A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, Disney, 2017)

a bela e a fera 2

 

Conta a Wikipedia que “A Bela e a Fera ou A Bela e o Monstro é um tradicional conto de fadas francês. Originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740, tornou-se mais conhecido em sua versão de 1756, por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont, que resumiu e modificou a obra de Villeneuve. Adaptado, filmado e encenado inúmeras vezes, o conto apresenta diversas versões diferentes do original que se adaptam a diferentes culturas e momentos sociais”. [1]

 

Tive a oportunidade de ver a última versão lançada pela Disney, agora em 2017. e adorei; talvez pela nostalgia da versão antiga (também da Disney), talvez pela idade, que já me permite achar graça em coisas que antigamente não gostava (como a quantidade de músicas pontilhando o enredo), o  fato é que achei o filme uma obra de arte. Há a parte técnica, claro, que, aos meus olhos de leigo, pareceu muito bem resolvida. Mas gostaria de me focar aqui na história.

 

***

 

A história todos conhecemos: uma jovem aldeã cheia de sonhos, superprotegida pelo pai idoso e cuja mãe morreu quando ela era criança, acaba presa num castelo abandonado aonde vive um monstro – a fera -, outrora um príncipe muito vaidoso e cheio de si. O príncipe fora amaldiçoado por não acolher uma velha senhora – muito feia, segundo ele – numa noite de temporal, e a maldição consistia em transformá-lo em fera, até que alguém se apaixonasse por ele. Uma rosa marcava o tempo disponível para que o amor acontecesse. Caso contrário, ele estaria condenado a viver daquela forma para sempre.

 

O enredo parece um amontoado de clichês; mas isso mesmo sugere a pergunta – porque histórias assim são clichês? Porque histórias assim se repetem tanto, repetem os mesmos temas, os mesmos desenvolvimentos? Trata-se de alguma necessidade narrativa, simples convenção, ou haveria alguma verdade ali? Talvez algo se repita na história porque essa repetição espelha, no fundo, algo da vida?

 

***

 

Tomando essa última hipótese como guia, podemos notar algo de saída, a saber, que a história é centrada em mulheres, em figuras femininas. Existe um contraponto masculino – nas figuras da Fera e de Gaston -, mas, como pretendo demonstrar, o centro de gravidade do enredo gira em torno da feminilidade, ou talvez da relação entre feminino e masculino. Mais precisamente, na capacidade e acolhimento que caracteriza o feminino, mas que também deve existir no homem. Senão vejamos: –

 

Bela (Emma Watson) é a personagem principal da narrativa; como saberemos com o andamento da mesma, o falecimento de sua mãe, com Bela ainda bebê, precipita a fuga do pai (Kevin Kline), que abandona Paris com a filha para se refugiar numa pequena cidade do interior. Essa mudança determinará o futuro da personagem.

 

Do lado da Fera (Dan Stevens), além da velha senhora (Hattie Morahan) que lhe lança a maldição, há também a mãe/Rainha, cujo falecimento deixará no mesmo um amargor perene, que determinará seu futuro na medida em que a maldição decorrerá de sua postura hostil para com a velha feiticeira.

 

Temos assim duas mães, dois falecimentos, determinando o futuro dos protagonistas. Bela, com a perda da mãe, torna-se muito apegada ao pai, e isso fará com que, no futuro, deixe-se prender para libertar o pai, quando esse for capturado por Fera. O príncipe, ferido pelo falecimento da mãe, tornou-se egoísta e incapaz de confiar – de se entregar – ao outro; nessa medida, também se determinando pela presença feminina em seu passado.

 

***

 

Essa é uma verdade que a psicanálise corrobora – a mãe, como primeiro outro significativo na vida dos sujeitos, terá uma importância ímpar na história de cada um, e determinará, em grande medida, nosso desenvolvimento futuro. A mãe é nosso primeiro ambiente, o primeiro mundo com o qual entramos em contato; nesse sentido, sua morte simbolizaria a passagem para a vida adulta, ou o momento em que perdemos o conforto desse mundo mais limitado e mais brando.

 

Na história, essa perda é marcada pelo signo do imprevisto, do acidente, da doença. Há algo de traumático nessa perda abrupta, levada a cabo sem preparação. Isso une os dois personagens principais. Por outro lado o amparo oferecido pelo pai de Bela parece separá-los, na medida em que permite que ela viva  menos amargurada que seu par – que é quase tão caracterizado pela amargura quanto pela ferocidade.

 

Assim, essa valorização do acolhimento – também respaldada pela psicanálise – demonstra sua importância na vida de Fera por sua ausência: o Rei, como nos é contado, diante da morte da Rainha tomou o filho para si e o perverteu, isto é, tornou-o igual a si mesmo, ensinando-o a não sentir, a não se entregar aos sentimentos, a não ser afetado por eles. O filho, em consequência, tornou-se fechado, desconfiado, auto-suficiente – já pelo exemplo do pai, já porque confiar em alguém, entregar-se a um sentimento, amar, como o jovem sabia, envolviam um risco.

 

***

 

De certa forma, é como dizer que para o Rei a masculinidade se define pela ausência de sentimentos, pelo controle e autossuficiência de si. Seguindo esse ensinamento é que Fera acaba sozinho em seu castelo, “encastelado” numa grande casa vazia. Mas há também a sugestão de que a ausência da “mãe” – como acolhimento ao outro, ao pequeno príncipe – é a receita para um desenvolvimento marcado pela figura do mesmo, pelo fechamento ao diferente.

 

É importante notar que, nesse sentido, a maldição nada mais faz do que pôr à mostra algo já existente: o príncipe era realmente uma “fera”, um ser acuado que, em função de uma ferida emocional, vivia como se emoção alguma existisse. Nesse sentido, já estava sozinho, era uma “besta”, um animal, e se assemelhava aos lobos que, num trecho da história, ameaçam devorar Bela (detalhe que Fera a salva dos lobos, nesse sentido diferenciando-se deles justamente ao dar espaço para a emoção, já que é o arrependimento que o leva a isso).

 

Nesse ponto é como se a narrativa sugerisse que o que nos separa dos animais não é tanto a inteligência, mas a emoção. E a emoção, ou a capacidade de vivenciá-la, nos leva mais uma vez ao polo feminino da história.

 

***

 

Os personagens, como vimos, têm seu futuro determinado pela sua relação com duas mulheres, duas mães, que lhes abrem – ou fecham, no caso de Fera – possibilidades afetivas. E é essa impossibilidade de viver o afeto que caracteriza a “maldição” de Fera, ou sua própria “ferocidade”; o bestial é a vida sem afetos, sugere a história. Nesse contexto faz todo o sentido que a maldição se quebre quando Fera se permite amar – e ser amado.

 

Essa abertura de Fera ao amor, ao sentimento, é o complemento especular da criação de um espaço em Bela onde a Fera existe. Assim, o feminino e o masculino, a “beleza” e a “ferocidade”, juntos, “quebram o feitiço”, afastando o inverno perene que assolava o castelo e trazendo novamente o sol. Mas não basta unir os elementos de qualquer jeito, e a figura de Gaston parece ter sido moldada para exemplificar isso.

 

Gaston é uma espécie de caricatura do “macho”, que é “belo” mas também “feroz”, só que caracterizado pelo estreito fechamento de seu personagem ao outro. Sua aproximação de Bela parece mais a busca de um “troféu” do que de uma relação. Seu embate com Fera se dá justamente nesse signo: ele imagina a cabeça de Fera enfeitando sua sala. Nesse sentido, Gaston padece de um ensimesmamento semelhante à “maldição” de Fera, só que ainda mais fechado, por uma espécie de enamoramento de si.

 

Com esse contraste entre os personagens do polo “fera”, é como se a narrativa quisesse sublinhar que beleza e ferocidade não são elementos exclusivos do feminino e do masculino, mas que ambos devem estar presentes em ambos os lados como suportes para uma abertura ao outro. A cena da dança, aonde Bela e Fera rodopiam juntos, ocupando lados diferentes de cada vez, materializa essa alternância de beleza e ferocidade como ingredientes do par, rumo ao movimento.

 

Esse é mais um ponto que encontra baliza na psicanálise. Winnicott  teorizou acerca das figuras do “elemento masculino puro” e do “elemento feminino puro”, que existiriam tanto em homens quanto em mulheres, e que facilmente poderiam ser aproximados dos elementos de “beleza” e “ferocidade” como ingredientes de ambos os sexos.

 

***

 

Por fim, como não pensar nas figuras do “continente” e “conteúdo” [2], que Bion utilizou para pensar a psicanálise para além da “selva” de conceitos então existentes? A mulher, a beleza, o feminino, seriam outras tantas figuras do “continente” (ou do côncavo), aquela capacidade de acolhimento que justamente caracteriza a mãe com sua criança, assim como o homem, a ferocidade, o masculino, poderiam ser figuras do “conteúdo” (ou convexo), daquilo que é contido, acolhido – a criança, no exemplo da mãe.

 

Aliás, é interessante que a história gire em torno da morte de duas mães, como se essa morte separasse de forma prematura “continente” de “conteúdo” – a Bela e a Fera – e a história toda fosse um grande tour para que ambos se encontrassem novamente. Pois – e essa talvez seja a sugestão principal da história – “Belas” e “Feras” foram feitos para viver juntos; um complementando o outro, em homens e mulheres.

 

***

 

“A Bela e a Fera”, então, ou o ‘feminino’ e o ‘masculino’, em nossa linguagem – seria uma história tão repetida justamente pela simetria estrutural que sua narrativa encerra – simetria, já se vê, com o humano. Todos vivemos às voltas com nossa capacidade de feminilidade e de masculinidade, nossa capacidade e nossa necessidade de acolhimento, nossa luta diante dos afetos e nossa vitória ao experimentá-los; todos já fomos “fera” alguma vez, escondidos nos recônditos de nosso castelo, e também “bela”, explorando o mundo e querendo expandir-se sempre mais. Mas todos já experimentamos também, com sorte, esse encontro dos dois opostos em nós mesmos, no que somos – e no que amamos.

 

***

 

[1] – https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Bela_e_a_Fera

[2] – Escrevi sobre esses conceitos aqui: https://euemtorno.wordpress.com/2017/06/13/continente-conteudo/

Uma resposta para “A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, Disney, 2017)

  1. Pingback: Religião e Cuidado | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s