (o que aparece muito claramente na obra do neurocientista Antônio Damásio, por exemplo [2]), a existência do mecanismo da chamada conversão histérica [3], o peso das memórias (i.é, do passado) para explicar o comportamento presente (também muito claramente exposto por Damásio), o peso das associações que ocorrem entre memórias e percepções como fatores que influenciam o comportamento presente (cf., também, Damásio, Pavlov, Watson e o comportamentalismo, etc), entre outras também vinculadas no artigo da nota 01.

6) O inconsciente

Eis um conceito complexo. Como deve ter ficado claro, trata-se de um conceito, isto é, de uma tentativa de definir um funcionamento mental – não se trata da realidade. Freud apenas tentou dar coerência aos fenômenos que ele percebia na clínica, e para isso foi levado a utilizar esse conceito de ‘inconsciente’.

A ideia básica é que para além daquilo que percebemos conscientemente, existe um funcionamento “inconsciente” que, entretanto, produz resultado, isto é, influencia o comportamento consciente mesmo que não percebamos seu influxo.

Para além desse inconsciente descritivo – isto é, o inconsciente como apenas o “não-consciente” -, a psicanálise propõe que existam regras de funcionamento nesse inconsciente (o inconsciente como “sistema”) e que exista uma dinâmica entre forças que são tanto inconscientes quanto conscientes (o inconsciente como “dinâmica”). O inconsciente que até agora encontrou comprovação – pelo menos até onde sei – foi apenas o descritivo, sendo os demais mantidos, em psicanálise, pelo seu valor operativo (ver acima).

Posturas como a do neurocientista Ivan Izquierdo, que comentou, em entrevista recente, que “Hoje a pessoa vai me falar em inconsciente? Onde fica? Sou cientista, não posso acreditar em algo só porque é interessante” [4], simplesmente não fazem sentido do ponto de vista da psicanálise, porque o inconsciente tem a incômoda característica de ser… inconsciente, isto é, não perceptível pela consciência…

Falando sério, o conceito é complicado e existe razão para a desconfiança do neurocientista, já que o inconsciente, a rigor, só se mostraria indiretamente, e teria que ser inferido a partir de indícios que comportam, em si mesmo, outras interpretações. Pra piorar as coisas, o conceito de inconsciente ganha importância basicamente na clínica, aonde o critério de validação está muito mais ligado à produtividade do que à veracidade. Por exemplo, se interpreto para um paciente que sua fala me fez lembrar de uma história que ele contou, ligada à sua infância, não importa tanto se o sentido real da história era esse, mas sim o que essa interpretação vai produzir para o paciente – se ele vai lembrar de outras coisas, talvez falar de algo que não tinha falado ainda, ou vislumbrar um sentido, ter um “insight”, etc.

Resumindo então, diria, baseado na discussão acima, que o conceito de inconsciente nos sentidos sistêmico e dinâmico é um conceito operativo; até onde eu sei, ele não obteve ainda comprovação científica, mas permanece em uso pelo seu valor heurístico. Desconsiderá-lo apenas porque ainda não foi comprovado é um pouco ‘anti-científico’ na medida em que, como argumentamos, diversos conceitos compartilham esse estatuto e, enquanto não forem contraditos pelos fatos, podem permanecer em uso. Considere entretanto que contraditar um conceito tão ‘impalpável’ quanto o de inconsciente não é tarefa fácil. Mas – de novo – isso também não é razão suficiente para não excluí-lo absolutamente.

7) O infantil

Entendo por “infantil” toda uma valorização, que ocorre na psicanálise, do passado, especialmente o passado infantil, tal como foi vivido pelo sujeito. Existem diversas linhas e entendimentos do que seria importante nesse infantil, mas ninguém duvida, hoje, do peso que as experiências infantis têm na vida adulta.

Basicamente, a ideia é que existem fases necessárias de desenvolvimento emocional pelas quais o ser humano precisa passar para chegar a ser um adulto saudável [5]. Qualquer problema no desenvolvimento pode dar lugar à doenças psicológicas. Não há consenso sobre em que consistiria esse desenvolvimento; alguns entendem que o desenvolvimento é psicossexual (Freud); outros, que o importante é a incidência da linguagem no sujeito (Lacan); outros, finalmente, que nada disso tem valor se antes não houver uma relação estruturante entre o bebê e seu ambiente de sustentação (Winnicott). Como ponto comum, todos apontam para a importância do outro para a constituição do “si mesmo” (Eu, self, sujeito, etc).

A lógica é mais ou menos a seguinte: vivemos por um tempo no útero de nossa mãe, tendo todas as nossas necessidades supridas instantaneamente pelo mesmo; de repente, nascemos, e passamos a sentir inúmeras coisas para as quais não parecemos preparados: sentimos fome, sede, cansaço, incômodos, e nem sabemos realmente o que essas coisas significam ou como lidar com elas. Nossa única reação é… chorar. E eis que uma mãe ou alguém surge e trata de dar um sentido para nosso desconforto – será fome? Sede? Etc – agindo em conformidade com essa interpretação.

O que a psicanálise propõe é que esse modelo de relação tem um peso imenso em nossa vida adulta. Primeiro, porque deixa explícito que dependemos inteiramente do outro para dar sentido aquilo que acontece conosco, e também para agir em nosso benefício. Segundo, porque nessa fase de dependência aprenderíamos muito sobre como lidar com o mundo. Em outras palavras, estruturaríamos em grande parte nossa relação adulta com o ambiente a partir de nossa relação infantil com ele.

***

Há um estudo famoso de Harlow [6], feito com macacos, aonde o pesquisador construiu “mães” falsas para os bebês-macaco, onde algumas eram feitas de pano confortável e aconchegante ao toque, enquanto outras eram feitas de arame. O que o estudo concluiu é que o contato com a mãe de pano foi estruturante para os futuros macaquinhos, e que a simples presença da “mãe” era uma variável importante na capacidade do bebê macaco de explorar o seu ambiente e de se socializar. A mãe de arame, no entanto, não parece ter tido o mesmo efeito sobre as crias, mesmo quando os bebês eram alimentados por ‘ela’. Ou seja, a pesquisa indicou que a segurança e a sustentação da mãe ‘de pano’ foram fundamentais para o desenvolvimento dos macacos, exatamente como previa a psicanálise na versão winnicottiana. Por outro lado, ela não sustentou a hipótese freudiana de que o amor (ou apego) se desenvolve a partir da gratificação instintual (“apoiada” na alimentação, por exemplo).

Outro estudo lança inquietante luz sobre a relação entre o inato e o adquirido [7]. Nos anos 60, etologistas americanos criaram um chimpanzé fêmea que foi capaz de aprender aproximadamente 350 palavras de uma linguagem de sinais, apresentando diversos indícios de inteligência e criatividade – e, talvez o mais inquietante, de autoconsciência. A chimpanzé, que foi chamada de Washoe, era capaz de combinar gestos de forma criativa, inventando palavras que não conhecia, demonstrava sentimentos que a primeira vista poderíamos pensar ser exclusivamente humanos, como empatia e solidariedade, e quando foi apresentada a outros chimpanzés parece ter vivido um momento de crise de identidade, tamanha sua identificação com os humanos. O estudo merece especial atenção pelo contraste com um segundo experimento (realizado com o chimpanzé Nim Chimpsky) que tentou replicar o sucesso do primeiro, mas falhou por, aparentemente, não ter conseguido sustentar o ambiente afetivo no qual Washoe cresceu.

***

Quando teorias psicanalíticas e não-psicanalíticas se defrontam, é comum que essa valorização da infância (ou do desenvolvimento emocional) esteja no centro do debate. Propostas como a esquizoanálise não dão tanta ênfase ao passado, e portanto interpretam de forma diferente o adoecimento e o desenvolvimento do sujeito. Como mencionamos acima, o ser humano é a provável resultante de diversos vetores que incidem simultaneamente sobre o indivíduo, e creio, por isso, que existem diversos caminhos para se chegar ao mesmo resultado. Considere-se ainda que muitas vezes as próprias definições de ‘adoecimento’ não coincidem, e portanto o confronto fica prejudicado. Por fim, no caso específico da esquizoanálise, entendo que a proposta de “ambiente como sustentação” de Winnicott permite uma aproximação tão rica que realmente me parece um desperdício enfatizar as diferenças entre as duas disciplinas[8].

8) O comportamento como resultante do dinamismo inconsciente

Eis outro conceito complexo. A ideia básica aqui é que toda ação é o resultado de uma certa configuração de forças da psique. Como propunha Freud, parte-se do princípio de um “determinismo psicológico”. Este expressa a premissa de que não existe nada na mente que não tenha uma razão, um sentido, uma determinação, para aparecer.

Como se verá, esse conceito é uma espécie de resultante dos dois conceitos anteriores. Uma porque grande parte das variáveis a determinar um comportamento serão inconscientes; outra, porque, além de inconscientes eles podem ser, também, infantis.

Veja: não se está dizendo que existem apenas e somente determinações inconscientes sobre o comportamento. Se um cientista associa a visão de um animal a um som estridente, é muito provável que uma criança acabe chorando quando vê o animal, porque teme o som associado. [9] O determinismo não atua aí, na associação. O determinismo implica apenas que o choro não é sem razão. Se alguém que não conhecesse o experimento encontrasse a criança e não entendesse o porquê de seu choro, a hipótese do determinismo psíquico apenas diria que existe, provavelmente, uma razão para ele. Ela não diz qual seria essa razão, nem postula que ela deva ser de natureza sexual ou inconsciente, como queria Watson no experimento mencionado. Ela atua apenas como uma espécie de horror vacui na natureza – na verdade, é apenas uma extensão do princípio de que para cada efeito, existe uma causa, princípio que está na base da moderna ciência.

***

9) Concluíndo

Sem dúvida, muitos psicanalistas ultrapassaram o limite do razoável na utilização desse(s) conceito(s). Sente-se na fala de Watson no exemplo acima uma certa indignação com a (suposta) capacidade da psicanálise para explicar tudo, e explicar tudo recorrendo sempre aos mesmos conceitos (pai, mãe, édipo, recalque, etc). Agora: o mau uso que alguns fazem da teoria implica na invalidação dessa teoria? Essa é a questão que se impõe, a meu ver.

O próprio Freud se aventurou em áreas tão diversas quanto antropologia, literatura, biologia, fisiologia, neurologia… pretendendo resolver pela psicanálise mistérios que as ditas ciências não conseguiam resolver por seus próprios meios. Freud errou, e provavelmente errou muito, como atestam algumas das respostas que recebeu. Mas, de novo: isso invalida o método proposto?

Se a psicanálise não tivesse outro mérito do que esse, certamente invalidaria; mas não é o caso. Também existiram ganhos, a clínica permitiu a transformação de muitos pacientes, e comprovações pelo método científico também vieram, como mencionado acima.

O ponto aqui é que não se pretende que tudo na psicanálise esteja correto. A questão é que, até onde eu sei, também não há subsídios para dizer que tudo nela está errado. E, detalhe importante, existem coisas certas o suficiente para seguir avançando. Sobretudo, a clínica continua mostrando seu poder de produzir resultados (veja-se nota 01). Não se trata de obrigar o profissional a adotar essa corrente de pensamento, sobretudo quando parece que a qualidade da relação paciente-terapeuta é uma das maiores variáveis envolvidas no sucesso do tratamento [10]. Há que estar-se bem à vontade para bem atender, portanto… que cada um use aquilo que lhe parecer melhor!

Do ponto de vista da teoria, creio que a questão continua em aberto, e é apenas isso que eu gostaria de “defender” aqui. Quem não se sentir à vontade com a psicanálise, que não a use; mas não se diga que ela é ‘errada’ ou ‘não-provada’ ou ‘absurda’, porque são coisas diferentes. No primeiro caso temos apenas uma questão de gosto pessoal (totalmente válida). No segundo temos um pretenso conhecimento de causa que, repito, até onde eu sei, não se sustenta.

**********************

NOTAS

[1] Vale a pena ler as notas deste texto. Aliás, aqui vai uma observação minha: aparentemente, cada perspectiva psicológica se comporta de forma auto-validadora, isto é, dentro de cada linha, as pessoas parecem selecionar apenas aquilo que valida sua postura. Daí ser fundamental ‘sair de seu ninho’ e procurar conhecer as outras perspectivas desde seus pontos de vista. Isso vale também para a psicanálise, claro, e é uma das dificuldades em se tentar fazer um trabalho sério e transdisciplinar em favor do paciente. Poucos são os estudiosos que se dão ao trabalho de conhecer bem aquilo que criticam; mas quê outro tipo de crítica seria valiosa senão essa? Interesse ou desinteresse pessoal não fundamentam críticas (embora possam fundamentar posturas pessoais).

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/António_Damásio

[3] https://rcristo.com.br/2014/02/22/neurocientistas-confirmam-que-partes-da-teoria-de-freud-estao-corretas/

[4] http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/06/1783036-estudos-de-neurociencia-superaram-a-psicanalise-diz-pesquisador-brasileiro.shtml

[5] A saúde será definida como a capacidade de mudar, de transformar-se, de utilizar defesas variadas, de ser criativo e espontâneo; a doença, por outro lado, implicaria uma parada nesse processo, uma incapacidade de mudança, uma rigidez defensiva, um modo de relação mais estereotipado com as coisas.

[6] http://psicologiaexperimental.blogs.sapo.pt/1627.html

[7] https://es.wikipedia.org/wiki/Washoe_(chimpanc%C3%A9)

[8] Para Winnicott o ambiente social seria um desenvolvimento do ambiente tal como vivido pela criança e seus cuidadores. Obviamente esse último também é influenciado pelo ambiente social e político, numa espécie de interpenetração. Aos olhos do psicanalista, entretanto, essa interpenetração depende do ritmo e das necessidades da criança, que não pode se adaptar ‘ad infinitum’ às exigências do social. Não existiria social sem a sustentação materna, como sugere o estudo da nota 06. Por outro lado, Winnicott insiste na importância da RELAÇÃO entre o sujeito e o ambiente; ou seja, o principal não estaria nem no ambiente (no social) nem no sujeito, mas na relação entre eles, o que, a meu ver, aproxima essa concepção da concepção política das teorias esquizoanalíticas. Veja-se que o conceito de ‘ambiente’ de Winnicott não se resume à mãe – que é apenas uma das pessoas que pode exercer a função de ambiente. O analista quando escuta seu paciente pode estar exercendo a função de ‘mãe’, para Winnicott, mesmo que diga que “não vê mãe nenhuma” no caso em atendimento.

[9] Conforme o exemplo nº 01 desse site: http://insight-psicoterapias.com/2016/01/24/10-experimentos-famosos-da-psicologia/

[10] Há menção disso no texto da nota [01], e também nesse post: https://euemtorno.wordpress.com/2017/11/09/pesquisas-sobre-o-que-e-efetivo-nas-terapias-carl-rogers/

Uma resposta para “Psicanálise & ciência – refutação e gostos pessoais

  1. Pingback: A Questão central entre esquizoanálise e psicanálise – e um resumo de Mil Platôs | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s