Espa(r)ços – A vida como sistema autoregulado

Watchmen

 

Vivemos tempos estranhos. O otimismo com o humano, é claro, permanece aí; uma certa ingenuidade que nos facilita as coisas. Quem vai querer ficar olhando toda hora o ruim que há em toda parte? Ninguém é claro. Mas isso serve até um certo ponto.

Chegamos nesse ponto, já? Difícil dizer. Geralmente só sabemos o que é demais quando o ultrapassamos, dizia Nietzsche ou Blake, não lembro. A prudência geralmente é póstuma (salvo casos raros de realismo encranhado). Mas vejamos.

Como está nossa política atualmente? Temos Trump de um lado. Aquele ditador coreano de outro. A China em ascensão, e a Rússia “que nem melancia verde”, doida pra fazer mal pra alguém. Junto com isso temos esse otimismo humano, que as vezes beira a negação. Misture tudo isso e…

 

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Daí vem a pergunta: mas de onde vem essas coisas? Porque essa gente não se aquieta, não fica “de boas na lagoa”, não se foca em trabalhar, em crescer pelo mérito… Infelizmente, porque são humanos, e nós, humanos, temos um parafuso a menos (ou a mais?), que, para resumir, vou chamar de “agressividade”.

 

A agressividade, para Winnicott, é um impulso derivado da motilidade, quer dizer, um impulso que, em princípio, no bebê, quereria dizer algo como “aqui estou eu, estou vivo, cheio de energia, e quero me expandir, me mexer, preciso de obstáculos para testar minha força, etc”. Já se vê que é algo próximo daquilo que Nietzsche chamava de “vontade de poder”, mas a diferença, creio eu, é que em Winnicott esse impulso é muito claramente ligado às exigências do self, do ser. Então sempre que algo for mal com o self, pode ser que ele queira dar uns tapinhas em alguém como forma de expressar o seu “ser”.

 

Segue-se daí que a agressividade é tanto mais presente (ou poderíamos dizer: as formas menos elaboradas de agressividade, as formas mais explosivas) quanto menos estruturado for o ego do sujeito para lidar com as dificuldades da vida. Porque a vida é cheia de empecilhos, não nos deixemos enganar pelo otimismo vigente. O smartphone não vai salvar o mundo (infelizmente).

 

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Esse mecanismo me parece perfeitamente viável num meio anterior ao social, ou em pequenas sociedades sem muitas restrições aos impulsos. O sujeito tem um incômodo – algo está restringindo seu self – ele então dá umas patadas, quebra alguma coisa, e talvez consiga restabelecer o seu self, a crença em si mesmo, etc. Ok, até aí tudo bem (menos para o que foi quebrado). Mas numa sociedade complexa como a nossa, as coisas são mais complicadas.

 

Não apenas porque temos regras muito complexas de convivência, mas porque, basicamente, ampliamos nosso conceito de “pontapé” à níveis bombásticos!

 

Se antigamente nossa vontade de agredir não ia muito além de uns tapas ou uma briga mais feia – do que muita coisa ruim já pode resultar – hoje em dia nosso poder é tamanho, que num acesso de fúria (ou loucura) podemos explodir países inteiros. Todos os países são contra a guerra atômica, mas todos os países que podem, constroem suas próprias bombas. Nenhum país quer ficar sem elas, porque sabe que do outro lado da fronteira, há um ser humano tão agressivo, mesquinho e briguento quanto ele – ou seja, não há alternativas!

 

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Ou melhor, há alternativas, sim. A educação – tanto a  ‘mental’ quanto a afetiva – dão-nos outras formas de lidar com as frustrações, expandem nosso self de uma maneira mais benigna e nos capacitam a utilizar nossa agressividade de um jeito menos trágico. Mas infelizmente é aí que o polo “otimismo” mostra toda sua problemática, porque não queremos ver os problemas, não queremos nos preparar para eles, não queremos acreditar que eles existam… e quando há toda uma indústria que vive de nos vender paraísos ilusórios – a preços acessíveis -, a coisa fica ainda mais difícil…

 

Pensando nesse quadro e em todas as suas implicações é que me ocorre que talvez a natureza, em sua eterna sapiência, tenha dotado o homem, como todas as formas de vida, aliás, de um mecanismo de autoregulação: assim, nossa inventividade infinita seria limitada pela nossa agressividade, especialmente quando nos tornássemos inventivos demais, e expandíssemos nosso poder a ponto de pôr o equilíbrio do planeta em risco.

 

Ao meu ver estamos claramente nos dirigindo para esse horizonte, e os argumentos que poderiam nos deter não parecem ter a força necessária quando olhamos para o lado mais escuro e sombrio da humanidade, para aquilo que move as máquinas e o capital, ali onde o suor é canalizado e onde a força se exaure. Nesse breu do mundo real, aonde os impulsos mostram sua força, talvez apenas a agressividade nos limite. E da pior forma.

 

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