Somos ainda muito determinados pelo nosso corpo

William+Blake+-+Nebuchadnezzar+

“O modo de agir é ser”. Essa frase, tão atual,  foi pronunciada a mais de 2.500 anos atrás por Lao Tsé.

 

Gostamos de pensar – é uma das leituras hegemônicas de nosso tempo – que uma coisa que nos caracteriza é a preocupação com o “Eu”, a individualização do sujeito, algo que não existiria em outras épocas, ou existiria de forma muito diferente.

 

Entretanto, vem Lao Tsé e larga uma frase dessas, intimamente vinculada ao “Eu”, ao “ser”, como se dissesse: “o melhor modo de agir  para você é aquele em que seu ‘ser’ pode se expressar por inteiro”; ou “sua ação deve espelhar quem você é”; enfim, uma preocupação com o “ser” – e com o verdadeiro ser – que a primeira vista pensaríamos não existir numa época supostamente tão pouco individualista.

 

Outra frase que dá o que pensar é a seguinte, de Ovídio: “viver bem é esconder-se bem”, ou algo parecido (Bene vixit qui bene latuit“. Tradução: “Vive bem quem vive despercebido”), frase que, aliás, Descartes teria usado em sua lápide. Assim como no caso de Lao Tse, a frase evoca uma valorização da intimidade, ou uma contraposição entre o “eu” e a sociedade, que não imaginaríamos existir na Roma antiga, ou no séx XV.

 

***

 

Como disse acima, existe hoje toda uma valorização dos condicionantes históricos, políticos, econômicos, que certamente tem sua razão de ser, porque nos põem em alerta quanto à transpôr nosso modo de pensar e viver para outros tempos, como se houvesse uma continuidade simples entre nós e eles. Mudam os valores, as crenças, o horizonte cultural… existe muita descontinuidade, em suma.

 

Entretanto, analisando as frases acima, podemos pensar que existem também continuidades: o questionamento do homem quanto ao melhor modo de agir deve ser uma questão tão antiga quanto a sociedade ou a consciência, assim como a percepção de que muitas vezes passar desapercebido é um ganho, porque a sociedade nem sempre é justa ou equânime com quem se destaca demais.

 

No fundo, somos muito parecidos com nossos antepassados; mudam algumas variáveis, algumas circunstâncias, alguns contextos, mas todos eles gravitam em torno de um mesmo “homem”, que biologicamente (e até psicologicamente) não deve ter sido tão diferente de nós. As questões humanas, as grandes questões da existência, estão conosco a muitos milênios, e provavelmente continuarão conosco ainda por muito tempo.

 

Somos ainda determinados enormemente pela nossa biologia, pelo nosso corpo – a psicologia é apenas a expressão mais “etérea” dessa determinação – e ainda bem; porque a julgar pelas loucuras que podemos conceber com nosso ‘intelecto’, se não estivéssemos firmemente presos ao ‘chão’, já teríamos nos extinguido faz tempo!

 

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