Religião e Cuidado

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Sempre fui um crítico da religião. Não que tivesse um motivo pra isso: simplesmente me parecia o lógico a fazer. Talvez também tenha sido levado a isso pelo “espírito do tempo”, como diziam os antigos.

 

Mas, com os anos, deixei de ser assim. É preciso se importar muito com alguma coisa para criticá-la, e minha relação com a religião não chega a tanto. Diria que mantemos uma distância cordial, respeitosa até. Mas ainda distância.

 

Isso não impede que de vez em quando eu me pegue pensando sobre religião. Não no sentido que imagino tradicional – será que existe um Deus, que forma ele teria, será que sou pecador, etc – mas com questões do tipo: qual a importância da religião? Que tipo de experiência foi veiculada pela religião? – etc.

 

Em resumo, analisando minha trajetória, diria que não compartilho a recusa decidida de tantos eruditos com respeito ao assunto. Talvez porque hoje a religião seja realmente um tema em baixa, e uma postura rígida já não seja mais necessária; talvez porque minha distância me permita perceber aspectos benignos da experiência religiosa.

 

***

 

Dia desses vi a nova filmagem do “A bela e a fera”, da Disney. Fiquei encantado com a força e a simplicidade da história. No meu entender, eles falam de muitas coisas ali – sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, sobre a complementariedade dos sexos, sobre a agressividade como defesa diante de uma situação emocional precária, sobre a emotividade como força, etc – até escrevi sobre o assunto – mas, repito, tudo isso de modo simples. Sem firulas, sem conceitos, sem enrolação.

 

Admirei a capacidade dos autores em passar essas mensagens – difíceis – com tanta simplicidade. E aí lembrei da religião – encarregada, por mais de dois milênios, de passar uma mensagem mais alta sobre a vida humana à uma população muitas vezes analfabeta, simplória, sem muita capacidade de compreensão.

 

E então me pareceu que a mensagem (geral) passada pela religião sempre esteve na direção correta; pois, no fundo, ela chamava a atenção para a importância do humano para o humano, isto é, a importância das relações, do amor, da tolerância, do cuidado… coisas que a psicanálise, hoje, também considera fundamentais (pelo menos aquela ligada à um Winnicott ou a um Ferenczi). [1]

 

***

 

Na psicanálise, o reconhecimento do ser humano como um ser altamente dependente do outro – mesmo no adulto, quando alcançamos (nos melhores casos) uma independência relativa – transforma a própria noção de “relação humana”, dando-lhe um lugar central no desenvolvimento e na vida. Daí que tudo que diga respeito às relações apareça como fundamental.

 

A religião, em geral, sempre realçou esse aspecto da dependência, ligando o sujeito ao seu grupo e ao divino num abraço humilde de dependência e adoração. O “outro”, como “Deus”, foi enaltecido, elevado, passando a ocupar um patamar mais alto. O reconhecimento dessa dependência, ao menos em algumas almas – penso nos grandes místicos, mas também em alguns pensadores, como Bergson, Dostoiévski, Emerson – proporcionou uma mistura incomum de religiosidade e independência moral. Nietzsche talvez – talvez – se inclua entre esses.

 

Em aberta oposição à isso temos o nosso ‘zeitgeist’, o contexto atual que parece insistir na tentativa de definir o ser humano como um ser autônomo, capaz de tudo por si só, absolutamente independente. Esse movimento, que talvez tenha raízes sociológicas ou econômicas mais amplas, ancora-se também na psicanálise na medida em que Winnicott percebe que o ser humano, embora dependa abertamente de seu semelhante, desejaria não depender, isto é, desejaria uma autonomia que lhe restituísse, ao menos na imaginação, aquela onipotência que ele acreditou viver na infância.[2]

 

***

 

Temos então uma situação curiosa, aonde a religião parece apontar para um lugar relacional mais maduro do que o contexto laico geral, e, no entanto, continua sendo criticada pela maior parte da assim chamada ‘elite intelectual’ – incluindo grande parte da psicanálise, que parece incapaz de separar o joio do trigo.

 

Não que a religião não seja criticável; ao transmitir “a palavra” como dogma, ela muitas vezes minava o próprio terreno que – acredito eu – buscava semear. O amor enquanto obrigação não tem nada a ver com o reconhecimento da dependência – só se ama realmente quando há entrega; e a entrega pressupõe um gesto espontâneo, uma confiança, que consuma, apesar de todos os riscos, a dependência.

 

Talvez tenhamos passado simplesmente de um extremo à outro – de um extremo fortemente focado no amor e da doação (ainda que impostos), abdicando de todo o resto (o material, por exemplo, que também poderia se inscrever como cuidado), a outro extremo em que o amor e a doação são vistos com desconfiança, e aposta-se todas as fichas no material como “solução” para tudo na vida.

 

Se é assim, talvez a psicanálise seja uma das maneiras de expressar um saudável meio termo, que reconhece os acertos do passado e do presente, e procura conjugá-los, valorizando tanto a autonomia (possível) do sujeito – que deve ser responsável pelo seu desejo, como se diz – quanto a importância da dependência, mesmo relativa, que em grande medida nos constitui.

 

***

 

[1] Ao menos é assim que ela me parece hoje, depois de ter perdido seu domínio sobre a cultura, como na idade média, por exemplo.

[2] Mais sobre isso neste link.

 

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