Uma palestra sobre Ferenczi e uma perspectiva sobre psicanálise

ferenczi

Assisti, dia desses, a uma palestra sobre Ferenczi que me chamou a atenção, por combinar em vários pontos com a perspectiva sobre psicanálise que venho construindo / descobrindo / inventando (pra mim mesmo). A palestra, de autoria de Luiza Moura, era intitulada “Abuso e submissão: a psicanálise com um olhar cuidadoso”, e foi promovida pela clínica Espaço Potencial, uma clínica, como o próprio nome diz, com um viés mais winnicottiano.

 

As afinidades entre Ferenczi e Winnicott são notórias e reconhecidas faz tempo. Mas o que a palestra salientou, na minha leitura, foi a característica disruptiva da clínica proposta por esses autores, a ponto de podermos dizer que existiriam duas clínicas, duas maneiras de fazer clínica: a maneira freudiana, clássica, e essa outra, ferencziana ou winnicottiana. As diferenças entre ambas ficarão claras ao longo do texto.

 

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Talvez fosse mais justo dizer que existem várias clínicas, e não apenas duas: a clínica kleiniana, a lacaniana, a bioniana… cada expoente da história da psicanálise acabaria fundando, pela própria diferença que caracteriza seu pensamento, uma nova clínica. Mas o interessante da proposta de Luiza Moura é que essa “segunda clínica” seria, na verdade, a primeira clínica freudiana, existindo (em esboço) ainda antes da clínica padrão, aquela que conhecemos hoje como psicanálise “clássica”.

 

Renato Mezan, num belo livro que pretendo resenhar (e resumir!) aqui no blog[1], propunha a existência de 4 grandes linhas, 4 grandes divisões na psicanálise, originadas todas dentro da construção teórica de Freud. Ou seja, para Mezan, as quatro grandes “derivas” psicanalíticas – o kleinismo, o lacanismo, a psicologia do ego e a das relações de objeto – se originariam de leituras diferentes de momentos distintos da obra freudiana. Haveriam “raízes” freudianas em todas as quatro, apesar de suas marcadas diferenças. A proposta de Moura, no entanto, acrescenta uma quinta leitura, um quinto Freud, que se conecta, como veremos, ao último Ferenczi.

 

Trata-se do Freud dos “Estudos sobre a histeria”, o Freud dos inícios, que ousou escutar as histéricas num tempo em que seu discurso era completamente desconsiderado. Dessa escuta, Freud concluía que a doença histérica derivava de traumas (reais) sofridos na infância, traumas que os adultos infligiam nas crianças. Moura salienta aí a importância da dissimetria de poder existente entre crianças e adultos, fazendo com que o abuso seja um acontecimento infelizmente mais comum do que se esperaria.

 

Salienta também o caráter revolucionário dessa proposição: pois esse texto de Freud, publicado em 1896, seria contemporâneo da primeira ação judicial aberta na história em favor das crianças, em função de maus tratos. Segundo Moura, a Sociedade protetora dos animais teria iniciado a ação, talvez por considerar que os animais estavam mais protegidos do que as crianças da época…

 

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Conhecemos o destino dessa primeira percepção freudiana: mal recebido entre os colegas, que julgavam ser ingênuo acreditar nas histórias das histéricas, Freud acaba abdicando de seu ponto de vista em favor da hipótese de que não eram traumas reais, mas sim traumas psíquicos, os verdadeiros causadores da doença mental. A realidade (e o ambiente, diríamos) perde seu valor causal e a fantasia entra em cena.

 

Trata-se de um ponto de virada. Duas coisas  nos interessam aí: primeiro, que este momento talvez marque o nascimento daquela característica tão discutível dos psicanalistas, que lhes rende até hoje não poucas críticas: a desconfiança, sua posição defensiva e alerta contra qualquer tentativa de engodo por parte do paciente. Afinal, Freud não fora “enganado” por suas histéricas? Desde então o psicanalista deve sempre se colocar como um “arauto da verdade”, desconfiado, um prudente observador que não deve nunca se deixar levar pelo paciente, como se eles estivessem sempre – por uma necessidade da doença, claro – mentindo.

 

O outro ponto importante aí, em estreita correlação com essa desconfiança, é aquela tendência de sempre procurar olhar por trás do que é dito, de sempre procurar a verdade do paciente para além daquilo que o próprio paciente diz. É verdade que, com isso, a escuta ganha em amplitude; nesse sentido não se explica unicamente pela desconfiança da realidade do paciente. Mas me pergunto se a desconfiança não prepondera frente à amplitude.

 

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Grosso modo, uma consequência não esperada dessa nova postura freudiana poderia ser resumida nos termos “paciente culpado”: ao colocar no centro da psicopatologia os impulsos e as fantasias, Freud acabou construíndo uma imagem da doença que é sempre uma função desses mesmos elementos no paciente. Nesse sentido ele é “culpado”: sua doença nasceria do interjogo de suas próprias pulsões e fantasias. Daí a desconfiança ‘necessária’ do analista frente às produções do paciente.

 

Ferenczi, partindo de suas experiências clínicas, propunha uma outra imagem do paciente, que poderíamos chamar de “paciente vítima”: trata-se daquele paciente que, por algum desvio no desenvolvimento – geralmente ligado à provisão ambiental – não teria conseguido evoluir emocionalmente de forma satisfatória. Sua doença, então, seria causada por um acidente na relação com o ambiente, e não – ou não apenas – pela organização pulsional / fantasística.

 

O melhor exemplo dessa intromissão do ambiente no desenvolvimento do sujeito seria dado pelo trauma, pelo abuso sexual praticado contra a criança; mas, a rigor, o abuso pode se dar de diversas formas, dada a dissimetria de poder entre as partes.

 

Contra esse estado de coisas Ferenczi recomendava a criação de um “novo ambiente”, através do acolhimento do paciente, da empatia, do relaxamento: trata-se de proporcionar uma relação de qualidade superior àquela que o paciente encontrou na infância. Essa relação teria a função de desobstruir o caminho do desenvolvimento emocional do sujeito, que poderia então retomar seu processo de amadurecimento.

 

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Luiza Moura comentava que, com os conceitos de compulsão à repetição e pulsão de morte, Freud teria se afastado do paradigma libidinal que seguira até então, abrindo espaço para outros componentes da pulsão e da causalidade psíquica. Nesse sentido, estaria abrindo a possibilidade de retomar aquela leitura que se iniciara nos “Estudos sobre histeria”. Entendo diferente: a meu ver, o conceito de compulsão a repetição simplesmente desobriga Freud de procurar aquilo que seria causa da pulsão sexual, já que a repetição seria primeira em relação ao princípio do prazer. Noutras palavras, Freud aderia com isso a uma autonomia pulsional estrita: nada mais importava senão as pulsões e seu interjogo. [2]

 

Daí as duas clínicas a que eu aludia no começo: numa, mais estritamente freudiana, o paciente demanda principalmente interpretação, aquele olhar por trás do dito que descobre a pulsão e suas desordens; noutra, ferencziana, trata-se de primeiro estabelecer uma boa relação com o paciente, para que então os entraves ao desenvolvimento apareçam e seja revividos – e resolvidos – com a ajuda do analista. Na primeira é legítimo, e até necessário, que se desconfie do paciente, já que sua doença nada mais é do que a expressão de suas desordens pulsionais. Em Ferenczi, toda a organização pulsional do sujeito é efeito da sua relação com o ambiente; logo, o sexual inclusive, sua montagem, depende disso.

 

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Uma particularidade da clínica de Ferenczi é que o trauma, para se instalar, precisa de dois tempos: um primeiro tempo, relativo ao ato traumático propriamente dito, e um segundo, aonde esse ato é revalidado – ou não – pelos outros significativos do sujeito. A escuta que um pai ou uma mãe fazem de um ato de abuso faria toda a diferença para a própria “realização” desse ato na criança; eles confirmariam (ou não) o estatuto de realidade do trauma, e ajudariam assim a dar um destino / uma solução a ele – ou a denegá-lo. Essa denegação atuaria como um segundo trauma, negando uma realidade vivida pelo sujeito.

 

Freud foi, em muitos sentidos, o primeiro a escutar as queixas das histéricas, a dar sustentação para a sua fala. Nesse sentido, sua escuta foi também uma cura, uma possibilidade de cura. Depois de algum tempo, no entanto, também ele deixou de ouvir o que elas diziam – denegando, nesse sentido, as possibilidades que ele mesmo tinha aberto para a clínica.

 

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[1] Trata-se de “O tronco e os Ramos”.

[2] Green sustenta posição parecida, conforme comentei no artigo “O conceito de agressividade em Freud” (link)

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