“A ilha do tesouro”, de Renato Mezan

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Como já disse em outras oportunidades, não vejo a prática clínica como consequência da teoria, mas antes o contrário – a clínica é primeira, e a teoria é apenas um catalizador – um atalho, um caminho mais curto, fundamentalmente um ponto de apoio e de descanso, um conjunto de ferramentas a ser usado.

 

Creio que Freud tinha uma noção parecida com essa. Tanto é assim que ele entende a psicanálise como uma ciência, ou como algo passível de se tornar ciência, um campo novo, aberto à experimentação e a auto-correção, conforme avança pelo seu caminho – o caminho da clínica, repito, e não – ou não apenas – o da coerência (ou beleza, ou elegância) lógica.

 

Entrementes, assim como é óbvio (ao menos para mim) que a realidade da prática pode ultrapassar a teoria – e assim fazemos mais do que dizemos – também acho óbvio que a teoria pode ultrapassar a prática. Numa palavra, não há nunca sobreposição completa entre o que se diz e o que se faz. Cada âmbito – o real e o teórico – deve servir de INDUTOR de um desenvolvimento no outro, e assim, numa espécie de espiral, tanto a teoria impulsiona o desenvolvimento da prática, quanto a prática impulsiona a teoria.

 

***

 

Agora que estamos “vacinados” contra as acepções idealistas (ou linguísticas) das relações entre teoria e real, quero tentar abordar uma noção teórica fundamental em Freud, cujas relações com a realidade sempre foram meio… soltas. Trata-se da noção de prazer, e algumas das noções correlatas (ou dela dependentes, como sublimação, desprazer, etc).

 

Freud concebe o aparelho psíquico como um aparelho erigido em função do prazer. Através da noção de energia psíquica, e da suposição de que o aumento da quantidade de energia (o acúmulo de tensão) é “sentido” no aparelho como desprazer (enquanto o dispêndio de energia é “sentido” como prazer), Freud concebe toda uma estruturação do aparelho mental humano em função dessas trocas de energia.

 

Assim, o objetivo básico do aparelho mental seria a obtenção de prazer – isto é, o dispêndio de energia, o rebaixamento do nível de tensão no aparelho. Isso se daria, por exemplo, na criança, através da alucinação: se uma tensão se acumula no aparelho (surgindo como “fome” para a criança, por exemplo), o primeiro movimento da criança seria ALUCINAR um objeto de satisfação, ou a satisfação mesma: essa primeira “resposta” do aparelho saciaria a criança num primeiro momento, propiciaria uma pequena descarga de energia e “resolveria” a tensão.

 

O modelo utilizado por Freud para pensar essas questões é o modelo do sonho: quem nunca sonhou que tomava um copo d’água quando estava com sede durante o sono? Ou que foi a banheiro, quando as necessidades fisiológicas se fizeram sentir com mais intensidade?

 

Sabemos que esse modelo alucinatório não resolve as questões; nem o copo d’água nem o seio alucinado pelo bebê resolvem realmente a questão, e logo a tensão se acumula novamente, na forma de fome ou sede. É preciso então uma “alteração adequada” na realidade, e o bebê, através do choro, convocaria essa alteração no real – assim como o sonhador talvez acorde para saciar a sede que o angustia.

 

Temos assim as figuras do Princípio do Prazer e do Princípio da realidade. O Princípio do Prazer (P. Prazer, doravante) tenderia à descarga da energia o mais rápido possível (por exemplo, pela alucinação) enquanto o Princípio de Realidade (P. Realidade) representaria uma espécie de “correção de curso” no P. Prazer, que levaria em conta a realidade da situação, embora buscasse ainda A CONSECUÇÃO DO PRAZER, da mesma forma que o P. Prazer.

 

***

 

Temos aí uma aproximação do que seria o primeiro modelo teórico do aparelho psíquico freudiano.  É de se notar que embora teoricamente ele pareça muito simples, também continha algumas contradições flagrantes. Por exemplo, no próprio campo do sexual, campo ao qual Freud dedicou muita atenção, é sabido que o prazer preliminar, o prazer das preliminares ao ato sexual, representam um aumento gradativo da tensão – só que esse aumento é sentido como prazer. O próprio ato sexual pode ser descrito como um aumento paulatino da tensão, seguido de um rápido e intenso rebaixamento da mesma – só que tanto o aumento quanto a diminuição da tensão são sentidas como prazeirosas…

 

Há muitas questões aí, e, apesar da potencial explicativo desse primeiro modelo, ele foi abandonado por Freud mais adiante (conforme trecho mais abaixo, de Renato MEZAN). Mas nesse “saco de gatos” que é a psicanálise, muita coisa desse modelo persistiu, seja em algumas escolas psicanalíticas, seja na visão dos críticos. Eu mesmo, especialmente em meu passado “esquizo”, tinha dificuldade em me aproximar da psicanálise, já que ela meio que pressupunha uma mente cujo “objetivo final” era o rebaixamento da tensão à zero (ou seja, a morte?)…

 

Daí o interesse do texto que segue. Nele, Renato Mezan (no livro que já resumi aqui) nos mostra que, já no texto sobre os chistes, o próprio Freud trabalhava com uma outra noção de prazer, muito menos “anal” que essa primeira – que funcionava em termos de retensão e dispêndio de ‘energia’… – e mais “oral”.

 

A diferença de um registro ‘anal’ para um ‘oral’ estaria em que no segundo o modelo de relação é a incorporação, a identificação. Não se trata mais de um sujeito que acumula ou consegue dispender uma quantidade de energia, mas de um sujeito que, na relação com alguma coisa, abre-se à identificação com ela, transforma-se, de certa forma, nessa coisa, permite um alargamento de seu ser na relação com um objeto.

 

Eu, que sempre senti grande prazer com a música, tenho muito mais facilidade de entender meu prazer como uma relação de identificação, de abertura, à música como experiência – um “devir musical” -, do que como ‘rebaixamento da tensão’. Mas prossigamos.

 

***

 

É todo um outro registro de funcionamento que vemos nascer aí, e que Freud, infelizmente, não desenvolveu. Veremos essa linha ser retomada muito tempo depois, já em Winnicott, que centra sua clínica em considerações ontológicas – ligadas ao ser – e na relação, muito mais do que na retensão ou distensão (meio solipsistas) daquele primeiro modelo freudiano. 

 

Retomando as considerações com que comecei esse texto, a prática clínica pode ter continuado mais ou menos a mesma, indiferente a esse jogo de contradições e pensamentos que buscamos organizar numa teoria. Entretanto, a teoria serve também para comunicar, para chamar a atenção, para apresentar, de certa forma, uma realidade que nem sempre está visível “por si”.

 

E o fato é que essa primeira noção de prazer cunhada por Freud foi duramente criticada tanto por correntes da psicologia quanto da filosofia. Mezan nos dá a oportunidade de ver uma “saída” teórica para essas críticas no próprio Freud. Finalmente, essa nova noção de prazer permitiria aproximar Freud de Nietzsche, por exemplo, com suas considerações sobre potência, assim como – quem diria? –  da esquizoanálise, através das noções de “territorialização”, “zona de vizinhança” e “devir”. Trabalho que deixo para outro post. Por enquanto, segue o resumo do texto.

 

***

 

A ilha dos tesouros ou sobre o livro dos Chistes, de Renato Mezan

Renato Mezan faz um resumão do livro do Chiste de Freud dentro do livro “O tronco e as raízes”. O resumo basicamente acentua que o processo chave para Freud é a economia de energia que a piada (o chiste) propiciaria. Ela seria uma forma de expressar tendências recalcadas (sexuais, agressivas, etc) que, pelos mesmos processos do sonho (deslocamento, condensação, alusão, etc) conseguiria vencer a censura. A energia antes utilizada para manter a censura ficaria então livre, e seria descarregada pelo riso. [nota: diminuindo a tensão; daí o prazer]

 

Logo em seguida Mezan passa a analisar o que vê de novidade no livro. Critica a noção econômica que Freud utiliza a torto e direito para explicar tudo. Critica também a noção de prazer que Freud utiliza, baseada na ideia de uma redução da tensão (pg 460). 

 

Menciona a solução que Freud apresenta nos “3 ensaios”: se o prazer é a redução da tensão, e o desprazer o aumento da tensão, como entender que o aumento da tensão sexual (no prazer preliminar) seja sentido como prazer? Freud entende que o prazer que cada preliminar suscita leva em direção à outro prazer preliminar, numa espécie de espiral em ascensão, que se tornará desprazer SE for justamente impedido de aumentar a tensão, mantendo o ciclo. (OU seja, Freud já sugeria que o movimento da tensão, mesmo ascendente, não era desprazer…) – (pg 461/2) 

 

Já em “O problema econômico do masoquismo” Freud desiste de relacionar prazer e tensão: Freud conclui que prazer e desprazer “não podem ser assimilados ao aumento e à diminuição de uma quantidade à qual chamamos “tensão de estímulo”, embora claramente tenham muito a ver com este fator.” (pg 462) 

 

Outro problema estaria ligado ao próprio prazer; ele não seria um processo apenas interno, psíquico, já que Freud mesmo cita fenômenos de prazer que envolvem o outro não como objeto, mas como indutor de prazer (na piada isso aparece tbém). (pg 463) 

 

Chama a atenção para o caráter de analidade dessa metáfora do prazer em Freud: o prazer é a ‘expulsão’ da tensão; a ‘retensão‘ é sentida como desprazer, etc. Apresenta isso como uma constante em toda a obra freudiana, que entende que o prazer é uma questão OU de distensão OU de domínio (ainda postura anal), embora, em vários momentos da obra, Freud apresente também uma perspectiva mais oral, de RECEPÇÃO, de ABERTURA ao outro, o prazer provindo da abertura à excitação e não do domínio dela (pg 464) 

 

Haveriam prazeres de descarga, mais anais, e prazeres de recepção, de abertura receptiva, mais orais. A música que nos embala e nos toma nada teria de descarga, mas de captação, de recepção; nós nos abandonamos à música (pg 465) 

 

“O extraordinário é que, no próprio livro do Witz (Chiste), Freud tenha descrito uma experiência deste gênero, sem se dar conta de que ela poderia abrir caminho para outra compreensão do prazer. Refiro-me a que acontece com quem ouve a piada: ele é surpreendido por algo que lhe chega de fora, e, em vez de proceder à eliminação do “invasor” que aumenta a sua tensão mental – pois a frase espirituosa, num primeiro momento, desconcerta por sua estranheza – , deixa-se impregnar por aquela excitação. Seu riso é prova suficiente de que experimentou prazer, e a condição deste prazer é precisamente a receptividade a algo que se apresenta como um aumento de tesão”. (pg 465) 

 

A seguir liga esse entendimento do prazer como receptividade ao estudo da arte;. Freud tbém tinha utilizado sua analogia energética para entender a arte (ela suprimiria a censura do leitor, etc) (pg 466/7) 

 

[notar como esse prazer na receptividade parece muito algo narcísico, como se relembrasse algo da onipotência da infância; existe, mais do que um dominar, um “co-participar“, uma “co-formação“, pela qual tanto o estímulo me embala quanto eu o assumo como meu; eu me torno o estímulo e ele se torna “eu”; ele alarga as margens do meu ser, e eu o englobo enquanto parte minha; é dominação, mas não que algo de fora seja introjetado, senão que o próprio eu se transforma naquilo que aparecia como externo] 

 

Fala também do prazer narcísico, de se perceber capaz, ou de fazer algo que suscita admiração. Qdo uma criança faz algo admirável, os pais se admiram também, e sentem o SEU (dos pais) narcisismo gratificado; cria-se assim um circuito de prazer narcísico, que Mezan vincula à sublimação.  (pg 468) 

 

Para Mezan, a sublimação permanece obscura se a entendemos somente do ponto de vista quantitativo/econômico; essa questão do prazer narcísico, como suporte para as finalidades “socialmente valorizadas” que Freud articula com a sublimação, seria uma explicação melhor (pg 468/9) 

 

Nos vários tipos de sublimação (na atividade científica por ex) não se busca a meta pelo rebaixamento da tensão; ao contrário, todos os passos que fazemos implicam em tensão, e a solução final, se pode ser sentida como rebaixamento (felicidade alcançada), dificilmente explicaria tudo. “O mesmo acontece quando sentimos prazer em aprender algo, em brincar, na exploração tátil, visual ou sonora de algo novo. É este prazer, aliás, que dá conta do esforço para vencer os obstáculos que se antepõe nesse percurso” (pg 469) 

 

Nisso tudo, “a expectativa de sermos amados por aqueles para quem fazemos algo difícil tem um papel nada desprezível. Mais uma vez, o circuito narcísico entra em ação: investimos aquilo que, imaginamos, dará prazer aos “outros significativos”, e o prazer que vemos neles com nosso sucesso nos incentiva a prosseguir, mesmo que à custa de muito desprazer. (pg 469) 

 

Conclui dizendo que “fazer um Witz é, claramente, uma das muitas maneiras de sublimar nossa libido ou nossa agressividade” (469) – pelo prazer narcísico e também pelo prazer da receptividade?? Fala logo adiante em identificação (entre quem faz a piada e quem , sendo a risada do outro importante para minha própria risada), então deve ser o prazer narcísico. 

 

Entende que com essas possibilidades de um prazer não-catártico, não puramente econômico, Freud estaria dando as bases para os desenvolvimentos posteriores, como os da relação de objeto e o do estágio do espelho de Lacan, onde o “outro” não aparece como simples objeto de satisfação da MINHA pulsão, mas é parte constituinte do meu prazer, desde dentro (471)

Uma resposta para ““A ilha do tesouro”, de Renato Mezan

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