O Tronco e os ramos – Renato Mezan

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Agora, a coisa fica séria. Não conheço nada tão amplo e ao mesmo tempo tão atento aos detalhes quanto este livro no esmiuçar a obra freudiana, procurando demonstrar com fineza uma única tese, suficiente para organizar todo o desenvolvimento pós-freudiano: existiriam quatro modelos de teoria psicanalítica em Freud, e cada escola de psicanálise teria se filiado principalmente a um desses modelos. Daí as brigas, os desentendimentos, as querelas.

Assim, cada escola teria desenvolvido um dos “Freuds” existentes, focando-se também no tipo-padrão de doença psíquica que Freud utilizou para exemplificar seu modelo: Lacan teria desenvolvido o primeiro Freud, o associacionista, e a doença-padrão seria a Histeria; a escola das relações de objeto teriam desenvolvido o segundo Freud, o narcisista, e a doença-padrão seria a psicose. Melanie Klein teria continuado o Freud da melancolia, sendo essa a doença tipo dessa escola. Por fim, a escola do ego seria a continuação do modelo da neurose obsessiva.

De fato, qualquer um que lance um olhar à psicanálise não pode deixar de se surpreender com as diferenças existentes entre as escolas, e com o fato de todas serem – ou se pretenderem… – psicanálise. Buscando responder a esse estado de coisas, Mezan lança a hipótese dos “quatro Freuds” e da ligação de cada escola com um desses desenvolvimentos.

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Independentemente do acerto dessa hipótese, o livro vale pela acurada análise que faz sobre a teoria psicanalítica em Freud, e pela luz que lança sobre seus desenvolvimentos posteriores. Tanto que creio que se trata de uma obra “irresumível”, uma vez que o livro já é em si um resumo de 40 anos de teorização freudiana. Mesmo assim decidi publicar as notas que seguem; talvez elas estimulem alguém a encarar a obra original – o que, repito, vale muito a pena.

Vale dizer que o livro apresenta ainda uma releitura d”A piada e sua relação com o inconsciente” que é simplesmente incrível, e permite fundamentar uma visão de prazer menos “retentiva” (ou ligada à posse do objeto) e mais “integrativa” (ou ligada à uma transformação subjetiva, uma identificação com o objeto). Isso aproxima a psicanálise, por exemplo, de Nietzsche (e da esquizoanálise), ao propôr uma possibilidade de prazer como devir – o prazer que se ouve com a música sendo um “devir-musical”, por exemplo… mas isso é assunto para outro post.

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Mezan, Renato. O tronco e os ramos, 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014 

“Há em Freud quatro modelos metapsicológicos, cada qual baseado numa matriz clínica, e as diversas correntes psicanalíticas privilegiaram aberta ou veladamente um deles” (Apresentação, pg 13/14)

“Não se concebe que a mesma linha de pensamento possa ser prolongada por escolas tão diferentes entre si quanto o são os quatro grandes troncos que, ao longo das décadas, brotaram da raiz freudiana: a escola kleiniana, a lacaniana, a psicologia do ego americana e a escola britânica das “relações de objeto”.” (pg 26)

“Considerada do ponto de vista epistemológico, a obra de Freud se desdobra em quatro dimensões. Primeiramente, existe uma teoria geral da psique expressa em termos de um aparelho psíquico constituido por vários lugares ou instâncias em conflito entre si, e nos quais circula “algo” caracterizado em termos metafóricos como energia (…): há, portanto, uma tópica, uma dinâmica e uma economia psíquicas. Em segundo lugar, existe uma teoria da gênese e do desenvolvimento da psique, uma espécie de modelo esquemático universal, que cada indivíduo refaz (…): por exemplo, a sucessão das fases libidinais, a travessia do Édipo, etc. Em seguida (…), existe uma teoria das várias soluções possíveis para os conflitos fundamentais, soluções que determinam a emergência de estruturas neuróticas, perversas ou psicóticas, com suas fixações e defesas características (…). Por fim, há uma concepção do processo psicanalítico, isto é, das modalidades de intervenção capazes de modificar em certa medida o funcionamento psíquico.
Pois bem: considerarei fundadoras de escolas psicanalíticas aquelas obras que tematizam de modo original e coerente estas quatro dimensões”. (pgs 30/31)

“Assim, sugiro que, na esfera da psicanálise, uma teoria abrangente (…) deriva idealmente de três focos: uma matriz clínica particular, um determinado clima cultural, e uma leitura específica da obra de Freud.” (pg 34)

“Denomino “matriz clínica” um tipo determinado de organização psicopatológica, com sua estrutura própria, seus conflitos originadores e suas modalidades características de defesa. A matriz clínica básica de Freud é constituída pelas neuroses de transferência (…) Poderíamos mesmo ampliar esta ideia, considerando que em Freud se encontram não uma, mas quatro matrizes: a da histeria, a da neurose obsessiva, a da melancolia e a da psicose (…) me parece plausível a hipótese de que as matrizes clínicas das escolas posteriores estejam estreitamente correlacionadas com uma dessas quatro.” (pg 34)

“Freud não coincide integralmente com Freud, as hipóteses regionais que elaborou ao longo de trinta ou quarenta anos de trabalho não se harmonizam sem resto, e é justamente esta diversidade interna à doutrina de base que alimenta e legitima o debate” (pg 50)

[Aqui ele faz um apanhado histórico dos períodos da psicanálise; estou citando de memória, mas se não me engano haveria um primeiro período freudiano (até o narcisismo, mais ou menos), um segundo período freudiano (do narcisismo até a morte de Freud), um terceiro período, que seria o das escolas propriamente ditas, e um quarto período, o da superação das escolas. Abaixo anotei apenas o quarto período]

“4° período: 1975/80 até hoje: O traço principal deste período me parece ser a impossibilidade de caracterizá-lo de modo simples e direto (…); mais positivamente, creio que na atualidade se defrontem duas grandes vertentes na psicanálise.
A primeira parece prolongar o período das escolas, como se a barra dos anos 1970 não tivesse existido: nela encontramos os ortodoxos de todos os matizes (…). Para esta vertente, tudo se passa como se com Lacan, Klein ou quem quer que seja seu líder espiritual a psicanálise tivesse atingido um cume intransponível (…). Daí o aspecto repetitivo de suas contribuições, reduzidas no mais das vezes ao comentário e à ilustração. (…)
A segunda vertente é constituída por diversos autores que têm em comum mais uma postura que uma ligação doutrinal: são aqueles que ou transitam por diversos campos “escolásticos” para, com o resultado dessas excursões, construir seu pensamento (…) ou então escolheram trilhar uma trajetória própria. ” (pg 53)

“Greenberg e Mitchell trabalham com a ideia de que na psicanálise existem dois paradigmas: o pulsional e o relacional.
Ocorre que, quando Freud criou a psicanálise, sua concepção do funcionamento psíquico enfatizava nele, essencialmente, o papel da energia (…) A preeminênia é conferida ao movimento e àquilo que se move (a energia); aquilo para o que tende o movimento – o objeto – tem um papel secundário lógica, ontológica e cronologicamente. (…)” (pg 67/68)

Discutindo a origem dos conceitos em Freud, entende que a clínica foi UMA dessas origens, não a única.

“O que Freud fez, na minha opinião, foi criar uma teoria para a clínica, mas não uma teoria da clínica, e creio que esta foi uma das razões mais decisivas para que concedesse aos impulsos intrapsíquicos, e não ao objeto, o lugar central em seus diversos modelos do funcionamento mental.” (pg 77)

(Em nota, ele coloca Lacan na mesma posição)

Comentando o livro de Paul Bercherie – “Genese des concepts freudiens” – argumenta que “dois aspectos merecem reter nossa atenção, O primeiro é a oposição entre duas perspectivas de compreensão do espírito humano, que se organizam bem antes da psicanálise, mas das quais Freud e tributário: a perspectiva associacionista e a perspectiva globalista. Na primeira, ilustrada entre outras correntes pela psicologia dos empiristas ingleses, as operações do psiquismo são consideradas como resultando da combinação de fatores elementares” (…). Na segunda perspectiva, “é o conjunto que determina o sentido e a função de cada um dos elementos (…) Exemplos desta segunda maneira de conceber o funcionamento mental são as teorias vitalistas, espiritualistas, fenomenológicas (…)” – ele cita Bergson. (pg 79/80)

“Encontramos em Freud, segundo a interpretação de Bercherie, dois momentos bastante diversos, separados pela introdução da problemática do narcisismo. O primeiro seria francamente “associacionista”, o segundo marcaria uma evolução rumo a uma postura mais globalista” (pg 80).

“A ideia fecunda de Bercherie consiste em ligar cada um dos modelos metapsicológicos que distingue em Freud àquilo que chamo uma matriz clínica: assim, haveria um modelo baseado na histeria” – Lacan – “, um modelo baseado nas psicoses” – a escola das relações de objeto – ” , um modelo baseado na melancolia” – a escola kleiniana – ” e um modelo baseado na neurose obsessiva” – a psicologia do ego. (pg 83; notar que o nome das escolas eu intercalei na citação; eles estão mais abaixo no texto, intercalei pra ficar menor).

Comentando Bercherie:

  • Já em 1887, Freud neurofisiologista percebe que o histérico sofre de um excesso de energia (pg 102)
  • “Toda a teoria da libido está aqui em germe, e a preocupação de Freud nos dez ou quinze anos seguintes será a de explicar a origem deste excesso, bem como os seus destinos. Essa origem será finalmente localizada na sexualidade” (pg 102)
  • Porque considerar a histeria como matriz clínica da teoria da libido? (…) “Porque é na histeria que se verificam de modo mais visível os fenômenos que justificam as ideias centrais da metapsicologia de então – a de deslocamento da energia e a de adesão desta energia a representações que, por esse motivo, se tornam hperintensas (processo primario). O desprazer provocado por tais representações motiva a sua repressão, e esta é a razão de o funcionamento em processo primário ser inconsciente: as primeiras invenções originais de Freud são precisamente os conceitos de inconsciente e de defesa” (pg 103)
  • “A noção de “energia nervosa”, ainda que relativamente vaga, permite construir uma ponte entre o psíquico e o corporal” (pg 103) – o que interessa ao Freud médico, neurologista.
  • Vemos assim como o problema da energia e dos seus destinos é o eixo básico do sistema. (pg 104) (o problema da energia) – “É essa a matriz epistemológica do conceito de inconsciente, ou melhor, do conceito de processos inconscientes. (…) O grande problema a que Freud se esforça por trazer uma solução é: por que e como surgem, se organizam e sobrevivem os processo inconscientes? A resposta, desde 1894, se encontra na ideia de repressão”. (e…) “a repressão é tributária das ideias-base de energia”. (pg 104)
  • “A repressão consiste exatamente em separar, de uma representação, o afeto concomitante; o “novo emprego” desta quantidade de excitação determinará o tipo de “neuropsicose” que vai se instalar – a conversão somática produz uma histeria, a transposição para outras represenações produz uma neurose obsessiva, (…) a projeção sobre outra pessoa (..) produz uma paranoia, e assim por diante”. (pg 105)
  • “Aqui vemos com clareza como a metapsicologia (o ego, o traço mnêmico de uma representação e o conflito entre ambos) condiciona a concepção da psicopatologia” (pg 105)

Resumindo então: A base [do primeiro sistema] é o problema da energia ligada às representações. O histérico sofre de um excesso de energia, originado da sexualidade. Esse excesso torna as representações dolorosas (aumento de energia = desprazer), e por isso elas são reprimidas e vão para o ics. Repressão significa separar a representação do afeto concomitante (ie, de sua energia). O destino dessa energia reprimida (separada) determinará o tipo de neurose: sua conversão somática constituirá uma histeria; sua transposição à outras ideias originará uma neurose obsessiva (ou uma fobia); sua projeção sobre outra pessoa originará uma paranóia (a pessoa passa a ser o perseguidor), etc.

As psicoses  (passagem para o segundo grande sistema, mais generalista

Jung começa a se comunicar com Freud. Sua clínica é composta por psicóticos, ao passo que Freud pouca experiência tem com esses pacientes. Jung nota que a simples extensão do paradigma sexual não parece funcionar com a psicose. Freud recorre ao conceito de auto-erotismo para tentar solucionar esse enigma (pgs 109 a 112)

Sobre o ego do primeiro modelo: “Ele é uma organização de representações constantemente investidas; é precisamente esse caráter estruturado que lhe permite opor-se ás ideias “incompatíveis”, e portanto exercer a função de agente da defesa, em virtude do desprazer que seria provocado se tal ideia se tornasse consciente. Por isso mesmo, é também o agente da resistência à rememoração dos eventos traumáticos, e portanto uma adversário do processo analítico” (pg 112/113)

Nesse segundo modelo: “O ponto crucial é a ideia de que a libido retirada de uma representação não se desloca para outra representação (…) mas retorna ao ego. (…) Ora, se a libido retorna ao ego, é porque originalmente saiu dele, e com esta ideia a noção de autoerotismo muda inteiramente de sentido” (pg 114)

“Freud insiste que a libido não é autoerótica enquanto dispõe de um objeto, seja este real ou imaginário, o que significa que a regressão da libido só se torna autoerótica quando atinge um ponto aquém das fantasias, a saber o ego. Logo, este não está mais sendo concebido como uma “organização da representações”, como o era no primeiro modelo”. (pg 114/115) . No entanto, depois, Freud teria voltado atrás e concordado com Jung, ao considerar o “autoerótico” como o investimento dos objetos de fantasia (ver “Dois princípios do funcionamento,…” E pg.s 124 do texto do Renato.

A ideia de regressão já existia no primeiro modelo. Mas agora ganha outro contorno, porque no novo modelo trata-se de uma regressão globalista, e não parcial, mecânica; é o sujeito como um todo que regride, e não uma parcela independente e separada.

“Há uma grande diferença entre a regressão espacial da excitação (tópica) e a regressão a “modos de expressão ou de comportamento” menos estruturados e diferenciados: esta última só pode ser predicada de um sujeito, enquanto (…a primeira…) prescinde inteiramente da ideia de sujeito.” (pg 116)

“Freud dá aqui o sinal de largada para a construção de um modelo globalista” (116)

Durante os anos seguintes assistiremos ao esforço de Freud por conciliar os dois modelos, o que, para Bercherie e Laplanche, estaria fadado ao insucesso (pg 116)

Freud compreende que na psicose há imobilidade da libido, como apontava Jung; mas “o golpe de gênio de Freud é compreender que essa imobilidade não indica ausência, mas bloqueio. (…)Ora, bloqueio onde? No ego, diz Freud, e não em representações” (pg 117)

Muda também o estatuto da realidade: Uma primeira ideia de realidade a apresenta como o lugar aonde o desejo/necessidade pode se realizar, e a fantasia é uma tentativa primeira , falha, dessa realização. Assim, tenho sede, sonho que bebí água (fantasia) e isso me satisfaz por um tempo. Mas a sede volta, e então preciso acordar e buscar (na realidade) a água. Depois de 1909, a realidade passa a ser aquilo que não satisfaz nossos desejos (sexuais). O insuportável, que antes estava nas representações “incompatíveis'”, agora está na realidade. (pgs 118/122)

“A introdução do princípio da realidade deixa um resto, assim descrito por Freud: (cita) com a instalação do princípio de realidade cindiu-se uma espécie de atividade de pensamento, que se manteve livre da prova de realidade e permaneceu submetida somente ao princípio do prazer: é a fantasia” (pg 122)

“Paul Bercherie nota com razão que, embora o vocabulário seja idêntico ao do primeiro modelo (…) deu-se uma torção capital nos fundamentos da metapsicologia (…) Porque a perspectiva mecanicista-associacionista característica do primeiro modelo é acrescida de uma outra, que de início parece complementar, mas na verdade lhe é oposta: a evolucionista-globalista.” (Pg 122/123)

(notar como isso aparece no texto do narcisismo: Freud fala de um aparelho psíquico que funciona pela alucinação na criança, e só aos poucos passa ao regime do princípio de realidade, MAS NESSE MEIO TEMPO SOBREVIVE PQ É CUIDADA PELO AMBIENTE. Isto é, sem os cuidados do ambiente o desenvolvimento não se processa, e Freud o reconhece. Essa passagem do primeiro ao segundo modelo implica nesse desenvolvimento de uma perspectiva associacionista para um mais globalista, e é isso que Winnicott gostava, acho. Depois Freud meio que retorna à pulsao (mais associacionista) com a pulsãod e morte, daí seu abandono por W.?)

“Com seu primeiro modelo, Freud conseguira dar uma descrição da vida psíquica que, embora envolvesse a noção de desejo, tratava este último como um dado essencialmente quantitativo e automático, sem que fosse necessário formular a pergunta: quem deseja? A meu ver, se há um sujeito no primeiro modelo, ele é a energia psíquica, e não algo semelhante ao sujeito da filosofia” (pg123)

“O conceito de narcisismo já nasce marcado com o selo da ambiguidade: por um lado, ele constitui uma etapa na sequência 1) pulsões autoeróticas / 2) narcisismo / 3) escolha de objeto homossexual / 4) escolha de objeto heterossexual. Esta sequência não contradiz o postulado associacionista (…). Nesse sentido, a gravidade da patologia será determinada pelo grau de regressão da libido (…). Aqui, no entanto, se introduz um elemento complicador: nas neuroses, a libido regride até as fantasias; na paranóia, até a fase do narcisismo; na demência precoce, até a fase autoerótica. Ocorre que as fantasias não são uma ‘fase’ (…) O texto dos ‘Dois princípios’ é claro a este respeito: a vida de fantasia é um dado permanente do funcionamento psíquico (…) O que se passa é que Freud está trabalhando com duas perspectivas diferentes: numa, mais próxima do primeiro modelo, houve o acréscimo de uma nova etapa no caminho da libido (…); na outra, mais ligada à elaboração sobre as psicoses, o decisivo é a questão do grau de afastamento da realidade.  ” (pg 126)

Outra questão: no primeiro modelo, infantil = parcelar, e as pulsões parciais se unificavam primeiro num objeto externo (a externalidade e a unificação coincidiam)

“Ora, o que ocorre no segundo modelo? Rompeu-se a equação ‘infantil = parcelar’, já que a etapa do narcisismo corresponde a uma primeira unificação das pulsão ‘até então autoeróticas’. Correlativamente, o objeto destas pulsões não é mais um objeto externo, mas ‘si mesmo’, ou ‘o próprio corpo’, ou, como vimos, o ‘ego’. (…) Introduziu-se assim um objeto de tipo novo, inexistente no primeiro modelo, a saber o ‘objeto unificado não externo’ ” (pg 127)

“A grande novidade é a noção de selbst, si mesmo, que introduz uma perspectiva da qual Freud procurara manter distância até então: a perspectiva globalista. O “amor de si mesmo”, obviamente, pressupõe uma reflexividade, um sujeito que ao mesmo tempo é objeto. Essa dimensão estava inteiramente ausente do primeiro modelo: não se pode dizer de um aparelho psíquico que está apaixonado por si mesmo” (pg 127)

Ele faz praticamente uma oposição entre os conceitos de libido (ou pulsão) – característicos do primeiro modelo – e ‘si mesmo’ – característico do segundo. (pg 130)

Uma das origens do narcisismo seria não a libido ou a pulsão, mas o resultado da projeção sobre o bebê do narcisismo dos pais (pg 130)  [comentário meu: ou seja, o narcisismo seria algo por essência relacional – E NÃO, PULSIONAL.]

Um ótimo exemplo da outra grande novidade deste modelo: “o amplo remanejamento da noção de objeto, a partir do momento em que na série deles se coloca o objeto narcísico – novidade que também pode ser avaliada pela inclusão, nesta mesma série, dos ideais como objeto de amor, e, mais ainda, do “ego ideal” como uma formação psíquica herdada do “amor próprio” (Selbstliebe) de que era alvo o ego “real”. (pg 130/131)

AQUI FICA CLARO COMO A PULSÃO ENDÓGENA NÃO É SUFICIENTE: UM OBJETO PSÍQUICO (INTRA) É FORMADO A PARTIR DA ENERGIA – AMOR – DE QUE ERA ALVO O EGO REAL. MAS ESSE AMOR VEM DOS PAIS (EXTRA), ISTO É, HÁ TROCA ENTRE INTERNO E EXTERNO TBÉM A NIVEL LIBIDINAL (???)

A separação entre a fonte e o objeto da pulsão se daria no narcisismo: “No regime auterótico, o objeto ainda está indiferenciado da zona erógena: é nela que a pulsão se satisfaz [p. Ex., os lábios que se beijam a si mesmos, etc], portanto é nela que consiste o “objeto”, portanto ele a rigor ainda não “existe” (pg 132)

VER QUE P/ W A EXTERNALIDADE, I.É, O OBJETO, SURGE DA RELAÇÃO COM O AMBIENTE, A AGRESS, A ONIPOTÊNCIA, O CUIDADO… isto é, não dá pra separar o ambiente do desenvolvimento.

“É com a aparição do narcisismo que vai surgir um objeto realmente heterogêneo à pulsão, isto é, o ego – que será simultaneamente investido pelas pulsões e adversário delas. É toda a questão da “libido do ego” que aqui se introduz, juntamente com o problema de saber se existe ou não um grupo de pulsão “do ego” – portanto, não sexuais – capaz de se opor às pulsões sexuais” (132/133)

(Há uma ligação forte entre narcisismo e onipotência; será que não é a mesma coisa? As quatro formas que Freud apresenta para o narcisismo – amo o que sou, o que fui, o que queria ser e uma parte de mim (um filho – ver pg 130) – não seriam formas da onipotência? O que sou, com a onipotência que tenho em reserva; o que fui, porque me imagino melhor; o que quero ser, pq lá serei mais onipotente; uma parte de mim, pq nela projeto as perfeições que acho que tenho. Assim, a onipotência seria o traço distintivo do narcisismo (e da Vontade de Poder de N?). Ver importancia da onipotencia em W)

Notar que esse segundo modelo muda tudo (por isso é um modelo…): a nosografia , a divisão básica entre as patologias, deixa de se estruturar em função da repressão e passa a se dar em função do grau de regressão da libido, sendo que a oposição se dá entre o grupo das psicoses e o das neuroses em função da transferência utilizável em cada caso (nenhuma na psicose, alguma nas neuroses). Tbém o processo analítico muda, pq agora a transferência é o principal veículo da mudança; antes era a interpretação (pg 135)

Sobre aquela mudança no estatuto da realidade: “na tentativa de reproduzir a experiência de satisfação, o aparelho psíquico era conduzido – pela via da reminiscência – à alucinação e a uma descarga motora (a “ação específica induzida pelo fracasso da alucinação em propiciar a satisfação esperada). Já no modelo que toma como matriz clínica as psicoses, o processo primário, sob o domínio do principio do prazer, obedece a um regime puramente autístico : sexualidade, fantasia, autoerotismo e ego estão vinculados entre si, e opostos ao regime de funcionamento que leva em conta as exigências da realidade. Neste segundo regime, subordinam-se ao domínio do princípio de realidade as pulsões de autoconservação, o processo secundário, a sublimação (…). A ação coloca-se assim no polo contrário àquele em que se situa o funcionamento espontâneo do psiquismo, de onde o problema de saber o que nos conduz a sair da alucinação e a tolerar a adaptação às circunstâncias “reais” (137) [resposta de Winnicott: a manutenção da onipotência interna (acho), isto é, uma “submissão” à realidade para melhor controlá-la, e assim manter a onipotência ao menos imaginada]

A neurose obsessiva

Com a análise da neurose obsessiva, base do terceiro modelo, Freud retorna à ideia de que o funcionamento mental busca a descarga imediata da tensão, abandonando tanto o 1° modelo mental (alucinação seguida de ação específica) quanto o segundo (funcionamento autístico do p. prazer e p. realidade separado). Isso a partir da suposição de que na obsessão o ato regride ao pensamento, o pensamento (obsessivo) substitui o agir. (pg 144)

Característica da obsessão é tbém que nela o que é recalcado é o ódio, não uma representação ou impulso sexual. E é recalcado PELO AMOR (isto é, pelo sexual) (pg 142)

NOTE QUE O AMOR INIBINDO O ÓDIO É EXATAMENTE O QUE PROPÕE WINNICOTT!!!!

“o pai da horda é a encarnação mesma da onipotência – não conhece limite algum à realização dos seus desejos – mas esta se encontra dissociada do autoerotismo, que é o regime de desejo a que estão condenados os filhos (…). Por sua vez, o ódio predomina na atitude dos filhos frente ao pai; ódio contido pela força bruta desse pai” (148)

  • Pq não conhece limite? E a realidade?

“No assassinato primordial confluem, assim, dois elementos que no “homem dos Ratos” permaneciam ainda dissociados: a presença de um ódio inassimilável à sexualidade, e a tendência à descarga impulsiva como conteúdo do princípio do prazer. Mas a descarga impulsiva exige um objeto que não é o próprio eu (…) Ora, se tal descarga é uma liberação de ódio, começa a desenhar-se um vínculo entre o ódio e o objeto” (149)

[COMO SUGERE W, A AGRESS TEM A VER COM A EXTERNALIDADE, A SEPARAÇAO EU-OBJETO]

A evolução da teoria sempre se deu enfocando a oposiçao entre o sexual e algum “adversário”: nos escritos dos anos 1890, o adversário era o ego, depois a “necessidade” (nos 3 ensaios), depois, a realidade frustrante (nos escritos do segundo modelo) (pg 153)

“As coisas se complicam quando entra em cena o narcisismo, porque este consiste (também) num investimento libidinal. Ora: se ele é objeto das pulsões sexuais (…), se a passagem da libido pelo ego no seu caminho para os objetos a marca com um timbre específico (a tendência à superestimação e à idealização), como sustentar uma oposição frontal entre pulsões sexuais e pulsões do ego? (pg 154)

“Em resumo: neste segundo modelo, o ego ocupa um lugar dos mais ambíguos, em parte como agente da realidade, mas principalmente enquanto etapa intermediária no caminho da libido” (154)

“Laplanche mostra como Freud trabalha com duas acepções do termo “sadismo”, uma conotando o fator agressivo, não sexual, outra mais ligada ao prazer propriamente sexual. O objetivo de Laplanche é demonstrar que a teoria do sadismo é conforme ao esquema do apoio das pulsões sexuais sobre uma atividade não sexual” (155)

Citando Freud: “Mas a psicanálise parece mostrar que infligir dor não desempenha papel algum entre as finalidades originalmente perseguidas pela pulsão” (sádica). A criança sádica (…) não se preocupa em infligir dor, não é a isso que ela visa” (156) – citado de Freud “pulsões e destinos de pulsão”. Mezan segue:

“Ou seja, existe uma agressividade primária, independente da sexualidade e voltada para o objeto exterior, que a criança quer  apreender, dominar, eventualmente destruir, mas sem que nesse processo figure o objetivo sexual sádico de fazer sofrer o objeto” (156)

NOTAR COMO COINCIDE COM A AGRESSIVIDADE NÃO DESTRUTIVA DE W, BEM COMO QUE ESSA VONTADE DE DOMINAR PODE SER TRIBUTÁRIA DA ONIPOTÊNCIA, NÃO DA SEXUALIDADE

Comentando Freud: “A princípio, diz ele então, o ego é narcisista e indiferente ao mundo exterior, porque satisfaz suas pulsões em si mesmo (…) Essa situação se rompe sob a pressão dos estímulos internos insatisfeitos e da “recepção de objetos” (…). Segue-se, sob o dimínio do princípio do prazer, a absorção do “bom” em si e a expulsão do “Mau” para o mundo exterior – “bom sendo aquilo que causa prazer, “mau” o contrário (…) A introjeção dessas fontes de prazer, pois é disso que se trata, introduz já uma importante diferença em relação ao esquema da experiência de satisfação tal como a conhecemos do primeiro modelo: o esforço do ego é (…) o de “estar posto em sossego”, e não o de investir alucinatoriamente o traço mnêmico do objeto” (pg 159)

“O objeto, cujo encontro é exigido inicialmente pelas pulsões de autoconservação, faz sua entrada na fase do “narcisismo primário” sob o signo do ódio: (cita) não se pode negar que também o sentido original do ódio significa a reação contra o mundo exterior” (159)

[concorda com W; só não vê que essa agress tem que ser suportada pelo sujeito]

“a primeira reação frente ao objeto é evitá-lo, fugir dele, porque quebra a quietude narcísica” (160)

“já o ódio, como relação com o objeto, “é mais antigo que o amor” – ou seja, é a primeira forma de relação com o objeto. Note-se que, nascido da repulsa do ego narcísico ao mundo externo perturbador, o ódio não é uma força pulsional” (161)

Impressionante que ele tira isso tudo de Freud… até aqui ele concorda com W (o texto referência é o Pulsão e destinos….)

Até 1917 a identificação é apenas mais uma das defesas disponíveis; depois, passa a ser um momento fundamental no processo de subjetivação (169). Para Laplanche e POntalis, a identificação é a “operação pela qual se constitui o sujeito humano” (170)

Para ligar a identificação à sexualidade Freud analisa os estágios pré-genitais, valorizando o estágio da incorporação, pela qual o sujeito buscaria incorporar a si o objeto (o seio), daí derivando a identificação, que incorpora a si (ao ego) a representação do objeto (amado; amar o objeto identificando-se com ele) (171/2). Só que, como nota Mezan (174), nisso Freud mistura as etapas da libido (que vem do primeiro modelo) com o narcisismo (que vem do segundo modelo). Na verdade Mezan entende que a identificação não cabe bem em nenhum dos dois, configurando por isso outro modelo (o quarto).

Cita uma autora argentina (Diana Rabinocitch) que separa as escolas pós-freudianas em função da acepção de “objeto” que seguem nos textos de Freud. Seriam 3 acepções: o objeto do desejo, o objeto da pulsão e o objeto do amor, todos com sentidos diferentes. (174/176). Mezan conclui que o objeto da identificação é esse terceiro, o do amor, isto é, o “objeto total” (177).

[obviamente o ego seria uma soma das identificações do sujeito ao longo do desenvolvimento, isto é, dos objetos de amor que ele abandonou – e com os quais se identificou. Ver que aqui já não estamos mais no ego como somatorio de representações, já que se trata de objetos “totais”. É a perspectiva “globalista”]

[parêntesis: vou tentar fazer um resuminho dos 4 modelos, só pra fixar:

Primeiro modelo: representacional ou associacionista. Trabalha com “partes” relacionadas, de forma mecânica ou computacional (não-orgânica). A energia é o conceito central. Na patologia há uma representação super-investida (de energia) – esse superinvestimento provém do sexual – e como o aumento (de energia…) significa desprazer, essa representação é reprimida: separa-se sua ideia da emoção que a acompanha, e a emoção vai encontrar outro destino. Se for o corpo, trata-se de histeria; se for outra representação, é obsessão; se for uma pessoa, é paranóia (e a pessoa é o perseguidor), etc. Típico desse primeiro modelo é também a pulsão com sua soma de partes (fases pré-genitais, objetos, etc).

No segundo modelo, o grande personagem conceitual é o “sujeito”, isto é, Freud chega a uma concepção mais globalista, tratando da subjetividade como um “algo”, um “todo”, e não só como a soma das partes. Aqui entra o narcisismo, como justamente uma nova forma de ligação do sujeito com os objetos. Os objetos deixam de ser parciais, e passam a ser “totais”: pessoas, idéias, etc. A questão do afastamento da realidade (e do recolhimento dessa libido afastada no ego) passa a ser central na definição das patologias. Freud hesita em reconhecer o papel do “ambiente” como necessário ao desenvolvimento psico-sexual, mas quase chega lá. De fato, reconhece que o amor do sujeito a ele mesmo (narcísico) pode provir do amor que os pais tem pelo filho, representante, nesse caso, do amor (narcísico) que eles tinham por eles mesmos.

No terceiro modelo a grande mudança foi a percepção de que o ódio pode ser reprimido também, e não somente o sexual. Aliás, o sexual foi reconhecimento como repressor também. Assim, a “ambivalência” é o grande conceito desse modelo, onde avança a questão da relação do sujeito com a realidade (os objetos) – relação primeiro de ódio, pq a realidade perturba a paz narcísica do sujeito amando a si mesmo (o que é bem próximo de W.).

No quarto modelo o grande conceito é o de “identificação”, que no início era apenas uma defesa entre outras, e que agora passa a ser o operador fundamental para o surgimento do sujeito humano. A identificação se vincula com a incorporaçao, uma forma de relação muito arcaica com o objeto, que visava incorporar o mesmo – comê-lo – como forma “de amor” (um amor ainda misturado ao ódio / domínio, como se vê). Na incorporação, quando o objeto amado é perdido , seu representante é introjetado, isto é, o ego se identifica com esse representante, e assim o “amor” ao objeto – agora introjetado – pode ser mantido. Ele é incorporado psiquicamente. O ego seria justamente o somatório das identificações pelas quais passou o sujeito, isto é, a soma dos objetos de amor abandonados – e identificados – pelo sujeito. Assim, o ego deixa de ser somente uma soma de representações (1° modelo) para ser algo formado organicamente, por relações entre objetos totais.

Fecha parêntesis]

Com “Além do principio do prazer”, Freud remaneja tudo de novo: a sexualidade, que até então era o demoníaco, aquilo que ‘devia’ ser reprimido, agora passa a ser o bom, aquilo que liga, que leva ao objeto e à saída da autarcia, a saída do prazer do sujeito consigo mesmo. O ruim é a pulsão de morte, signo da repetição que se materializa nesse prazer fechado consigo mesmo. “Se no segundo modelo a sexualidade tinha um elo privilegiado com a fantasia [por isso tendia ao casulo], agora é ela que impulsiona o sujeito para fora de si e para o estabelecimento de laços com o que lhe é outro” (182)

Esse novo quadro pulsional resolve o problema de saber como a sexualidade pode reprimir o ódio: “as pulsões de vida, que subsumem a sexualidade e o amor, têm por finalidade exatamente tal inibição, através dos mecanisms da deflexão para o exterior e da intricação pulsional, isto é, da mistura (Mischung) entre pulsões de vida e de morte” (183)

“A ação do ódio, nesta nova versão, da-se a princípio em silêncio, e só mediante a fusão com as pulsões de vida é que ele chega a produzir satisfação libidinal (…) O caráter furioso da destruição provém de Eros, e o prazer de destruir tem um fundo narcísico – autoafirmação da própria potência – que demonstra sua vinculação com as pulsões sexuais” (183)

A pulsão de morte se expressa pelo desligamento, pela separação; e a pulsão de vida (e as sexuais) pela ligação, pela união, pela relação. Na nova concepção pulsional, a repetiçao é primeira em relação à pulsão; a pulsão é uma expressão da repetição, por assim dizer. Daí que a pulsão tende a repetir tudo, MESMO O DOLOROSO. Logo, a repetição está além do principio do prazer – que é o nome do livro…

“Esta mutação no conceito de pulsão, por sua vez, acarreta uma importante modificação no que tange à concepção do funcionamento mental: dominada pela repetição, a dinâmica pulsional tenderia apenas a reproduzir o passado, quer este fosse doloroso, quer prazenteiro – ou seja, o regime autístico mais absoluto. É aqui que intervém a função de ligação da excitação, que deve ser realizada para que esta possa ser “liquidada no processo de descarga”. Nas palavras de Bercherie (cita) a ligação não serve mais para instalar o controle do princípio de realidade sobre o impulso cego do desejo (como busca de prazer), mas para bloquear a repetição” (184)

[minha interpretação: Com a proposição da compulsão à repetição, Freud reafirma a primazia das pulsões, e abandona de vez o ambiente como primeiro em relação ao psiquismo. Isso pq, sendo expressão da repetição, as pulsões são de certa forma “causa de si mesmas”… não precisam mais do ambiente para nada]

“é certo que a presença do novo dualismo pulsional se dá na teoria de modo relativamente difuso” (187). “O único caso em que Freud discerne a ação visível da pulsão de morte (…) é precisamente o superego do melancólico” (186)

Comentando o texto “Psicologia das massas…”, cita que Freud reúne no “ideal do ego” quatro funções de natureza semelhante – a auto-observação, a crítica moral, a censura no sonho e a influência essencial no recalque. E segue: se o objeto, através da identificação, é instalado NO EGO, introduz-se no ego uma alteração, segundo o modelo do objeto perdido. Se o objeto é instalado NO IDEAL DO EGO, ocorre a idealização, sendo um dos exemplos o estado amoroso. “o objeto é conservado, mas vem ocupar o lugar do ideal do ego, não mais o do ego” (188)

(ver que as funções críticas, reunidas acima no ideal do ego, não serão mais exercidas por esse ideal (no enamoramento), daí ele sugerir uma nova instância… o superego)

Definição de Freud para uma multidão: “uma multidão primária é um conjunto de indivíduos que colocaram um mesmo objeto no lugar do seu ideal do ego, e, em consequência, identificaram-se no seu ego uns com os outros” (188). GENIAL!

Isso permite entender as identificações do assassinato do pai: “a gênese do ego e a gênese do superego dependem de identificações, mas não das mesmas identificações. Em relação à horda, fica claro que o pai devorado foi colocado no lugar do ideal do ego, em virtude do que os filhos se identificam entre si no plano dos seus egos – e, deste novo lugar, o pai terá um poder inibidor sobre os desejos dos filhos, o que o aparenta ao superego” (189)

[assim, os filhos querem ser o pai, e o incorporam – se identificam com ele – colocando-o no lugar de seu ideal, daquilo que eles querem ser. Desse lugar ele mantém as proibições de antes, com relação às mulheres, etc, agora reforçadas pela culpa de ter matado o pai (perdido o objeto). Mas ele foi perdido? Se ocorre identificação, ocorre a perda?)

“É muito importante, nesse contexto, notar que neste caso a ambivalência não tem qualquer relevo; para resultar numa identificação, o objeto não precisa ter sido perdido no ódio” (190)

“Como o superego herda do caráter violento do pai da horda a força necessária para reprimir o Édipo, conserva para sempre um caráter essencialmente brutal, e deste provém a hostilidade que marca suas relaçoes com o ego” (190)

CONFUSÃO, acho: o superego forma-se a partir da identificaçao com o pai, modelo narcísico; a força do pai é um atributo de desejo, mas essa força não “Passa” para a instância interior (Sego), mesmo que ela se identifique com o pai. A força do Sego deriva da força do AMOR pelo ideal. Quanto maior esse amor (narcísico), maior a força da instância dele derivada (o Sego), independente da força ou brutalidade do modelo incorporado. Se, por exemplo, me identifico com um modelo ALTO, nem por isso, ao incorporá-lo, eu me torno mais alto. Posso me pensar mais alto, me perceber mais alto… ou um modelo engraçado: posso me tornar engraçado, por incorporação, mas isso não quer dizer que o modelo incorporado (o Sego) será “engraçado” com as outras instâncias… acho que há confusão aí. A briga se dá entre o amor AO IDEAL e o amor AO SUJEITO, ao ego; a “força” relativa do Sego vai depender da relatividade dos amores entre si, o amor ao ego e o amor ao Sego, e NÃO dos atributos do modelo…

Comentando “inibições, sintoma…”, que trata do ego, sede da angústia, entendida como sinal de perigo necessário para que ele (o ego) se prepare para o perigo (a invasão de excitações intensas): “o que é interessnte para o nosso argumento é a oscilação entre uma concepção “quantitativa” da angústia, herança do primeiro modelo (…) e uma concepção mais próxima do quarto modelo, que leva em conta o fato de o objeto (materno) ser não somente o provedor da satisfação pulsional, mas também amado (…). Abre-se aqui, com toda a nitidez, o camino que conduzirá a escola das relações de objeto a conferir peso decisivo à qualidade das relações primitivas, e a rejeitar a teoria pulsional herdada do primeiro modelo” (193).

[tentativa de modelo do desenvolvimento (Freud):

1) a repetição faz com que as pulsões busquem o retorno de uma condição; a pulsão sexual desvia essa tendência, criando caminhos cada vez mais amplos para o retorno; esse ‘desvio’ acontece por LIGAÇÃO, ligando a pulsão a novos objetos (novos caminhos);

2) essas ligações vão complexificando o mundo interno da criança

3) nesse caminho ela encontra os objetos da realidade, e se apega a eles para ampliar o caminho da repetiçao (pulsão de vida) [logo, não vigora mais aquela questão do ódio indo primeiro em direção ao obheto, nem a coisa da mônada narcísica fechada]

  • até aí vai o modelo pulsional; deposi já tenho que falar segundo o modelo global, pois se trata do amor aos objetos de identificação

4) a identificação: o pai tomado como modelo (amado) e a mãe amada como objeto (? Pq?) são abandonados, e introjetados, o pai como ideal, originando o Sego, e a mãe (ou seus cuidados?) como parte do ego??? [pq o abandono do pai?]

Fecha parêntesis]

“Tanto em Inibição, sintoma e angustia quanto em “anasise terminável e interminavel” este (a quantitade) é sem dúvida o fulcro da discussão, o que, a meu ver, reforça a ideia de que para ele (Freud) o paradigma essencial da psicanálise ée o pulsional” (200)

(não anotei uma parte grande. Continuando)

Waelder teceu hipóteses sobre a psicose. Entendeu que não se trata do simples recolhimento da libido ao narcísico, mas do grau de quebra das fronteiras do ego. Liga então a psicose ao problema do ego. A criatividade teria a ver com esse recolhimento ao ego. Mas “A conclusão é que entre o pensamento criativo, o obsessivo e o delirante não há diferente de natureza, mas de grau: todos têm como pressuposto a regressão da libido ao ego, mas não na mesma intensidade” (pg 319). Sobre Waelder 317/319.

A psicologia do Ego nasce dessas questões sobre a psicose, mas enquanto Waelder propunha incentivar as sublimações narcísicas (reforçar o ego??), M. Klein propunha uma escuta atenta do sadismo (da agress) do sujeito. (pgs 317 até 321 mais ou menos)

Strachey falando sobre o processo analítico: primeiro se buscava reduzir a resistência, pq ela não deixava o paciente tomar cs dos conflitos; essa redução se dá por interpretação e principalmente pela transferência. O analista ocupa o lugar do superego de certa forma; é um substituto para os pais (o ideal, etc) e suas sugestões tem importância por causa desse lugar que ele ocupa. Daí que as interpretações que mudam o sentido das coisas para o paciente – interpretações mutativas – são as que importam e fazem funcionar a análise (ressignificação?) Fls 325/327

Prosseguindo, a primeira etapa dessa int. Mutativa seria fazer o paciente perceber que está atacando o analista, pois a transferência (que importa, ao menos) se dará em termos agressivos. O analista leva o paciente a perceber que este o está atacando, e que esse ataque não corresponde a uma situação real que o legitime, mas que é uma… transferência. Essa percepção acentua o valor da transferência presente, o aqui agora. Por isso a interpretação deve ser relativa ao presente, e pontual, concreta, relativa ao “ponto de urgência” que está sendo transferido. (329)

Falando sobre Ferenczi: orientava para uma escuta tolerante, cuidadosa, distante da escuta fria e reservada, pq essa reserva podia ser sentida como traumática pelo paciente. Qdo fazia essa escuta cuidadosa, via os pacientes repetirem sintomas ao vivo, na hora, de traumas muito antigos (isto é, uma catarse por regressão) (fls 342/347)

Essa repetição do passado no presente deve encontrar um ambiente diverso do anterior, quei foi justamente traumático. E a diferença básica é a confiança que o paciente estabelece com o analista

Coloca Ferenczi como fundador da escola das relações de objeto. “O fundamento para ambas essas posições radica numa visão segundo a qual a psique se constitui a partir de um núcleo relacional, e não mais pulsional: como dirá Fairbairn, a libido busca objetos, não prazer” (349)

2 Respostas para “O Tronco e os ramos – Renato Mezan

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