Análise e expansão narrativa – um sobrevôo pelo pensamento de Bion

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Sempre houve – sempre haverá? – uma diferença entre a prática e a teoria na psicanálise. Sei que muitos discordarão disso, argumentando que a própria percepção da realidade é recortada pela linguagem, pela teoria, etc. Mas não é esse meu ponto. O que digo é que se a psicanálise não desse resultados, ninguém daria bola para suas teorias.[1]

 

Este descolamento entre a prática e a teoria é o que explica, a meu ver, a diversidade de entendimentos sobre a clínica. Simplesmente porque pode haver muito mais acontecendo na clínica do que aquilo que sabemos, hoje, dizer.

 

Uma tentativa muito interessante de “dizer mais” sobre a clínica é a de Bion. Ele revolucionou a teoria da clínica propondo, entre outras coisas, que a meta da análise seria a expansão da capacidade narrativa (ou onírica) do sujeito, e de que o trabalho clínico deveria focar-se não nos conteúdos ou nos conflitos entre conteúdos da mente, mas na própria mente, isto é, naquele “instrumento para pensar os pensamentos” que ele chamou, talvez ironicamente, de “função alfa”.

 

Não sabemos o que acontece na mente. Sabemos, entretanto, que algo acontece com os dados percebidos. Sensações e percepções são, de alguma forma, transformadas em imagens (ou algo equivalente) e essas imagens se unem para formar um discurso, uma narrativa. Bion propôs chamar esse “algo” de função alfa. Ela seria o equivalente à digestão no mundo psíquico, e seu funcionamento inicial se daria na relação mãe / bebê.

 

  1. O mental está na relação

 

O mental propriamente dito, a “digestão” do sensorial que nos chega de todos os lados, começaria não na mente ou no cérebro, mas na relação. A relação entre mãe e filho(a) seria o protótipo de diversos desenvolvimentos, e na sequência coloco algumas das fases desses desdobramentos.

 

Primeiro haveria a projeção. A mente do bebê, ainda incapaz de elaborar qualquer coisa, simplesmente evacuaria seus conteúdos diretamente na mente da mãe. Essa projeção ou evacuação seria um dos mecanismos mais primitivos da mente, mas já teria um vetor comunicativo, que Bion proporia utilizar com os pacientes mais regredidos (psicóticos).

 

Esses conteúdos projetados seriam acolhidos pela mente da mãe, e tratados com sua capacidade de elaboração, sua “função alfa”. Bion caracteriza essa capacidade como onírica, pois o que a mãe faria seria uma espécie de sonhar ou ressonhar com os conteúdos projetados da criança.[2]

 

Uma vez tratados ou transformados, os conteúdos seriam devolvidos ao bebê, seja através de atos de cuidado, seja através de palavras, sentimentos ou mesmo pensamentos. O bebê introjetaria não só os conteúdos já transformados pela mãe, mas seu método de elaboração, sua “função alfa”[3].

 

2. Uma clínica do continente, não do conteúdo

 

Essa nova clínica bioniana também valoriza a emoção, os afetos postos em marcha pelos diversos aspectos dos relacionamentos. Para seguir com nossa metáfora “estomacal”, diríamos que as “paredes” desse estômago mental que vai se constituindo são formadas pelos “músculos” dos afetos. Quanto mais relação, maior a riqueza da rede de afetos; quanto maior essa rede afetiva, mais conteúdos ela é capaz de elaborar (digerir).

 

Isso permite pensar a clínica como uma relação focada não nos conteúdos, mas na capacidade de elaboração desses conteúdos (o “continente”, aquilo que contém – não o que é contido). Ou, o que vem a dar no mesmo, na capacidade de transformação/expansão do paciente em relação à suas próprias narrativas.

 

Isso porque as narrativas do paciente seriam expressão do estado atual de sua função alfa (sua capacidade de digestão mental). Assim, a capacidade de transformação da narrativa do paciente indicaria também, por si só, expansão da função alfa.

 

Dito de outra forma, a expansão de mundos possíveis (como diz Antonino Ferro), a expansão da narrativa, a maior capacidade de sonhar os próprios acontecimentos, são todos indicadores de transformação, independente dos conteúdos que preenchem cada momento. Não importa tanto se os conteúdos são agora mais verdadeiros, mais adequados à realidade ou entram menos em conflito uns com os outros, mas sim que houve expansão da capacidade de lidar com os conteúdos. Como consequência, pode ser que eles adquiram todas aquelas qualidades (menor conflito entre si, ou entre eles e a realidade, etc), mas o importante aqui foi a expansão da função alfa.[4]

 

3. Uma clínica da relação

 

E como propiciar essa expansão narrativa? Através, basicamente, da adequação em sintonia fina do terapeuta às necessidades do paciente, em termos de seu aparelho mental. Ou, por outra, através da qualidade da relação terapêutica.

 

Em pacientes muito regredidos – psicóticos -, que não dispõe ainda de um aparelho mental (digestivo), a relação terapêutica deve repetir de certa forma aquela relação inicial mãe/bebê, realizando – não apenas interpretando – os entendimentos e a acolhida que o próprio sujeito não consegue fazer com seus próprios conteúdos.

 

Em pacientes que já dispõe de aparelho mental, pode acontecer de certas situações extrapolarem sua capacidade de elaboração, e então torna-se necessário o uso de defesas, que são soluções “caras” demais – funcionam por um tempo, mas com um custo muito elevado. Nesses casos a relação terapêutica deve procurar expandir o aparelho mental já existente, permitindo que novas relações se estabeleçam e que as defesas aos poucos se tornem desnecessárias.

 

Finalmente, em pacientes com aparelho mental suficiente – e esses seriam os neuróticos -, muitas vezes trata-se apenas de “calibrar” o funcionamento da mente, que pode ter soçobrado diante de alguma crise, ou pode ter áreas cegas de “indigestão” forçando soluções mudas, que necessitam de maior trânsito narrativo para se transformar.

 

***

 

O que acho interessante nessa proposta de Bion é que ela reapresenta a psicanálise, por assim dizer, em outras bases. Não se trata mais de conteúdos, mas do continente, isto é, daquilo que “pensa” os conteúdos, daquilo que produz os conteúdos, daquilo que os liga. Com isso, muitas críticas à psicanálise caem por terra – como por exemplo a crítica esquizoanalítica – por se basearem em conteúdos: “não se trata da família, não se trata de édipo, mas do político, do social”, etc. De forma muito semelhante, Winnicott já reapresentava a psicoanálise em termos de relação, deixando os conteúdos (o édipo, a pulsão) em segundo plano.

 

Mas, para mim, o mais importante é a transformação que Bion trouxe à prática clínica, que é o que me interessa, no final das contas. Porque, ao realizar esse “giro” da psicanálise sobre si mesma, privilegiando o “aparelho para pensar” e não “os pensamentos” (os conteúdos da mente), é toda uma nova clínica que surge, a qual, por óbvio, centra-se menos nos conteúdos que o paciente traz do que na qualidade da relação, por exemplo.

 

Autores como Antonino Ferro vão fazer um uso interessantíssimo dessa possibilidade. Assim, para encerrar, coletei alguns trechos de seu livro “Evitar as emoções, Viver as emoções” (Artmed, 2011), apenas para exemplificar uma diferença[5]:

 

 

“A interpretação (…) necessita estar em consonância NÃO com a verdade do analista, mas com a capacidade do paciente de assumí-la” (pg 56)

 

“O crescimento da mente não é mensurável pela quantidade de aquisições de ideias novas, mas pelo aumento da disposição em acolhê-las” (pg 59)

 

“Considerar o homem não como dotado de uma pulsionalidade transbordante (…) mas exatamente o contrário: o problema de espécie Homo sapiens é o de ter uma mente que tem necessidade de cuidados para se desenvolver, e cujas falências de desenvolvimento levam às várias modalidades de evacuação dos elementos beta não transformados” (pg 59)

[nota: elementos Beta seriam os dados brutos que chegam à mente, ainda não transformados pela ‘função alfa’]

 

“Nosso aparato mental é inadequado para o nível geral de nossa espécie, portanto o que é considerado pulsão ou instinto de morte poderia ser somente o resultado da atual inadequação da capacidade da espécie em transformar os estímulos sensoriais” (pg 60)

 

Notas

 

[1] Não estou dizendo que os resultados não podem ser também linguísticos, mas que muitas vezes a realidade ultrapassa o dito. Percebemos (ou utilizamos) coisas que estão além de nossa compreensão/linguagem.  O funcionamento de nossos órgãos, por exemplo: há muito que ignoramos, mas eles continuam ali, funcionando (provavelmente) como sempre – independente do que podemos dizer deles – ao menos relativamente. Não há acoplamento perfeito entre a realidade e o dito, e dizer que só percebemos o que existe na linguagem NÃO resolve o problema, ao menos do meu ponto de vista.

[2] O Onírico é redescrito por Bion como uma função da mente que acontece o tempo todo, e que de certa forma coincide com esse trabalho de dar figurabilidade, de transformar em imagem, todo o mundo sensorial. Esse trabalho estaria na base da capacidade de SEPARAR o consciente do inconsciente; seria através da linha contínua de imagens que o onírico cria que ics e cs se separariam, o que tornaria possível, entre outras coisas, o dormir e o estar plenamente acordado. Trata-se de uma hipótese cheia de consequências, que no entanto não cabem neste post.

[3] Uma analogia possível seria com as enzimas que existem já no corpo da mãe e são passadas à criança quando ela nasce, ou, em algumas espécies, quando a mãe alimenta a criança.

[4] Esse ponto nos leva a uma proposta muito interessante de Bion, que poderia ser utilizada na questão da nota [1], como segue: o problema não seria tanto ter pensamentos acerca do real, mas sim constituir um sujeito (uma mente) capaz de suportar esses pensamentos. Nossa percepção da realidade estaria distante da realidade mesma em função da nossa incapacidade de sustentar um pensamento “mais real” (o que o aproxima de Nietzsche). Nosso “estômago mental”, efeito do somatório e da qualidade de nossas relações (e aí entra todo o social), suportaria apenas uma quantidade X de pensamentos; para avançar, teríamos que avançar em termos relacionais – não apenas intelectuais – , rumo à uma maior capacidade de elaboração. Bion chega a dizer que os pensamentos (a realidade?) já existem; falta apenas alguém para “pensá-los”.

[5] Imagino que colegas que sigam outras linhas de terapia / psicanálise possam achar que, no fundo, não há diferença alguma – ou que a diferença é apenas linguística, ou conceitual, talvez um ponto ou outro apenas seja diferente, etc. Eu concordaria. Como disse no começo, há um abismo entre a prática e a teoria, e escolas diferentes podem chegar às mesmas práticas, assim como praticantes da mesma escola podem ser muito diferentes. Acho que vale aqui a afirmação do uso: não importa tanto o que diz tal ou qual escola, mas sim o uso que faço dela. Em geral, tenho pensado as teorias psicanalíticas como suportes para uma prática, isto é, como simplesmente um ponto de apoio, ou de descanso, para uma mente que, em atendimento, deve se reinventar a todo instante.

4 Respostas para “Análise e expansão narrativa – um sobrevôo pelo pensamento de Bion

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