Psicanálise: uma visão pragmática

freud

Terminando a biografia de Peter Gay sobre Freud, lembrei da frase que Paulo César de Souza utiliza em seu livro “As palavras de Freud”: “a fama consiste na soma dos mal-entendidos sobre uma pessoa” (Souza, 2010, pg 23)[1]. E isso me fez pensar.

 

Sou um “ex-crítico” da psicanálise, daqueles de carteirinha; na verdade, permaneço crítico, mas agora do lado de dentro, como psicanalista. Conheço bem a dispersão das teorias psicanalíticas, as contradições que elas encerram, os erros flagrantes que foram trazidos à luz.

 

Relendo, então, essa biografia inteira, conhecendo o homem Freud por trás do mito – como não pensar, pragmaticamente, que toda a psicanálise pode ter sido – um erro?

 

***

 

Os ‘tropeços’ da psicanálise são vários. Um erro famoso de Freud por exemplo ocorreu em torno da tradução de um termo utilizado por Leonardo da Vinci. A análise que Freud faz se baseia quase toda em cima dessa tradução, que se mostrou, afinal, equivocada [2].

 

Outro ponto muito discutido é a incursão psicanalítica sobre a antropologia que Freud realizou em Totem e Tabu, com a qual a imensa maioria dos antropólogos não dialoga – pra nem falar em concordância!

 

Se pegarmos as divisões internas da teoria então… o que dizer da supervalorização da linguagem dos lacanianos – que a colocaria como constituinte do sujeito -, frente à valorização de aspectos que seriam anteriores à linguagem, como a relação com os objetos, principalmente na psicanálise de linhagem inglesa? Da onipresença do pai em alguns grupos, diante da onipresença da mãe em outros? Difícil dizer que estamos falando da mesma disciplina.

 

E no entanto, estamos. O que une gregos e troianos, espartanos e atenienses, nessa salada russa onde tudo se mistura, cheia de conceitos “fundamentais” que, no entanto, primam pela ausência na escola ao lado – o que une tudo isso, repito, senão a clínica? E por clínica quero dizer, basicamente, resultados, mudança para melhor, ganhos terapêuticos, saúde.

 

Sim, Freud pode ter errado em tudo, mas acertou na clínica. Por mais que seus métodos fossem equivocados, ele acertou ao criar a clínica como campo de experimentação. Na verdade, acho difícil considerar o sucesso da psicanálise sem levar em conta a qualidade e a fertilidade do Freud escritor, como nota aliás Mezan (2014, pg 230)[3]. Freud foi, sim, um grande pensador, o inventor de um campo novo da ciência e da psicologia, mas nada disso teria prosperado sem o Freud motivador, o Freud das incursões erradas e erráticas, o Freud que atacou a literatura, a biologia, a antropologia, a história, os mitos, a psiquiatria, a psicologia social, sempre procurando enraizar sua mensagem do inconsciente.

 

Freud motivou. O personagem Freud, o velho sábio, de olhar sisudo, soube enraizar-se, para além de sua qualidade teórica e da inventividade de seus conceitos, pela disposição de batalha, pela vontade inquebrantável de não ser necessariamente respeitável – embora continuasse pela vida toda como um burguês médio. Freud sempre viu a si mesmo na oposição, e soube colocar-se na oposição com consistência.

 

Seus teoremas, seus casos clínicos, mesmo que hoje pareçam errados foram suficientes para empolgar uma legião de admiradores, que então continuaram seu impulso inicial, reformulado a teoria e ampliando a gama de atividades que a escuta clínica poderia abarcar. Freud convenceu enquanto busca; não importa (ou não deveria importar tanto) Freud e seus resultados[4].

 

Freud pode ter estado errado, sim; mas foi um erro grande o suficiente para se perpetuar e, eventualmente, se transformar em acerto[5].

 

***************

 

NOTAS

[1] Souza, Paulo Cezar. (2010). As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e suas versões. São Paulo, Companhia das Letras, 2010.

[2] http://rascunho.com.br/trajetorias-ditosas-de-erros-de-traducao/

[3] Mezan, Renato. (2014). O tronco e os ramos: estudos de história da psicanálise. São Paulo, Companhia das Letras

[4] Claro que, numa perspectiva científica, os resultados de Freud importam; o que quero dizer é que eles não deveriam ser tudo. Na ciência, existem hipóteses que podem  ser mantidas não porque se mostraram corretas, mas porque se mostraram produtivas – permitem ultrapassar um obstáculo até então intransponível. Obviamente, quando se prova a inadequação da hipótese, ela deve dar lugar à outras hipóteses. Nesse aspecto, a posteridade psicanalítica se encontra em aberta dívida com seu fundador. A meu ver, Freud permitiu-se lançar em um terreno totalmente desconhecido porque acreditava na capacidade do método científico de separar o joio do trigo – e não porque descurava da mesma.

[5] Obviamente, o que deve ser seguido em Freud é sua disposição em tentar, sua busca, sua recusa em aceitar resultados ruins. Mesmo que suas propostas não tenham se mostrado corretas – e algumas continuam de pé, deve-se dizer – , seu impulso é que deveria ser seguido, não seu conteúdo. Infelizmente a história da psicanálise é cheia de seguidores interessados mais no ‘mito Freud – no “pai” Freud – do que no seu exemplo de pesquizador. Porque sim, há um Freud sério e humilde diante da complexidade da realidade! Freud também era complexo; e uma das mais pobres maneiras de atacá-lo é simplificando-o demais, seja taxando-o de absolutamente desonesto, seja idolatrando-o como absolutamente genial. Freud é um mixto, uma mistura de gênio e de louco, e considero um ponto forte no “tempero” dessa mistura o ter sabido colocar um “talvez” antes de muitas de suas hipóteses mais ousadas. Mas quem ouve um “talvez”?

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