A experiência da análise

divã

 

Conheço a análise pelos dois lados: como analista e como analisando, e gostaria de tentar passar a experiência de estar sendo analisado, conforme ela foi me aparecendo nesses últimos tempos.

 

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No início, achava que a análise seria basicamente revelação; eu saberia alguma coisa mais, entenderia as razões de minhas escolhas. Teria um ganho cognitivo, em resumo, algo da ordem do conhecimento.

Hoje vejo que isso até existe, mas é secundário. O principal mesmo é uma mudança afetiva, uma mudança na experiência de ser “si mesmo”; uma mudança naquilo que nos constitui.

Digamos que eu sentisse muita raiva; ficava revoltado com várias coisas, sofria pelo modo como as coisas eram, e isso me incomodava, pois era muito frequente. A análise, olhada de fora, era uma espécie de busca, de conversa, de diálogo, em torno desse sintoma.

Passado um tempo, já não me sinto mais assim; já não tenho tanta raiva das coisas, estou mais tolerante; não sofro com qualquer contrariedade, não me revolto mais tão facilmente. O que aconteceu?

Descobrimos, sim, algumas pistas, algumas hipóteses – ou até certezas – relacionadas às causas dessa raiva. Mas o principal – e isso seria a análise “olhada desde dentro” – foi uma mudança no meu ser.

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Fazendo uma analogia, é como se, antes, eu tivesse uma barrinha de tolerância quase vazia (penso naquelas barrinhas dos jogos de videogame); ela estava sempre baixa, então qualquer coisa que me contrariasse já ativava a raiva, porque não havia capacidade de elaboração, de digestão, psíquica. Agora, essa barrinha está quase cheia, ganhei envergadura emocional, ampliei minha capacidade de lidar com as coisas.

E o legal é que essa ampliação do emocional acontece sorrateiramente, sem que percebamos (ou controlemos) isso; um belo dia, quando nos damos conta, simplesmente crescemos, estamos mais tolerantes, mais alegres, mais leves; sabemos que isso não é um estado transitório, mas uma mudança em nosso ser, sentimos que, agora, nós somos assim, que ganhamos um pouco mais de confiança, e que mesmo que tenhamos dias ruins, ainda voltamos àquele ponto médio mais rico, que passa a ser nosso novo “normal”, nosso novo “Eu”.

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Dei o exemplo da raiva, mas multiplique isso pela quantidade de problemas que você percebe em você mesmo (…) – ou, melhor ainda, nos outros, no mundo -, e você terá uma imagem mais próxima daquilo que vai acontecendo, paulatinamente. Quando esses resultados começam a aparecer, você percebe que, de alguma forma, existe um processo acontecendo, e você começa a confiar nesse processo, a se entregar a ele.

Então, ir às sessões começa a ser algo mais fácil, mais livre, porque aos poucos desistimos de ter objetivos, metas – desistimos até de achar caro o valor da sessão… – e simplesmente nos entregamos ao processo. Sabemos que cada sessão é um passo adiante nesse caminho, e queremos seguir. E seguimos.

 

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Esse processo, assim como a mudança afetiva, é apenas percebido; não é algo que aparece, distinto, claro, mas uma impressão vaga, e no entanto certeira. Porque confiamos numa impressão assim, tão imprecisa? Talvez porque, em função de mais uma mudança decorrente da análise, passamos a ser mais emotivos, menos cognitivos.

 

Como assim? Antes, muitas questões eram respondidas em função de critérios externos: sua razoabilidade, sua eficiência, conveniência, etc… Chamei esse tipo de decisão de “cognitiva” apenas para contrastar com essa outra forma, a emotiva, que é mais centrada em critérios pessoais.

 

Eu quero tal coisa? O que eu sinto em relação à isso? Quais pensamentos me ocorrem? Esse tipo de coisa, menos organizada (cognitivamente) e mais auto-referida (emocionalmente), passa a ter valor, passamos a acreditar mais em nossa capacidade de avaliar as coisas pelo sentimento, valorizamos mais aquilo que sentimos e pensamos – numa palavra, aquilo que somos. Argumentos ainda valem, mas valem menos; nossa percepção, nosso sentimento, adquirem proeminência.

 

Em consequência, passamos a fazer muitas coisas, coisas novas, que sempre quisemos, mas não conseguíamos: porque pensávamos tal coisa, porque nos julgávamos despreparados… sentimentos, no fundo, que nos seguravam, que nos prendiam. Agora, outros sentimentos nos levam adiante, e isso permite uma mudança visível na postura, na atitude.

 

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Mudamos nossos afetos; nos sentimos bem conosco mesmos; nos permitimos fazer coisas que sempre quisemos; passamos a acreditar em nosso sentimento como critério; temos mais “estômago mental” para “digerir” o que acontece; deixamos de ser vítimas de nossas emoções (como no exemplo da raiva), e passamos a uma relação muito mais livre com elas, conosco, com tudo. Eis alguns benefícios da análise, todos, como se nota, ligados à afetividade.

 

E no entanto as pessoas parecem ter medo da análise. E tem mesmo. Isso mostra, no fundo, o poder dos afetos: vivemos como se eles fossem secundários, mas eles nos governam. Sabemos disso pelo medo que eles nos evocam (embora geralmente esse medo esteja projetado em alguma outra coisa; eu tinha raiva do mundo, no exemplo acima, como se o mundo fosse o problema; não era…).

 

A sociedade inteira vive uma espécie de recalque emocional bastante impressionante quando se percebe o papel que as emoções jogam conosco. Todos parecem dizer: “emoções são coisas de criança, coisas ‘de mulher'” (como se isso fosse pejorativo…). Mas basta olhar e ver que essas mesmas pessoas “duronas” estão ouvindo músicas que só falam de amor (sertanejos, mas também funks e raps – o sexo muitas vezes é apenas um disfarce para a emoção), estão exaltando a bebida (e o bêbado, todos sabemos, é sempre um cara emotivo), estão experimentando drogas (que nos permitem viver – e também calar – algumas emoções), e tudo isso é altamente valorizado.

 

É o mesmo que dizer que o afeto, em si, é altamente valorizado, mesmo que tenhamos que vivê-lo distorcido, indiretamente, “protegidos” com a ajuda desses intermediários. Mas – e aqui falo como analista – em muitos casos seria bem mais saudável poder viver os afetos sem disfarces. Porque o que perdemos ao adotar muitos subterfúgios com eles é, muitas vezes, um tanto de vida que não voltará mais.

 

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Enfim, sem teorizar muito e baseado na minha experiência, eis a análise: uma mudança na estrutura afetiva que compõe o sujeito, levada a cabo numa relação específica, que nos permite maior envergadura emocional para lidar com a vida em todos os seus aspectos. Vale a pena? Tanto quanto vale a pena poder viver a vida desembaraçado, na plenitude de sua potência, daquilo que você pode.

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