Psicanálise primitiva

HOMENS PRIMITIVOS-EVOLUÇÃO

 

Atualização: aqui um vídeo de aproximadamente 1h com a história da espécie humana. Notar especialmente a relação entre a evolução e o ambiente.  https://www.youtube.com/watch?v=P7k83dJ9oZ0

 

*****

 

A espécie homem começou há muito tempo atrás.

A primeira separação  entre primatas e hominídeos provavelmente ocorreu há mais de 25 milhões de anos.[1]

Entre 7 e 4 milhões de anos atrás, já era possível encontrar o australopitecus – um ancestral bastante próximo do homem atual.

Estima-se que o Homo erectus sucedeu o Homo habilis há cerca de 1,5 milhão de anos [3]

Há cerca de 500 mil anos, o uso regular do fogo modificou profundamente a alimentação. [4]

Durante todo esse tempo, o ancestral do homem moderno foi provavelmente um caçador ocasional, também um coletor. Mas a caça de manadas inteiras, implicando organização social, linguagem, reunião de várias famílias, só se desenvolverá a cerca de 40 mil a 10 mil anos atrás. [5]

***

Não está claro, mas é muito provável que essa diferenciação entre homens e primatas foi uma função do meio – mudanças climáticas alteram a vegetação, que se tornou mais rala, com menos árvores, obrigado o primata / homem a andar no chão e a ficar em duas pernas, para ver sobre a vegetação (pasto) – e se defender dos animais maiores. [2]

Parece certo que esse primata já caçava com ferramentas primitivas a coisa de 2 milhões de anos atrás. [6]

É provável que essa mesma mudança climática tenha obrigado a uma mudança na dieta, pois, com menos folhas e frutas, o homem teria dado mais espaço para a caça (a carne). Tendo a carne mais valor nutricional que os vegetais, isso permitiria um aumento, entre outras coisas, do cérebro. Os macacos já são onívoros (comem de tudo, inclusive carne, e caçam).

Primeira conclusão:  a evolução se dá a partir de uma relação homem x meio, e NÃO de uma relação com a “sociedade”. Altera-se o clima: muda a postura do homem. Começam a faltar folhas: ele muda a dieta. Até porque a sociedade, ao que parece, só foi aparecer muito recentemente.

 * * *

Pegando o esquema winnicottiano, a relação homem x ambiente é direta, e acontece entre o homem e o clima, o homem e a vegetação, a caça… É ele como espécie diante da alimentação que consegue dispôr, como animal mesmo. As poucas ferramentas que consegue fazer – o macaco já faz algumas – não lhe dão grande vantagem, e ele vive num nível de sociedade quase zero. Pequenos grupos familiares provavelmente viviam juntos, mas não há vestígios de sociedades – o que implica em algum tipo de comunicação, de alianças, trocas entre as famílias, etc. Não há registros fósseis disso senão bem recentemente).

Macacos também vivem em pequenos grupos. Essa “família” pareceria estar inscrita no gene, ser uma estratégia BIOLÓGICA da evolução. Porque os pequenos macacos também dependem de cuidados da mãe, e nesse sentido “introjetam” os cuidados recebidos e os replicam quando adultos.

Lembro de um estudo em que macacos eram criados por robôs, e, sem o “carinho” real da mãe, cresciam com dificuldades de relação e sexuais. Ou seja, já há uma pequena cultura em desenvolvimento, uma cultura ainda familiar, não social, entre os macacos.

Segunda conclusão: aonde quer que se situe o nascimento do “homem” nessa escala contínua de evolução, o fato é que ele deve ter passado MUITO mais tempo vivendo em bandos, em pequenas famílias, do que em sociedade. O estilo da caça (ferramentas rudimentares; poucos vestígios de grandes caçadas, que implicariam grandes mutirões = sociedades de caça) sugere que A MAIOR PARTE DE NOSSO DESENVOLVIMENTO SE DEU A PARTIR DE PEQUENOS GRUPOS, SEM RELAÇÃO PROPRIAMENTE SOCIAL [7]

 * * *

Os vestígios de grandes caçadas, feitas certamente por grandes grupos de pessoas (muitas famílias reunidas), só se tornam comuns aproximadamente no paleolítico superior, ou seja, ENTRE 50 E 10 MIL ANOS atrás. O que implica que ficamos algo como (no mínimo) 2 milhões de anos vivendo apenas em grupos familiares, e somente nos últimos 50 mil anos começamos a viver em agrupamentos maiores. (detalhe: o homo sapiens sapiens, nossa espécie atual, surgiu a coisa de 200 mil anos atrás; mas não somos tão diferentes dos anteriores)

Terceira conclusão: Saliento isso porque a vida em pequenos grupos familiares NÃO PERMITE UMA GRANDE TROCA CULTURAL; implica em pequenos desenvolvimentos ou aperfeiçoamentos na forma de caça, nas ferramentas, mas algo muito lento, e cuja socialização (troca, comunicação) deve ter sido ainda mais lenta, se não nula (da pedra lascada a pedra polida passam-se milhares de anos). A existência social implica na existência de uma CONTINUIDADE NAS TROCAS. E isso simplesmente não existiu, até bem pouco tempo atrás. Famílias esparsas, ou reunidas ocasionalmente, não constituem sociedade, não constituem cultura.

 * * *

A relação do indivíduo com a família é MUITO MENOS RESTRITIVA que a relação do indivíduo com a sociedade. Todos os desejos do indivíduo na família OU podem ser saciados (comida; abrigo; sexo) OU são limitados pelo desejo dos outros (pai, mãe, irmãos), ou ainda pela realidade (não tem comida, faz muito frio, etc). Ocorre que esses limites possíveis NÃO CRIAM CULTURA, porque NÃO SÃO TRANSMITIDOS a outras famílias, outras pessoas.

Lembrando da hipótese winnicottiana, A MENTE É BASICAMENTE A INTROJEÇÃO DA CULTURA DO MEIO, DO AMBIENTE RELACIONAL. Qual é o “tamanho” da cultura do meio, do ambiente relacional, nesses grupos familiares dispersos, sem comunicação? MUITO MENOR do que hoje. Eles vivem a partir das necessidades que sentem; há pouca memória, pouca criação, pouca cultura, poucas palavras, poucas idéias. Eles são muito mais próximos de grupos animais do que de grupos humanos, e, assim como entre os animais já há uma HIERARQUIA – quando o grupo vai comer primeiro comem os mais fortes, os “chefes” da manada, etc – ou seja, já há “relações sociais”, embora não exista propriamente cultura – imagino que entre esses homens do paleolítico existia também uma hierarquia, uma “Limitação” de seus “desejos” – primeiro come o pai, depois o irmão mais forte, etc – mas isso não necessariamente criava cultura, memória, subjetividade…

Resumindo : havia mais liberdade para os instintos do homem, instintos formados em 2 milhões de anos de evolução; instintos animais, em suma, e com a sociabilidade própria dos animais. Não necessariamente “o homem é o lobo do homem” – talvez a sociedade o torne assim…

***

Novamente o exemplo animal ilumina minha ideia: eles claramente tem dificuldade em “aprender” um comportamento, especialmente se implica em postergar uma satisfação; mas eles aprendem. Entretanto, mais uma vez, isso NÃO CRIA CULTURA, porque faltam os meios de comunicação, falta a sociedade, ou mais precisamente a NECESSIDADE de sociedade. O que um animal aprende – ou o que um antepassado humano aprendia – não era passado adiante, pois não havia continuidade na cultura; não haviam grupos humanos reunidos continuamente.

* * *

Em algum momento do paleolítico superior as caçadas em grandes grupos começaram (+ – 50 mil anos atrás). Essa é a mudança fundamental. Essas caçadas eram PROGRAMADAS, planejadas; era preciso fazer uma armadilha em algum ponto (um buraco com lanças, um penhasco, etc), convocar os grupos, fazer grande número de armas, espantar as manadas na direção da armadilha… Logo, há planejamento, organização e sobretudo COMUNICAÇÃO. Nesse ponto, e SOMENTE nesse ponto, a sociedade realmente começou a existir .

O fato de agora existir comunicação permite a cultura; agora, havia um motivo para agrupamentos mais ou menos duradouros; agora, havia troca de ideias num contexto de continuidade de relação entre grupos. A ideia que um sujeito tem lá no fundão do paleolítico pode se espalhar, agora, porque os sujeitos estão próximos, vivem próximos, comunicam, falam, guardam lembranças. Antes cada ideia tinha que ser inventada de novo a cada vez que morria o grupo que a criou; o fogo, uma invenção genial, provavelmente teve que ser reinventado inúmeras vezes… Até que alguma coesão dos grupos permitiu passar a experiência para o incipiente corpo social que nascia…

Quarta conclusão: NESSE PONTO COMEÇA A SOCIEDADE, LOGO, NESSE PONTO COMEÇA A SUBJETIVIDADE.

 * * *

O ponto que me interessa aqui é que agora a relação com o social começa a adquirir mais importância do que a relação com o meio considerado enquanto “natureza”. Antes, o que importava era estar em um espaço com bastantes bichos e plantas; outros grupos humanos só atrapalhavam, só competiam. O importante era o espaço, o clima, a época do ano… Grandes vetores naturais que não são ainda cultura. Agora, importa estar com os grupos certos para caçar melhor. Não é o espaço que determina minha sobrevivência, MAS AS ALIANÇAS. O grupo, a relação, se torna fundamental. E ISSO MODIFICOU A SUBJETIVIDADE.

Se antes haviam poucos limites para meu desejo, e se esses limites NÃO passavam para a cultura (pois não havia sociedade), agora esses limites são maiores – além de meu pai e meu irmão mais forte, há também vários outros pais, vários outros irmãos no grupo que comem antes que eu – E ELES PASSAM PARA A CULTURA. Os grupos criam hierarquias, regras, organização, e elas são necessariamente passadas adiante para os outros grupos, PORQUE ELAS DIZEM RESPEITO À RELAÇÃO ENTRE OS GRUPOS.

Nesse ponto deve ter começado uma dificuldade que até hoje o homem não resolveu bem: a subjetividade, fruto da interiorização das relações exteriores (sociais) se coloca CONTRA A REALIZAÇÃO IMEDIATA DE SEUS DESEJOS. O homem, fruto de milhões de anos de liberdade e de pouca ou nenhuma subjetividade, isto é, um ser de instintos livres (como qualquer animal), começa agora a se deparar com diversas restrições a seus desejos.

Quinta conclusão: com a sociedade, começam as restrições aos impulsos humanos.

* * *

Daí o porquê da relação tão íntima entre formas de subjetividade e formas de sociedade; elas são os dois lados da mesma moeda. Ligando-os e os antecedendo estaria a família. Mas não da forma que queria Freud: a família paleolítica provavelmente não tinha édipo nenhum; o limite imposto pelo “Pai” não criava cultura, não marcava tanto a subjetividade. Agora, com a existência da cultura e das relações entre famílias, o limite do pai simplesmente replica os limites impostos pelo social. Agora sim existe “édipo”, como experiência de limite aos desejos impostos desde “dentro” – mas impostos desde dentro PORQUE EXISTENTES NO FORA, NO SOCIAL, ANTES. Assim, embora a família seja anterior à sociedade, a existência da sociedade vem alterar a família.

Com o advento da cultura, a evolução dá um salto. Se foram necessários 2 milhões de anos para sair das ferramentas de pedra para começar a trabalhar o metal, em 40 mil anos o ser humano já desenvolve cidades. Desse ponto em diante a evolução é muito mais tecnológica do que outra coisa, e passa a ser estreitamente relacionada à política, às relações de poder.

Hoje vivemos muito distantes de nosso meio anterior – a selva – e muito mais ligados à sociedade; muito mais próximos ao “eu” – construto social – do que ao corpo – instintos. Isso claramente se constitui num problema, numa dificuldade; quanto mais complexas são nossas relações sociais, mais complexa se torna nossa subjetividade, mais complexos são nossas soluções de compromisso, os acordos entre nossa parte animal – os instintos – e nossas soluções possíveis – o ego.

Essa complexidade dá lugar à psicologia. Ela trata, busca refazer, o “eu”, encontrando soluções de continuidade melhores entre o corpo (os instintos) e a sociedade (o eu e a vida social do sujeito). Logicamente, formas diferentes de sociedade dariam lugar à formas diferentes de subjetividade. Uma cultura que desse mais espaço aos instintos provavelmente teria menos doença psicológica, porque o problema se dá na integração entre o animal NO homem e as exigências sociais.

Numa palavra: pode ser verdade, como quer Winnicott, que as relações do bebê com a mãe constroem a estrutura da subjetividade em qualquer cenário. Só que a subjetividade é a introjeção das relações sociais. Equivale a dizer que em termos de subjetividade, nossa estrutura interior não precisa ser muito diferente da que tinha o homem do paleolítico, em termos de instintos & desejos. O que mudou foi basicamente a complexidade da sociedade, ou seja, a complexidade da subjetividade (efeito da interiorização da complexidade no social). A complexidade dos meios de satisfazer esses impulsos, ao mesmo tempo que a complexidade dos meios de reprimi-los.

 * * *

Em suma, a subjetividade é um fruto recente e precário do desenvolvimento do social, fruto da tecnologia da caça, provavelmente. A evolução animal do homem tem milhões de anos; a evolução social (e subjetiva) provavelmente terá seus 50 mil anos, apenas. Toda a história freudiana, toda a psicologia, a psicanálise, dizem respeito a esse pequeníssimo fragmento de evolução. O sofrimento mental seria efeito da dificuldade de adaptação desse primata “homem” aos limites do social, de onde surge o “eu” como tentativa de interlocução entre as demandas de cada “casa” (instintos e sociedade). A psicologia teria então uma importância bem secundária no quadro mais amplo, sendo importante hoje, na medida em que as relações instintos x sociedade não foram ainda bem resolvidas.

Isso abre a questão de se um dia o serão, já que os instintos foram moldados na solidão (na família) e a sociedade talvez seja uma conquista sem volta. Das respostas que encontramos até agora – a religião, que usa imagens superiores para manter os instintos sob controle; a filosofia / ética , que procura resolver as situações de embate pelo pensamento / moral / razão; a moral de Nietzsche / Deleuze (dizer que o homem é um animal antagônico, o que é certo mas não resolve as tensões), e a educação – ainda acho que a psicanálise é a que vai mais ao ponto do problema. Todas as alternativas atacam o “eu”, procurando instaurar uma ordem (pelo amor ou identificação); a psicanálise só faz isso de forma mais específica e talvez esclarecida, na medida em que fala em instintos.

********************

NOTAS:

[1] http://veja.abril.com.br/ciencia/linhagem-humana-se-separou-da-dos-macacos-depois-do-que-se-pensava/

[2] História da alimentação, pg 39. sob a direção de Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari. São Paulo: Estação Liberdade, 1998

[3] idem, pg 43

[4] idem, pg 44

[5] idem, pg 45

[6] idem, pg 38

[7] ver nota 5

 

3 Respostas para “Psicanálise primitiva

  1. Pingback: Ideias soltas – para um panorama unificado de psicologia | eu(em)torno·

  2. Pingback: Perspectivas sobre “autoridade” – 1 | eu(em)torno·

  3. Pingback: Transformações do suporte social | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s