Crítica e Clínica, de G. Deleuze

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Mais um resumo, mais uma história. Resumi este livro nos últimos anos da faculdade, maravilhado com a riqueza e com a potência filosófica dessa corrente que se convencionou chamar de “esquizoanálise”. Eu era um leitor de Nietzsche, e durante toda a graduação aprendera a opôr a pegada mais aberta da obra nietzschiana à psicanálise, entre outras correntes mais ou menos demonizadas / dogmatizantes.

 

De fato, Nietzsche é uma espécie de perigoso experimento: e se tudo que se convencionou chamar de “bom” fosse apenas um preconceito? Talvez até um preconceito interessado, isto é, no fundo, uma mentira, necessária à seres como nós? Mais ainda: e se toda verdade, tudo que percebemos, todo o mundo, mesmo físico, à nossa volta, não fosse mais do que falsidade, que adaptação, que perspectivas interessadas, novamente? Por fim: e se toda ordem, toda constância, não refletisse mais do que aquilo que nós precisamos enxergar nas coisas – as coisas mesmas sendo bem diferentes do que aquilo que queremos encontrar nelas?

 

Nietzsche, de certa forma, contesta tudo, toda a história do pensamento até então, não tanto para negá-la como “mentira” – pois aonde se fundamentaria uma diferença entre verdade e mentira, se tudo é, no fundo, criação nossa? – mas para afirmar, justamente, a capacidade criativa do homem. Destruir, assim, era condição para criar. E era preciso destruir, porque toda ordem, toda ordenação, no fundo, exprimia apenas uma vontade de poder.

 

Toda “verdade”, ou todo sentido, seria expressão de que uma força se apoderou de algo e lhe imprimiu algum significado. As coisas em si não significam nada; apenas a relação de uma força com as coisas permite a significação. Assim, todo sentido, toda ordenação, expressará sempre uma relação de forças. “Nada é verdadeiro, tudo é permitido”. Toda afirmação que se pretenda “verdadeira” é, no fundo, apenas uma forma de apropriação de alguém. Não há verdades, só perspectivas, dizia Nietzsche.

 

Assim, a psicanálise, com sua obsessão por “édipo”, aparecia claramente como apenas uma tentativa de dogmatização. Enxergar édipo por toda parte não seria “verdadeiro”; seria apenas a expressão de uma estrutura de poder nos psicanalistas, na forma de vida que uniria os psicanalistas entre si. Assim, a psicanálise era facilmente refutada, em favor de uma possibilidade – necessidade? – perene de criação de tudo, de relativização de tudo.

 

***

 

Eu estava, como disse, no final da faculdade, e essa incitação a duvidar de tudo, a questionar tudo, casava imensamente bem com meu espirito juvenil. Com o passar do tempo, entretanto, comecei a duvidar inclusive desse “duvidar de tudo”, porque algumas coisas começaram a me intrigar – especialmente na clínica.

 

Porque do ponto de vista esquizo as coisas são tão relativas que… meio que ficamos sem critérios. ‘Tudo pode’ – o que é bom quando queremos criticar alguma coisa -, mas, ao mesmo tempo, ‘pode tudo’ – o que é ruim quando não sabemos nem por onde começar. Inventar as coisas é algo bonito de se dizer, desejar e seguir, mas, na prática, é muito difícil recriar tudo, todos os dias. Ainda mais quando levamos à sério a responsabilidade de ajudar alguém.

 

Então comecei a olhar mais para a “grama do vizinho”; comecei a perceber que a psicanálise era mais organizada que a esquizoanálise – tinha linhas de estruturação, evolução, critérios – mas ao mesmo tempo não era necessariamente dogmática. Esse ponto pode dar lugar para uma longa discussão (um outro artigo?), mas direi apenas que, ao se pretender científica, a psicanálise abandona imediatamente qualquer pretensão absolutista. Qualquer ciência, bem considerada, parte do pressuposto – humilde, mas real – de que a verdade é apenas uma meta inalcançável, mas que deve ser perseguida, sendo a ciência então esse processo infinito de aperfeiçoamento rumo à verdade.

 

No fim, essa “humildade científica” acabou por me parecer mais humana do que a recusa absolutista da esquizoanálise no que toca à verdade. Porque a esquizo recusa toda forma dada, toda estabilidade, em prol de uma perene criação de tudo. Ela destrói qualquer possibilidade de verdade, qualquer aproximação; nesse sentido ela é absoluta em sua recusa. Mas, a partir do momento em que relativizo tudo, o que me impede de relativizar a importância da própria relatividade? Porque, afinal, essa relativização esquizo está baseada em um absoluto…

 

***

 

A partir do momento em que me permiti trabalhar com o que parecia funcionar melhor para mim – não estou dizendo que seja o melhor “em si”… – a esquizoanálise ficou meio de lado, como uma curiosidade, uma filosofia talvez muito rica, mas pouco útil como prática clínica; talvez uma espécie de “fundo ético” tenha permanecido comigo, mas não propriamente o fundamento de uma escuta.

 

Outros terão outra história, outros “resumos”, é claro… Fica aqui a minha.

 

Deleuze, G. – Critica e Clinica

4 Respostas para “Crítica e Clínica, de G. Deleuze

  1. Ótimo, Rafa! Há, sim, uma leitura e uma produção mais delirante em cima da esquizoanálise, concordo totalmente. Mas há também uma leitura e um aspecto prudencial, menos em O anti-Édipo e mais em Mil Platôs, se bem avalio; mais especificamente, o texto que mais gosto está no vol. 3, sobre o conceito de CsO.

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  2. Pois acredito! De certo acontece aí o mesmo que naquela piada que o Leo sempre conta, sobre o Wittgenstein de saia; chega um interlocutor (Russerl?) e pergunta, surpreso: “mas O QUE é isso, companheiro? (Russerl versão paraguaia) – e Wittgenstein responde: “não importa a coisa, mas o USO”, kkkkk… algo que tanto Winnicottianos quanto deleuzeanos concordarão… 😀

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