Dois divâs – II

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O que é a mente? A mente, o mental, sempre intrigaram o pensamento, e uma infinidade de respostas surgiu dessa inquietação. Há respostas religiosas, que ligam a mente à alma; há respostas neurológicas, que tentam encontrar o mental a partir de seus substratos orgânicos. A meio caminho entre ambos está, creio eu, a resposta psicanalítica.

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Em Winnicott, o mental é fruto de uma tendência: o ser humano nasce com uma tendência (orgânica?) para o amadurecimento, uma tendência para a integração; e o mental é parte disso. Fundamentalmente, o mental (ou a psiquê) seria nossa capacidade de elaborar imaginativamente aquilo que acontece no corpo. Assim, toda vivência corporal, seja com objetos do mundo externo, seja com instintos ou pulsões (o mundo “interno”) acaba tendo um “duplo”, um registro mental, formado a partir da elaboração imaginativa.

Não estou bem certo disso, mas creio que para Winnicott essa capacidade de elaboração imaginativa não funciona automaticamente no sujeito. Ela precisa a) ou se desenvolver num relacionamento de cuidado e intimidade (geralmente com a mãe ou um outro significativo – o “ambiente” -), ou b) ser criada a partir desse relacionamento de dependência com o ambiente. De qualquer forma, o outro, o ambiente, é fundamental no processo.

Independente de como as coisas aconteçam, o fato é que o ambiente acaba sendo fundamental também para a experiência que será elaborada imaginativamente (e não apenas para o “mental” em si). Pois dada a absoluta dependência do ser humano em seus primeiros meses de vida, é claro que tudo o que ele vive – tudo o que chega ao seu corpo, e que depois será elaborado (imaginado, tornado imagem) – trará consigo a marca do ambiente, os vieses, a qualidade dos cuidados que o bebê recebeu.

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Assim, a experiência de ter fome, que obviamente é uma experiência do bebê, pode ser vivida de formas muitíssimo diferentes, conforme o tipo de relação que o ambiente estabeleça com ele, bebê. O ambiente pode ser ansioso e rígido, e oferecer comida (ou o seio) antes mesmo de o bebê sentir fome. Ou, pelo contrário, pode ser que o ambiente não esteja disponível no ritmo desejado pelo bebê, e então o alimento só chegue muito tempo depois da fome ter surgido.

A experiência do bebê, em suma, varia conforme o grau de adaptação do ambiente às suas necessidades, nesses primeiros dias ou semanas de vida. Ela pode ser organicamente determinada; mas será experienciada de forma muito diferente, em função do ambiente. E é essa experiência que será elaborada, será transformada em “mental”, e não (ou não só) o padrão orgânico que desencadeou o processo. Numa palavra: a dependência absoluta da criança em relação ao meio faz com que em toda experiência seja elaborada junto com o perfil do ambiente da qual a criança depende. Em suma, o ambiente é introjetado pelo bebê na formação de seu mundo interno.

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Falamos da capacidade de adaptação do ambiente às necessidades da criança. Para Winnicott, existe na maternagem normal um grande grau de identificação da mãe com a criança, facilitando que ela “imagine” o que o bebê precisa através de seu próprio mental (sua elaboração imaginativa, funcionando através da identificação com a criança). Essa identificação facilita, também, que a mãe suporte o elevado grau de doação que a maternagem exige – pois, no fundo, é como se ela cuidasse de si mesmo quando cuida do(a) filho(a).

Tudo isso adquire ainda mais importância na medida em que, para Winnicott, a criança precisa atravessar uma fase de ilusão no começo da vida, aonde aquilo que a criança imagina (através de sua mente, sua capacidade de elaboração imaginativa) é de alguma forma tornado real pelo cuidado da mãe (falamos sobre isso aqui). Assim, se o bebê imagina o seio por estar com fome, e a mãe apresenta o seio na realidade, há uma sobreposição entre a presença real do seio e o seio imaginado. Para a criança, tudo se passa como se a própria fome tivesse criado o seio. Na medida em que essas experiências se repetem, a criança passaria a confiar que o real responde diretamente às suas necessidades, ou, em outras palavras, que ela é onipotente. É claro que essa “onipotência” deriva da qualidade do cuidado do ambiente, e será introjetada junto com as experiências do bebê, como já falamos acima, constituindo um fundo importante daquilo que depois se integrará como um “Eu”.

Em seguida à essa fase de ilusão viria uma fase igualmente importante de desilusão (link): a identificação da mãe com o bebê tende a diminuir com o tempo, e então a qualidade da adaptação dela ao bebê deixaria de ser suficiente (sempre em relação ao grau de tolerância do bebê em relação às suas vivências). Em consequência, aquela sobreposição entre o imaginado (o mundo interno do bebê) e o realizado (o cuidado da mãe, o real, o mundo externo) já não acontece com a mesma frequência. É então que surge, para Winnicott, a função do pensamento: como uma tentativa de explicação das falhas do ambiente.

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É claro que o peso e a importância do pensamento variará de acordo com a intensidade das falhas do ambiente. Mas nos casos benignos, as falhas ambientais são pequenas, isto é, não ultrapassam um limiar de tolerância, aquele limite aonde a criança já aprendeu a confiar no ambiente. Então, o pensamento que surge seria algo do tipo “o seio não veio; mas confio que virá logo; isso já aconteceu antes, e foi tranquilo; logo, logo ele virá”, etc. O pensamento atua como uma espécie de suplência em relação ao ambiente, permitindo que o bebê tolere cada vez mais as falhas ambientais.

Se, no entanto, as falhas são grandes demais, a função do pensamento terá que ser usada de forma exagerada, fazendo com que, no limite, o bebê “cuide” de si mesmo, através do pensamento – já que a confiança no ambiente se perdeu em algum trecho do caminho (e essa perda terá diversas consequências na patologia).

De toda forma, o mental e o pensamento seriam duas coisas bem diferentes para Winnicott: o mental, como já vimos, teria mais a ver com a capacidade de transformar em imagens, de elaborar imaginativamente, as experiências do corpo (é praticamente o mesmo conceito de “função alfa” de Bion. Já falamos sobre isso aqui). O pensamento estaria mais para uma conversa interna, um diálogo, aonde o próprio pensar atua como um ambiente em suplência, um ambiente “extra”, atuando desde dentro e ajudando a tolerar as falhas cada vez maiores do ambiente real.

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Se tudo correr bem (ou “suficientemente” bem, como dizia Winnicott), ao final de uma série de processos de amadurecimento o bebê chegará a um nível de integração que lhe permitirá dizer (e viver) “Eu sou”, isto é, ele passará a experienciar as vivências de seu corpo e de sua mente (aquele ‘duplo’ formado pela elaboração) como algo relacionado a ele, ao seu ego, como coisas próprias, que lhe pertencem.

Se as coisas não correm bem, então várias possibilidades de adoecimento surgem. Para Winnicott, dada sua teoria do amadurecimento, as doenças mais graves – as psicoses, por ex – tendem a ser decorrência de falhas mais precoces no desenvolvimento, enquanto doenças mais brandas – as neuroses – seriam consequência de problemas posteriores.

As consequências disso são enormes, mas antes de passar à elas, atentemos para o seguinte: segundo Winnicott, o ego não é um dado natural, não é algo que possa ser pressuposto, sendo antes o efeito final de uma série de etapas de amadurecimento. Como vimos, entre essas etapas contam-se a 1) aquisição do mental através da relação com o ambiente, 2) a elaboração imaginativa das experiências do corpo através desse mental, 3) a criação de um mundo interno (pelo acúmulo de elaborações), 4) a separação entre um “Eu” e um “não-Eu”, que tem a ver com 5) a assunção de uma parte dessas elaborações como “suas”, e a exclusão de outra parte como “não-suas”, o que por sua vez depende de 6) ter sido bem iludido e depois bem desiludido – condição para perceber – e principalmente permitir… – que existe um mundo “não-Eu”…

Ou seja, há uma série de pré-requisitos no desenvolvimento simplesmente para que a pessoa possa sentir um sofrimento mental como seu – tanto é assim que para Winnicott uma psicose por exemplo poderia ser um estado sem sofrimento pessoal – não porquê falte sofrimento, mas porque falta a integração desse sofrimento ao Ego, e as vezes falta inclusive integração do corpo próprio com o Ego que chegou a se desenvolver.

O mesmo valeria para outras experiências – o sexual, por exemplo. Em Freud, sabemos que o sexual constitui o sujeito, sendo, em tese, primeiro em relação à sua estruturação subjetiva. Em Winnicott não: como vimos, nele há a necessidade de uma primeira estruturação subjetiva para que o próprio sexual seja vivido como algo próprio, algo do sujeito.

O detalhe fundamental aqui é que essa primeira estruturação é relacional, é relativa à relação de dependência e cuidado com o ambiente. Não se trata de uma relação propriamente pulsional. Segundo Winnicott, seria apenas depois de alcançada essa primeira estruturação que o sexual poderia ser vivido como falta, como estruturante ou até como desestruturante – isto é, como é visto na psicanálise clássica. Mas a primeira estruturação seria relacional.

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Daí a confusão entre as escolas, que persiste até hoje. Muitas vezes, quando um winnicottiano se refere à relação com o paciente, ele vê nessa relação uma reedição daquela relação primeira do bebê com a mãe, daquela relação que seria, para Winnicott, fundante da própria estruturação subjetiva. A análise seria uma espécie de “segunda chance”, de reedição daquelas relações, buscando reencenar a relação em seu caráter constitutivo da subjetividade.

É normal então que o analista winnicottiano esteja muito atendo às demandas do paciente, e busque adaptar-se à elas, assim como foi necessário à mãe se adaptar às necessidades de seu bebê. A interpretação do analista, nessa fase, será muito mais uma ferramenta para ajudar a ele, analista, a entender em qual fase do desenvolvimento o paciente está (emocionalmente falando), em qual fase o desenvolvimento estagnou. Daí que, em geral, a interpretação sirva mais ao analista que ao paciente: nem sempre ele fala aquilo que interpreta, mas antes “usa” essa percepção para uma adequação melhor ao paciente.

Um analista de outra escola poderia ver nessa adaptação uma submissão, um deixar-se enredar pelos conflitos do paciente, um não saber fazer “o corte” necessário – porque verá, fundamentalmente, a relação em termos de pulsão, e não em seu potencial de constituição subjetiva. Da mesma forma, usaria a interpretação como uma revelação da verdade do paciente para o paciente – sem utilizá-la para adequar a relação (embora a noção de reação terapêutica negativa tenha feito os analistas atentarem mais para o tempo do paciente, o que na prática vai dar quase na mesma).

 

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Como já disse mais de uma vez (por exemplo, aqui),o que é decisivo na análise é sua prática, é aquilo que acontece, não aquilo que se diz dela ou que se teoriza sobre ela – embora, claro, a teoria tenha sua importância. Pode-se dizer uma infinidade de coisas sobre a análise; pode-se dizer que aquilo que acontece mantem uma relação X ou Y com aquilo que é teorizado; mas meu ponto é que, por mais que se diga sobre a análise, não se pode dizer tudo, e há sempre um resto, há sempre um pouco de “fazer” que sobra, que não é dito – simplesmente porque não há sobreposição entre o realizado e a linguagem.

Assim, mesmo analistas que não ‘seguem’ uma escola de pensamento ligada à Winnicott, isto é, analistas que não valorizam a relação tal como acabamos de ver, mesmo assim realizam relações, acolhem seus pacientes, pensam sobre seus problemas… isto é, realizam algum tipo de “maternagem” com relação à eles – e então sua prática terá algo daquele caráter constitutivo da relação que mencionamos, por mais que sua teoria nada diga sobre isso.

 

É importante dizer que para os pacientes neuróticos, Winnicott entendia que a psicanálise padrão, tal qual foi projetada por Freud, ainda era a melhor alternativa. Ele mesmo a praticava com seus pacientes, quando entendia que era o caso. Mas para todo o resto do espectro patológico aquela escuta da relação era mais importante, e então ela tinha que ser feita primeiro, para que o paciente pudesse chegar à neurose, e só então ser ouvido em termos de conflitos internos, pulsões e sexualidade.

 

Muitos consideraram – consideram ainda? – que tal escuta não era psicanálise, e, de fato, o próprio Winnicott falava aí de escuta ou psicanálise ampliada, diferenciando-a da psicanálise padrão. Mas creio que a aceitação de muitos de seus postulados – sobre o transicional, sobre a importância da relação mãe/bebê e sobre a conduta anti-social como resultado de uma falha ambiental, por exemplo – indicam que a psicanálise standart está se abrindo para suas novas possibilidades de escuta.

 

3 Respostas para “Dois divâs – II

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