Carl Rogers e a terapia

carl-rogers-openclipart-victorborges

“O paradoxal é que só quando consigo

me aceitar como sou,

posso mudar”

Carl Rogers

Ha um tempo atrás tentei descrever o que era uma terapia do ponto de vista do paciente. Agora encontrei, num texto de Rogers, uma descrição esquemática da mesma questão. Basicamente, Rogers encara a terapia como uma mudança em direção à uma maior maleabilidade emocional, uma capacidade aumentada de viver a própria vida como transformação contínua no presente. A continuidade entre essas proposições e aquelas estabelecidas por Freud, Nietzsche, Bergson ou mesmo Deleuse são evidentes.

Daí porque, no meu modo de entender, a psicanálise pode ser entendida como algo salutar, afirmativo, uma ferramenta de expansão da potência vital, da alegria de viver, da saúde, etc. É claro que existem USOS ruins da psicanálise, mas isso não deve ser confundido com A psicanálise em si. Da mesma forma existem aqueles que transformam Deleuse em um dogma… tudo está no uso.

***

Resumi os pontos de Rogers como segue:

1) a terapia produz uma maleabilidade crescente de sentimentos.

(no início há geralmente uma descrição dos sentimentos como algo do passado, que se viveu em um tempo X; logo, eles são impessoais e não -presentes; no final do processo eles se tornam algo presente e caracterizam o que o indivíduo É)

2) Há uma transformação das formas de vivenciar

(No início há fixidez, a vivência está longe, num passado rígido – e as vezes negado, sendo o presente interpretado em função desse passado; no fim do processo a experiência presente torna-se um ponto de referência aceito, e o indivídu ovive plenamente e se aceita como processo fluído de experiências)

3) Passa-se da incongruência à congruência:

(Rogers entende “congruência” como aquela situação aonde os sentimentos são percebidos em termos conscientes, e podem também ser verbalizados, comunicados, havendo assim ‘congruência’ entre sentimento, percepção e expressão / vivência. “Incongruência” seria sentir uma coisa e dizer outra, ou ainda não perceber o que se está sentindo, recusar o sentimento, atribuí-lo à outros (projetar), etc)

4) Muda a maneira e a capacidade de comunicar-se

(No início o sujeito tende a negar os próprios sentimentos, então também não quer / não pode comunicá-los; daí sentir o outro como uma ameaça. No final ele se aceita e se afirma como é, e a comunicação será decorrência disso)

5) Mudam os mapas cognitivos da experiência

(passasse de uma experiência rígida e determinada pelos sentidos do passado para uma experiência fluída, que muda com as mudanças no presente do indivíduo)

6) Muda a relação do indivíduo com seus problemas:

(No começo os problemas não são reconhecidos e/ou não há necessidade de mudança; tende a existir negação. Depois do processo, há o reconhecimento dos problemas e principalmente do papel que o indivíduo tem neles. Há uma vontade de se responsabilizar por eles como parte do próprio indivíduo – ele afirma tudo o que é)

7) Mudam as relações

(no início há um evitamento geral de relações mais íntimas, sentidas como ameaçadoras na medida em que os próprios sentimentos são ameaçadores. Depois, tanto as relações quanto os sentimentos são aceitos e buscados, como parte da experiência de “ser”).

***

Esse foi o meu “resumo”. Posto na sequência o trecho final do artigo “A psicoterapia como processo”, pgs 85/86 do livro “Tornar-se Pessoa”, de Rogers, de onde extraí os pontos acima.

Tentei esboçar em traços largos, e de uma maneira provisória, o desenrolar de um processo de modificação da personalidade que ocorre quando um cliente sente que é aceito, bem vindo e compreendido tal qual é. Esse processo engloba várias linhas de força, a princípio separadas, mas que se tomam cada vez mais uma unidade à medida que o processo se desenrola.

Esse processo implica uma maleabilidade crescente de sentimentos. No extremo inferior do contínuo eles são descritos como longínquos, impessoais e não-presentes. Posteriormente são descritos como objetos presentes e em certa medida reivindicados pelo indivíduo. A seguir são expressos como sentimentos pessoais em termos mais próximos da sua experiência imediata. Num grau ainda mais elevado da escala são experimentados e expressos como imediatamente presentes, com um receio decrescente desse processo. Nesse ponto, mesmo os sentimentos que foram anteriormente rejeitados da consciência começam a surgir, são experimentados e cada vez mais reconhecidos pelo indivíduo como seus. No ponto superior do contínuo, no interior do processo da experiência, um incessante fluxo de sentimentos caracteriza daí cm diante o indivíduo.

O processo implica uma transformação das formas de vivenciar. O contínuo começa com uma fixidez na qual o indivíduo está muito afastado da sua vivência e é incapaz de extrair ou de simbolizar a sua significação implícita. A vivência é relegada para o passado, antes dc poder ser compreendida, e o presente é interpretado em termos das significações passadas. O indivíduo passa desse afastamento em relação à sua vivência para o reconhecimento desta mesma vivência como de um processo perturbador que se desenrola dentro dele. A experiência toma-se gradualmente um ponto de referência interior mais aceito, ao qual se pode voltar para obter significações cada vez mais adequadas. Por último, o indivíduo torna-se capaz de viver livremente e de se aceitar num processo fluido de experiências, utilizando-as com segurança como a principal referência para o seu comportamento.

O processo implica a passagem da incongruência à congruência. O contínuo desenrola-se a partir de um máximo de incongruência que é absolutamente desconhecido para o indivíduo, passa através de diferentes fases onde se dá um crescente reconhecimento das contradições e das discrepâncias que existem nele, para terminar numa experiência da incongruência imediatamente presente. de tal maneira que a dissolve. No extremo superior do contínuo nunca se verifica mais do que uma incongruência temporária entre a vivência e a consciência, pois o indivíduo já não tem necessidade de se defender contra os aspectos ameaçadores da sua própria experiência.

O processo implica uma alteração na maneira como o indivíduo é capaz e como deseja comunicar-se num clima receptivo, implicando também uma extensão dessas capacidades. O contínuo vai de uma repugnância rica e mutável da experiência interior que se comunica facilmente quando o indivíduo deseja.

O processo implica uma maleabilidade crescente dos mapas cognitivos da experiência, O cliente passa de uma experiência construída em feririas rígidas, percebidas como fatos externos, para um desenvolvimento elaborado a partir de significações mais fluidas da experiência, recorrendo a construções que se modificam a cada nova experiência.

Há uma alteração no relacionamento do indivíduo com seus problemas. Numa extremidade do contínuo, os problemas não são reconhecidos e não há desejo de mudança. Vai-se depois reconhecendo gradualmente que existem problemas. Num estágio mais adiantado, há o reconhecimento de que o indivíduo contribuiu para esses problemas, que eles não derivam apenas de fontes exteriores. Há um sentido crescente de auto-responsabilidade pelos problemas. Em seguida, há uma vivência de alguns aspectos dos problemas. A pessoa vive seus problemas subjetivamente, sentindo-se responsável pela contribuição que deu no desenvolvimento deles.

Dá-se uma mudança na maneira de estabelecer relações. No início do contínuo evita as relações íntimas que lhe parecem ameaçadoras. Na outra ponta do contínuo, ele vive aberta e livremente na relação com o terapeuta e com os outros, orientan do seu comportamento na relação a partir da sua experiência imediata.

De um modo geral, o processo parte de um ponto de fixidez onde todos os elementos e linhas de força acima descritos são facilmente discerníveis e compreensíveis isoladamente, até o ponto culminante da terapia em que todas essas linhas de força convergem de modo a formar um todo homogêneo. Nas novas vivências imediatas que ocorrem nesses momentos, os sentimentos e os conhecimentos interpenetram-se, o eu está subjetivamente presente na experiência, a vontade é simplesmente a seqüência de um equilíbrio harmonioso na direção organísmica. Assim, à medida que o processo se aproxima desse ponto, a pessoa toma-se uma unidade em movimento, O indivíduo modificou-se, mas o que parece ser mais significativo é o fato de ele ter se tomado um processo integrado de transformação.

Uma resposta para “Carl Rogers e a terapia

  1. Pingback: Religião – religare | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s