Técnica, religião e psiquê

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Quando nos transportamos para as sociedades ditas ‘primitivas’, ou para os primórdios de nossa própria civilização, vemos que a religião tinha uma importância muito grande para a sociedade. Se tentarmos generalizar essa importância, podemos dizer que através da religião o homem encontrava significado para aquilo que ele não dominava.

 

O homem sempre se relacionou com coisas que estão além de seu domínio; a morte é apenas o exemplo mais destacado, mas, naqueles tempos idos, com certeza o âmbito do “não controlado”, do “desconhecido” – ou do “imponderável” –  era imenso. E para tudo isso a religião propiciava um sentido. E um sentido era uma primeira forma de domínio.

 

Vemos isso até hoje. Provavelmente trata-se da expressão de algo muito básico no ser humano. O primeiro passo para controlar algo é nomeá-lo, percebê-lo, recortá-lo do todo da realidade e apreendê-lo como algo separado. Essa nova “coisa” é então posta em relação com as outras coisas humanas, com os outros sentidos humanos. E esses sentidos eram, em sua maioria, religiosos. Diria que, numa forma muito resumida, a religião é esse processo mesmo de criação, de inserção, de sentidos naquilo que até então é incompreensível, incontrolável, que está para ‘além’ do humano.

 

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Ao ser posto em relação com outros sentidos, cada nova “coisa” pode levar a novas descobertas, novos costumes, diferentes formas de vida. Assim, por exemplo, a questão da fecundação: por muitos milhares de anos ela provavelmente não foi nem percebida como algo independente, separado do processo da gravidez em si. As mulheres simplesmente apareciam grávidas, e isso bastava. Entretanto, em algum momento, começou-se a pensar que essa gravidez tinha um início, e esse início – a fecundação – foi atribuída aos mais diversos seres. Marie-Louise Von Franz relata que ainda hoje o aborígene australiano acredita que os espíritos dos deuses ancestrais vivem em certas pedras, e que se uma mulher passar perto de uma delas, conceberá, o mesmo valendo para os antigos germânicos [1]. Muitos séculos se passaram para que hoje tenhamos uma relação muito mais ‘técnica’ com a fecundação, que pode inclusive ser feita em laboratório. Toda uma nova concepção de homem, de mulher, todo um mundo de técnicas se interpôs entre nós e eles para que hoje a questão da gravidez esteja, ao menos em termos técnicos, completamente ‘resolvida’ – ou quase.

 

Não dependemos mais do humor dos deuses, de pedras ancestrais ou do movimento das estrelas, quando resolvemos ter um filho. Nisso estamos indubitavelmente melhor do que outros povos. Resolvemos a questão técnica, a tecnologia envolvida nesse processo – e em muitos outros – de forma que, hoje, a questão passa a ser meramente pessoal. “Eu estou pronto para ter um filho? Eu quero ter um filho?” São questões que substituem as questões antigas, provavelmente relativas à seres totalmente alheios às nossas questões.

 

Entretanto, esse resquício de questão ainda pode nos atormentar – e nos atormenta. Pois com o imenso avanço que alcançamos no aspecto técnico da vida, desaprendemos a conviver com aquele ‘resto’ que sobrou de imponderável. Desaprendemos a dar sentido ao que não controlamos, isto é, desaprendemos – a religião. E com isso, sentimos imensa dificuldade em responder questões que não comportam resposta “material”, como “qual o sentido da vida”, ou “porque estou aqui?”. (aliás, duvido fortemente que uma resposta puramente materialista seja suficiente nesses casos; será que alguém se sentiria bem apenas por saber que sua vida é uma função do átomo ou algo assim?)

 

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Historicamente, foi preciso erradicar o pensamento religioso para conseguir fazer a sociedade avançar materialmente. Em vez de esperarmos o favor divino para nos trazer chuva, comida ou abrigo, aprendemos a cultivar o solo, a levar água, a construir, das formas mais diversas. Avançamos na técnica. A técnica nos deu poder onde antes tínhamos apenas sentidos, e isso trouxe inegáveis avanços. Entretanto, é razoável questionar se o avanço materialista poderá um dia resolver tudo.

 

Como psicólogo, entendo que a experiência religiosa tem raízes na relação de intensa completude que a cria humana vive com a mãe em seus primeiros dias. Usando uma imagem de Erich Neumann, no primeiro ano de vida a criança humana é tão dependente do meio que é como se ela vivesse uma continuação da vida intra uterina fora da mãe. Isto é, a mãe e seus cuidados atuam como um segundo “útero” para a criança [2].

 

Esse período de dependência absoluta, como diz Winnicott, seria necessário justamente para que a criança apreendesse o seu ambiente, introjetasse o seu ambiente, e pudesse, assim, ter um ambiente “em reserva”, uma memória do cuidado que ela recebeu quando criança, uma lembrança da comunhão que ela vivia com um outro (a mãe) quando nasceu.

 

Essa comunhão com a mãe é o que dá sentido para a vida do bebê. Ele não se pergunta porque nasceu, mas se perguntasse é possível que a visão do desejo da mãe por ele respondesse suficientemente seu anseio. Nesse sentido, a religião apenas retoma essa imagem de completude, de comunhão completa do homem com o seu entorno, transpondo entretanto o ambiente infantil – composto quase que só pela mãe – para um ambiente adulto.

 

Em outras palavras, buscamos, através da religião, aquele encontro, aquele conforto, aquele contato que encontramos nas primeiras semanas de vida, aquele “ser um” com o ‘outro’ que ficou registrado lá no fundo de nossa experiência. Esse talvez seja o sentido da religião: ela se esforça por reencontrar, na vida adulta, o mesmo amor que existiu na infância.

 

***

 

Hoje, com o avanço do lado ‘materialista’, parece cada vez mais claro que ganhamos muitas coisas, mas perdemos outras tantas. Se isso parece exagero eu convido o leitor a sair às ruas de sua cidade, especialmente nas grandes cidades. Creio ver claramente que algo parece não funcionar. Há uma busca frenética por prazer – e culpados – por toda parte; e um cansaço, um cansaço resignado, que… Pode-se argumentar que justamente isso o cristianismo NÃO resolveu enquanto atuou em nossa sociedade, e eu concordaria sem problemas. Mas a religiosidade não se reduz ao cristianismo. Inclusive a religiosidade não precisa nem ser uma ‘religião’: poder ser uma filosofia, uma ética, uma política ou até uma psicologia – basta que ajude a dar sentido às coisas.

 

Esse é o ponto em que eu queria chegar – o lugar, a demanda, que a religião preenchia, continua existindo. O homem ainda se relaciona com o imponderável, e ainda precisa de boas razões para ter esperança, quando se lança no vazio. Essas razões não serão nunca puramente “mecânicas”; não há, e talvez não haverá nunca razões mecânicas suficientes para as questões existenciais do homem. Ele sempre precisará de uma ‘filosofia’, uma ética ou uma religião que lhe apoiem justamente ali aonde não há dados suficientes para o agir. “Ter um filho ou não” não comporta resposta lógica; não é na lógica da questão que estamos preocupados quando pensamos seriamente se devemos ter um filho, ou procurar um emprego que nos realize, ou se investimos num casamento ou abrimos uma empresa. Para além do lado “técnico”, há sempre uma questão existencial junto, ou seja, aquela busca pelo encontro, pelo sentido, continua existindo. E o que nos dará isso?

 

Parece claro que hoje vivemos uma espécie de dissociação social. Todos temos vergonha da religião, pelo resultados dúbios que o cristianismo alcançou e sobretudo pela forma com que se impôs historicamente. Mas muitos tem, ainda assim, alguma religião, alguma narrativa que ajuda quando é necessário encontrar sentido. Sejam as religiões tradicionais, sejam as religiões orientais, seja a ciência, o prazer, o consumismo ou o fanatismo por figuras, bandas, filosofias, etc – tudo isso são religiões que não se confessam como tais. Com o declínio do cristianismo estão então abertas as portas para novos tipos de religiosidade, e talvez tenhamos que reaprender a nos relacionar com elas – e com o irracional que toda religião sempre incluiu. Parece claro o lugar – e o perigo – que ronda toda psicologia.

 

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Notas:

[1] Marie-Louise Von Franz , “O caminho dos sonhos”, pg 36 da versão digital. São Paulo, SP: Ed Cultrix

[2] Erich Neumann, “A criança – Estrutura e dinâmica da personalidade em Desenvolvimento”. São Paulo, SP: Ed Cultrix.

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