Argumento & paixão

argumentar

 

Por um bom tempo de minha vida fui de esquerda. Acreditei em seus ideais, em suas críticas, em suas promessas. Depois isso passou, e passei a me ver mais no centro, menos nos extremos. Cheguei quase a me considerar de direita. Enfim, o tempo passou, e agora sinto-me prestes a mudar de novo.

 

Esses posicionamentos políticos sempre se fizeram acompanhar das ideias correspondentes, de forma que a um observador externo talvez parecesse que eu mudei porque FUI CONVENCIDO a mudar. Talvez um argumento aqui, uma ideia ali, e – pronto! – mudei meu lugar no grande teatro do poder.

 

Mas não. Analisando friamente, percebo com clareza que meu posicionamento sempre foi primeiramente e principalmente EMOCIONAL, e depois, num segundo momento, intelectual. As ideias simplesmente acompanharam a emoção, como se essa fosse uma espécie de feixe de luz a iluminar ora esse espectro, ora aquele, no grande jardim de ideias que trazemos na mente.

 

***

 

Isso me lembra de um trecho de Carl Rogers em que ele, solicitado por alguns professores para fazer uma fala sobre educação, disse muito claramente que àquela altura da vida – já era um homem velho – achava que ninguém  podia ensinara nada a outrem; que só aprendemos por nós mesmos, quando queremos aprender. Imagino o que foi a discussão que se seguiu… mas creio que ele tem razão.

 

Comigo, pelo menos, sempre foi assim. Lógico que aprendi alguma coisa com meus professores na escola; mas guardei disso tão pouco… creio que aprendi porque queria ser um ‘bom menino’ – ou seja, até aí eu fui implicado nisso. Diferente foi aquilo em que me senti IMPELIDO a aprender, aquilo que desejei, que me vi implicado… isso sempre me moveu mais, e mais livremente.

 

Chego então à questão: se é assim que as coisas são, POR QUE, afinal, argumentamos? PARA QUÊ? PARA QUEM? Se no fundo todos vão aprender somente o que querem, e só vão mudar de posição quando quiserem… para que discutir, escrever, conversar?

 

***

 

Certamente, não argumentamos para convencer ninguém. Creio realmente que as coisas são como são, e não temos esse poder, simplesmente não temos a capacidade de mudar os outros. No máximo nossas palavras são como o vento que pode atiçar um fogo já iniciado, mas dificilmente elas iniciariam labaredas no peito de alguém (certamente não por suas razões; já por seu ritmo, imagens e beleza…).

 

Também não escrevemos para nos convencer a nós mesmos, embora às vezes seja um bom exercício tentar ver até aonde podemos transcrever – isto é, traduzir – em palavras aquilo que nos passa na cabeça. Talvez cedo percebamos que não sabemos exatamente porque pensamos o que pensamos ou fazemos o que fazemos. E bem… simplesmente seguimos a vida. É assim que é.

 

Finalmente, não creio que argumentemos para provar nada. Qualquer ciência que se baseie apenas em provas lógicas ou argumentativas – como infelizmente grande parte da psicanálise insiste em fazer – cedo ou tarde vai se ver passada para trás. Muitas vezes não é nem necessário REFUTAR seus argumentos; as pessoas simplesmente não olham mais para eles. O cristianismo é um exemplo histórico: ele não foi, propriamente, refutado, mas sim deixado de lado. Não nos interessa mais. E ponto.

 

***

 

Porque escrever, então? Para quem argumentar? Creio que escrevemos, primeiro, como uma forma de exercício, de brincadeira, de arte. Escrever / argumentar deveria sempre ser visto como o dançar ou como a pintura; chega a ser estranho perceber o tanto que hoje usamos a linguagem com pretensões de ‘verdade’. Jornais nos informam a todo momento o que ‘acontece’, revistas e programas de rádio / tv comentam os assuntos mais ‘quentes’, e todos somos convidados a ver nisso uma descrição ‘verdadeira’ das coisas. Será mesmo?

 

Analisando bem, creio ver nisso uma espécie de ‘poesia ruim’, uma moda ou fetiche que talvez nos caracterizará no futuro, quando olharem para o distante ‘século XX’ e notarem que todo mundo pretendia falar “a verdade, somente a verdade”. Que tédio!

 

Argumentamos também para comunicar aonde estamos. No fundo, queremos ser encontrados, queremos encontrar outros, iguais a nós. Como nos reconheceríamos, se não fosse por ideias semelhantes, pontos de vista semelhantes? Argumentamos, então, para dizer aos outros: “ei, veja, EU sou assim”. Por isso causa tanta estranheza ver as pessoas falando como se dissessem: “ei, vejam: AS COISAS são assim”.

 

As vezes argumentamos também para dar nomes às coisas, para descrever coisas que sabemos que estão acontecendo – ou pelo menos nos fiamos nisso – , mas as pessoas envolvidas não estão percebendo. É apenas mais uma maneira de nos comunicarmos, no fim, mas que envolve um certo ‘descobrimento’ das pessoas com relação aos seus próprios sentimentos. As pessoas se descobrem parecidas em algo que nem elas mesmas percebiam.

 

Por fim, argumentamos não para provar, mas para expor nossos argumentos, tentando traduzi-los para a palavra, de forma que seja mais uma via de acesso – entre outras – àquela ideia que tentamos passar ou justificar. Ainda, portanto, uma forma de comunicação.

 

***

 

Assim, escrever, argumentar, se resume a um tipo de arte e de comunicação. Nada mais – e nada menos.

2 Respostas para “Argumento & paixão

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