A importância do ambiente psicológico; analogias com o ambiente físico.

importancia-agua

 

Tudo indica que a vida começou na água. Todos os primeiros organismos vivos são aquáticos, e a importância da água para seu desenvolvimento não deve ser pequeno, porque sabemos que, mesmo milhares de anos depois, a vida só conseguiu dar seus primeiros passos para fora dos oceanos carregando a água consigo, em seus corpos[1].

 

Isso ainda acontece com o feto humano, que cresce, como se sabe, em meio aquoso. Nesse sentido a placenta repete algo daquele ambiente aonde a vida nasceu, a cerca de quatro BILHÕES de anos atrás [2].

 

Pense  nisso: quatro bilhões de anos, milhares de formas evolutivas diferentes, mas ainda carregando consigo a relação com o ambiente aquoso. Ele deve ser importante; essa relação com o ambiente deve ser importante.

 

***

 

Se agora passarmos do ambiente à nível celular para o ambiente em termo de organismo notamos que, também aqui, o ambiente é fundamental. Partindo a ideia de Darwin sobre a sobrevivência do mais adaptado, percebemos que o mais adaptado é aquele que apresenta uma melhor taxa reprodutiva / adaptativa num ambiente específico. Embora geralmente se descreva o sucesso adaptativo em função de uma mudança no organismo, o fato é que a adaptação depende intimamente da relação estabelecida entre um organismo e seu ambiente. Sem ambiente não existe adaptação. [3]

 

Procuro destacar aqui a importância da relação de um organismo com seu ambiente, seu habitat. A rigor, é possível dizer que há uma continuidade entre as determinações do ambiente e as capacidades do organismo, assim como as possibilidades do organismo só tem sentido a partir de um continuum com seu ambiente.

 

O rabo do macaco, por exemplo, só tem sentido em um ambiente com árvores; nesse ambiente ele é um plus adaptativo; fora dele, não, podendo até ser um problema para o animal – facilitando sua captura, etc. Da mesma forma o sistema respiratório dos peixes: extremamente bem adaptado para o ambiente marinho, torna-se inútil fora d’água.

 

***

 

Dadas essas premissas, não será difícil perceber que o ambiente físico é fundamental mesmo para o ser humano, na ponta final da escala evolutiva. Mas o quê dizer acerca do ambiente psicológico, constituído pelas relações humanas e pelos afetos que essas relações veiculam?

 

A partir de Winnicott parece claro que o ambiente psicológico é tão importante quanto o ambiente físico. Na verdade, Winnicott parece fazer uma transposição sem quebras entre os dois âmbitos do conceito: a mãe, por exemplo, é fundamental ao bebê tanto ao nível físico (enquanto cuidado material mesmo, fornecimento do alimento, proteção, segurança, etc) quanto em nível psicológico.

 

Chamo a atenção, aliás, para o seguinte ponto: os mesmos termos que aplicamos ao cuidado físico se adequam ao cuidado psicológico desempenhado pela mãe, desde que entendamos que se trata de sua contraparte “mental”: assim, o ambiente psicológico da mãe é responsável pelo cuidado (mental) do bebê, pelo fornecimento de alimento (mental, emocional), pela proteção da criança (a nível dos estímulos psíquicos), pela segurança (selecionando sua relação – mental – com o mundo), etc. A grande diferença talvez resida na capacidade elaborativa da criança, que já existe no nível do fisiológico – seu sistema digestivo, por exemplo – e ainda precisa ser consolidada no nível psicológico – sua capacidade de “digestão psíquica”, por exemplo, ainda não está completa.

 

Essa “incompletude” do psíquico é o que permite, por outro lado, que a criança se desenvolva segundo as linhas de evolução disponíveis em seu ambiente. Isto é, a incompletude “psicológica” cria um espaço que permite que a criança se molde psicologicamente conforme os parâmetros da sua cultura local – os valores sociais, familiares, as visões de mundo, etc. Existe, assim, um viés de “atualização” do “software” humano, que é “formatado” no mínimo a cada nova geração. Seria possível vincular os mecanismos biológicos de percepção do ambiente físico aos mecanismos neurológicos que lidam com esse “buraco”aonde a cultura vai se inserir ? Talvez. Nesse sentido, a psique – o ambiente mental – seria o correlato do ambiente físico, guardando importância semelhante.

 

Deleuze parece ter seguido uma trilha análoga à essa, ao propôr uma espécie de filosofia “Gaia”, provavelmente a partir de Nietzsche; os conceitos de “territorialização” e “desterritorialização”, o esforço por NÃO pensar a partir de um sujeito, de um “Eu”, a concepção do homem como “sonho da terra”, são alguns indícios dessa interpretação “geológica” do humano, por assim dizer, que encontra pontos de contato inusitados com Winnicott (mais sobre esse ponto em outro artigo).

 

***

 

O peixe depende da água, assim como os macacos dependem das árvores, ou os bebês de suas mães. A apreciação correta da amplitude dessa dependência também é um efeito da valorização do conceito de ambiente. Pensemos por exemplo no ambiente que continua a sustentar o ser humano mesmo na vida adulta; pensemos em como ele depende desse ambiente; isso é muito diferente de considerar o adulto em si mesmo, sozinho, enfrentando as dificuldades da vida com seus próprios recursos. Há sempre um ambiente enquadrando o comportamento do ser humano, por mais independente que ele se sinta ou queira parecer.

 

De certa forma, “nadamos” em nosso ambiente cultural como os peixes dentro d’água, e isso acontece de forma tão natural e sem rupturas (em termos gerais) que a rigor não vemos que carregamos conosco toda essa “água”, todo esse ambiente. Num certo sentido, a cultura é como o ar, do qual dependemos intimamente e no qual respiramos, mas que não vemos, e mal nos damos conta, até que nos falte –

 

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[1] – o corpo humano é composto por cerca de 65% de  água, cf https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gua_corporal

[2] – http://super.abril.com.br/ciencia/como-a-vida-comecou/

[3] – um ótimo resumo dos pontos de vista de Darwin se encontra na Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Sele%C3%A7%C3%A3o_natural

5 Respostas para “A importância do ambiente psicológico; analogias com o ambiente físico.

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