Bergson e o inconsciente

Bergson

 

Bergson foi um filósofo francês que escreveu entre o fim do século XIX e o início do XX, praticamente contemporâneo de Freud. Sua principal característica, creio eu, era a capacidade de descrever qualquer coisa, mesmo aquelas que fariam um poeta tremer – com incrível clareza e precisão.

 

Sou apaixonado por essa sua clareza, especialmente porque ele se dedicou a defender pontos de vista que, a princípio, eu julgaria indefensáveis, mas que na sua pena adquirem todo um outro tom – e parecem, depois de seus argumentos, incriticáveis…

 

Um desses pontos é uma defesa do irracional, não como algo oposto à racionalidade, mas como algo formado em outras bases, isto é, basicamente, algo formado pela intuição, não pela razão.

 

***

 

Uma crítica muito bergsoniana é a crítica da noção filosófica de tempo. Bergson diz que nossa inteligência foi formada para fins práticos, para fins de ação – não de conhecimento. Por isso, a especialidade da inteligência seria justamente a matéria, as partes do mundo físico que nos interessam por diversas maneiras – porque precisamos fugir delas, caçá-las, trabalhar com elas, etc.

 

Só que o tempo não pode, a rigor, ser dividido em partes. O tempo é um contínuo. Pensemos numa pedra que foi jogada de um ponto A até um ponto B. Podemos fotografar a pedra em cada instante e dizer que ela ocupa, no tempo t1, a posição X, no tempo t2, a posição Y, etc. Só que na vida real, a pedra nunca está “parada” em qualquer dessas posições. Ela apenas passa por elas, porque todo movimento é um fluxo contínuo, indivisível, que não pode ser fracionado.

 

Bergson então propõe dois tipos de conhecimento: aquele baseado na inteligência, que se aplica ao espaço para fins práticos, e que, novamente para fins práticos, pode dividir o espaço em frações cada vez menores, e aquele baseado na intuição, que seria relativo ao tempo e que não poderia ser dividido em partes, porque cada movimento, cada situação, no tempo, seria única e indivisível.

 

Já se vê que o racional seria algo do âmbito da inteligência, e o irracional, algo do âmbito da intuição.

 

***

 

Pois bem, qual o interesse disso para um psicólogo? É que, grosso modo, o irracional, em Bergson, pode ser aproximado do inconsciente da psicanálise.

 

A rigor, não se trata da mesma coisa. Freud definiu o inconsciente como um outro sistema de funcionamento mental, vigendo ao lado e na base da consciência e de diversos outros funcionamentos da psique. Esse conceito tão discutido, segundo Lacan, assustou todo mundo justamente por ser racional, e não por sua suposta irracionalidade.

 

É que se o inconsciente fosse irracional, seria mais fácil não se importar com ele, creio eu. O que Freud tenta fazer é descobrir justamente as  leis racionais que subjazem àquela pretensa irracionalidade, e, pior ainda, mostrar como a nossa racionalidade está assentada sobre um fundo mais amplo, ainda racional – mas desconhecido, fora de nosso controle: o inconsciente.

***

 

Essa discussão se baseia na noção de irracional como aquilo que é oposto, contrário,  à razão. Já vimos que, para Bergson, haveria um irracional que não seria propriamente oposto ao racional, mas sim formado por outras categorias, outras formas de inteligência. Numa palavra, haveria um irracional que compreenderia aquilo que fosse percebido pela intuição.

 

Jung, no lado da psicanálise, tentou fazer essa amálgama entre os conceitos psicanalíticos e bergsonianos, defendendo, de maneira talvez não muito clara, toda uma “irracionalidade” que, no entanto, mais do que ser contrária à razão, pretenderia ser o resultado desse pensamento intuitivo, ou, como ele chamou, dessa imaginação ativa.

 

Jung é comumente acusado de irracionalista (ou de místico, o que vem a dar quase no mesmo). Mas o que não se leva em conta é que para ele “o conceito de irracional derivava sua justificativa filosófica da delimitação bergsoniana para a origem do intelecto, e o reconhecimento de que a vida excede a consciência capaz de representações” [1]

 

Não conheço Jung o suficiente para tecer comentários sobre sua obra. Essa noção de inconsciente como algo irracional – no sentido de ligado à intuição – talvez nem possa ser atribuída a ele. Mas de um ponto de vista pragmático, ou seja, pensando os conceitos como meras aproximações destinada a comunicar algo – e não como realidades em si – creio que os ambas as ideias se aproximam muito. Um exemplo disso, creio eu, está na definição que jung apresenta de inconsciente, logo no início do livro “A natureza da psique” [2]:

 

“O inconsciente não é isto ou aquilo, mas o desconhecimento do que nos afeta imediatamente”

 

Pretendo escrever mais sobre essa estranha mistura em posts futuros.

 

 

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Notas:

[1] “Jung e a construção da psicologia moderna”, seção ‘Libido, hormé, élan vital’,pg 5185 [kindle], ótimo livro de Sonu Shamdasani

 

[2] “A natureza da psique”, pg 5

 

 

 

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