O tempo (duas velhas)

duas velhas

Nesses dias quentes de final de agosto, o calor extemporâneo cedendo lugar ao frio e à chuva, estaciono o carro e aguardo, enquanto minha esposa compra algo num mercado perto.

Cansado, observo duas velhinhas passarem ao lado, uma apoiada na outra, andando devagar, quase se arrastando.

Então rascunhei o poema duro que abaixo transcrevo:

***

“Duas velhas caminhando

As peles soltas, encarquilhadas

Cheias de manchas

Secas, até de vida

Duas velhas sem lugar

Falando de um tempo que já foi

Falando num tom que já não é de hoje

Resmungando

Velhas por dentro e por fora

De uma velhice surda, estática, sem glória

Feias, sujas, maltratadas

Simplesmente: velhas

Não pude deixar de pensar que o tempo

Nos maltrata como nenhuma outra ferida

Nos esfola, nos destrói

Nos esgota

Vendo as duas velhas

Que algum dia foram moças, e talvez belas

Pensei: Carpe diem, meu amigo

Que só o tempo é rei

E somos todos tolos, vassalos, em suas masmorras”

***

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