Espa(r)ços – O inconsciente, fronteiras e narrativas

a sombra que trago comigo

A existência do inconsciente – seja lá o que isso for – é A pedra fundamental da psicanálise. A ideia de inconsciente já existia muito tempo antes de Freud; mas ele foi o primeiro a relacionar certos comportamentos observáveis, explícitos, a um funcionamento inconsciente.

 

Sobretudo ele conseguiu relacionar patologias e processos de cura à uma descrição coerente do que seria esse inconsciente. Ele vinculou o conceito e a teoria à uma prática, a um “fazer”, a um resultado.

 

Ele chegou a essa ideia através de uma série de fatores.

 

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Primeiro, a hipnose. Naqueles tempos, havia um certo furor sobre o hipnotismo – que continua até hoje, aliás – e Freud resolveu estudar o assunto.

 

A hipnose é a grande experiência inicial da psicanálise. Na hipnose, alguém age de forma aparentemente inconsciente, isto é, como se sua consciência (seu self) estivesse “desligado”, e ele estivesse seguindo as ordens de uma outra pessoa como se fossem as ordens de seu próprio “eu”.

 

(a meu ver já temos aqui um ponto importantíssimo: na hipnose, o corpo do sujeito – ou uma parte de sua psique, para ser mais preciso – obedece as ordens de uma outra pessoa COMO SE ESSA PESSOA FOSSE O PRÓPRIO “EU” DO SUJEITO, o que equivale a dizer que, para o corpo do sujeito, para essa parte que obedece, seu “eu” é como um “outro” que manda)

 

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A hipnose sugere, então que EXISTE UM FUNCIONAMENTO MENTAL QUE NAO É CONSCIENTE, ou, dito de outra forma, que a consciência não é necessária / indispensável / determinante para o funcionamento mental.

 

Isso poderia ser observado a partir de diversas outras fontes, claro, e o próprio Freud sugeriu várias (os sonhos, os atos falhos, as piadas, os sintomas, etc). E é facinante tentar apreender esse funcionamento inconsciente nas próprias falhas, nos próprios sonhos… creio que é uma maneira nova de se relacionar consigo mesmo que Freud inaugurou – ou redescobriu, ou re-fundou, se formos levar em conta o Foucault da “Hermenêutica do sujeto”.

 

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Agora, O QUE É esse inconsciente? Temos ideias esparsas sobre isso.

 

Freud tentou varias respostas. Ele mais ou menos define o inconsciente como um modo de funcionamento diferente, como um outro “sistema” de funcionamento mental, diferente da consciência. Ele se caracterizaria, negativamente, por não seguir os ordenamentos da lógica, não conhecer a noção de tempo, não se importar com a contradição, não saber abdicar de um prazer uma vez experimentado…

 

Positivamente, Freud não o caracteriza tão bem, dando a impressão de estar mais interessado em “traduzir” o inconsciente para a consciência do que em “mergulhar” a consciência no inconsciente. Talvez isso esteja ligado à sua personalidade; Winnicott dizia que Freud “fugiu” da loucura (da psicose) através de uma “saúde excessiva”; que ele não se permitiu viver a doença, a psicose em si. Talvez isso seja apenas uma expressão de sua busca por fundamentar a psicanálise como ciência.

 

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De outra parte, Jung dá definições positivas do ics. Se nesses inícios da psicanálise Freud era o lado luminoso e “consciente” da psique – a neurose, a razão, a estrutura -, Jung poderia ser sua contraparte, seu complemento escuro e “inconsciente” – a psicose, a desmedida, o rizoma.

 

Uma dessas definições junguianas diz que o ics tem uma função compensatória em relação ao cs; se o consciente é muito racional, o ics, compensatoriamente, tenderia a ser irracional; se a pessoa tende muito para um lado, o ics tenderia muito para o outro, procurando assim compensar, equilibrar, o funcionamento mental.

 

A ideia aqui é que o mental seria como o organismo, com sua auto-regulação fisiológica. O corpo tende a compensar os excessos de qualquer coisa com que entre em relação, e Jung propõe que isso também acontece na “alma”, só que por via inconsciente.

 

Outra definição de Jung apresenta o inconsciente como produtor de imagens, produtor de símbolos. [1] Esses símbolos seriam traços de união entre o consciente e o inconsciente, como se fossem “pontes” entre os dois domínios. Jung enfatisa muito a necessidade de escutarmos nosso inconsciente, nossa vida intuitiva,de viver mesmo isso que nos habitaria – ou que nós habitaríamos.

 

***

 

Bion já tem toda uma outra imagem do ics. Na verdade, ele inverte a coisa ao propor que consciente e inconsciente seriam como países vizinhos, cujas fronteiras não estariam nunca bem delimitadas, ou definidas de uma vez por todas.

 

Caberia à narrativas, à produção de imagens concatenadas, fazer o papel de fronteira entre esses dois “países”. As imagens seriam criadas pelo que ele chamou de “função alfa” [2], e essa seria um resultado das relações com grande carga afetiva entretecidas entre os sujeitos. Assim, relações “do lado de fora” criam a possibilidade de que surjam relações “do lado de dentro”, como as imagens criadas pela função alfa. Então essas imagens, se ligando umas às outras numa narrativa, se encarregam de separar os dois países vizinhos – separar, mas também unir.

 

Gosto de imaginar que sem uma fronteira definida, os moradores de cada lado desses países estão sempre confusos, não sabem bem como se relacionar entre si, os mercadores não podem vender seus produtos porque uma hora o comprador é conterrâneo, outra hora não é, enfim – tudo fica uma bagunça. Com o estabelecimento da fronteira, as relações podem se dar com alguma CONTINUIDADE, e consciente e inconsciente podem agora unir-seporque estão claramente separados – ou separar-se – pela existência da fronteira.

 

Interessante notar que não é possível a união ou o contato entre consciente e inconsciente quando eles não estão claramente separados. Nesse sentido Bion fala na impossibilidade de dormir e acordar plenamente quanto não existe uma narrativa exercendo a função de fronteira. O sono, como domínio do inconsciente, e a vigília, como domínio da consciência, também demandariam fronteiras precisas para entabular  “transações comerciais” enriquecedoras.

 

***

 

[1] Nesse sentido, por sua “rizomicidade” e sua ênfase no caráter produtivo do inconsciente, Jung é uma espécie de Deleuze “avant la lettre”.

[2] Escreví um pouco sobre isso nos links https://euemtorno.wordpress.com/2017/08/29/analise-e-expansao-narrativa-um-sobrevoo-pelo-pensamento-de-bion/, https://euemtorno.wordpress.com/2017/06/16/freud-e-a-escrita-criatividade-e-funcao-alfa/ e https://euemtorno.wordpress.com/2017/06/13/continente-conteudo/

 

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