A agressividade latente – o exemplo da IIª guerra mundial

campos de concentração

 

Quando falo que a agressividade é natural no ser humano, segundo Winnicott, Freud, Nietzsche, etc, me questiono se se percebe o alcance dessa afirmação. Quer dizer, nós vivemos em um tempo um tanto “acolchoado”, como dizia Nietzsche, onde as relações entre pessoas são espessamente protegidas por um estado de direito, por instituições jurídicas mas também culturais – educação, respeito, moda, opinião, etc. Numa palavra, não vemos agressividade em nosso dia a dia, ou, quando vemos, ela parece algo circunscrito a um certo meio, aos fora-da-lei, aos países do oriente médio – ao outro, em suma. A agressividade parece que nunca tem a ver com a gente.

 

Mas essa aparência não passa disso mesmo – uma aparência. A agressividade é onipresente em nosso cotidiano, como em qualquer cotidiano, e isso porque, segundo todos os indícios, ela é um componente essencial de nossa constituição, faz parte de nossa bagagem como seres humanos, talvez tanto quanto ter dois olhos ou respirar.

 

A psicanálise é apenas uma das correntes de pensamento a encontrar lugar para a agressividade no desenvolvimento normal do ser humano, mas existem várias outras. Em todo caso, hoje gostaria de deixar o âmbito teórico e me focar na história da IIª guerra mundial, tentando mostrar como, em qualquer tempo, houve sempre uma quantidade “X” de agressividade latente na sociedade, como um barril de pólvora escondido, esperando apenas um acontecimento, um estopim, para começar a incendiar-se, e, logo, sem muito aviso – explodir.

 

***

 

A primeira guerra terminou sem vitoriosos. A aliança inglesa venceu, é claro; mas o lado perdedor estava tão mal das pernas, que não podia sequer pagar as dívidas de guerra. É estranho dizer isso, mas a guerra iniciou com uma certa alegria [1]. Imaginava-se um final rápido e decisivo, com a Alemanha abocanhando territórios perdidos – injustamente, na visão deles – e logo a vida voltando ao normal. Havia também um surto de nacionalismos assolando os países; todos se imaginavam o melhor povo do planeta, e uma raiva surda e irracional tensionava os olhares de lado a lado.

 

Os países vencedores, embora estivessem um tanto melhor que os outros, tiveram severas perdas econômicas em função da guerra, e a crise de 1929 – a maior crise financeira do mundo até então – complicou ainda mais esse cenário. Imagine então como estavam as coisas para o lado perdedor; cadeias produtivas foram desfeitas, e em muitos lugares faltavam comida, material de higiene, roupas e remédios.

 

Pra piorar a situação, faltava poder de compra: a inflação na Áustria, por exemplo, foi devastadora. Para dar uma ideia, a coroa austríaca, antes da guerra, estava na proporção de cinco coroas para um dólar; em dezembro de 1922, a proporção chegava a 90 mil coroas por dólar (!!!!) (Fonte: Freud: uma vida para nosso tempo, de Peter Gay, pg 352). Imagine isso, você ver seu patrimônio ser diminuído, seu dinheiro, em DEZOITO MIL (90.000 / 5) vezes!!

 

Já falamos sobre quão difícil é a relação do ser humano com a realidade [aqui e aqui]. Agora, imagine como era a relação do lado perdedor com a realidade que se abateu sobre eles: imagino que ninguém mais aguentava aquele estado de coisas. Todos necessitamos de uma certa quantidade de sintonia entre nós e a realidade, e agora não havia sintonia alguma! Tampouco havia perspectiva de melhora; a única saída era… suportar. Aguentar a penúria, resignar-se, aceitar que vidas tinham sido perdidas para nada, e que muitas ainda seriam perdidas pela falta de oportunidades.

 

Façamos um esforço: imaginemos, não, que ELES tiveram que perder, mas que NÓS, agora, é temos que perder tudo o que possuímos. Nosso emprego; nossa casa; nossa comida; nosso estudo; o tempo que dispendemos para construir qualquer coisa que nos era importante; nossa esperança de um dia chegar a ser X, Y ou Z, chegar a ter tal emprego, tal condição de vida, tal família; finalmente, as pessoas próximas, pais que faleceram (de penúria ou de desgosto), maridos que morreram em combate, esposas que não conheceremos, filhos que não nascerão – e tudo isso por uma luta que, em muitos casos, não foi sequer desejada, compreendida… por uma luta que também nos foi imposta.

 

***

 

E agora um parêntesis psicológico: suportar tudo isso não é nem nunca será fácil. A rigor, tal resultado não pode nem ser esperado; é muito mais razoável pensar que a imensa maioria das pessoas não aceitará carregar esse fardo, mas, antes, se revoltará. Pois a revolta – como expressão de agressividade – permite uma experiência próxima à onipotência, aquela onipotência que vivenciamos na infância. Desnecessário dizer que há revoltas e revoltas… Por hora, notemos que não importa muito o quão ruim as coisas estão; importa antes o quão ruim eu percebo as coisas. E se eu posso me revoltar, especialmente quando existe um culpado, quando todos parecem concordar que aquele grupo X, do qual eu nunca gostei mesmo, é o culpado… – então minha realidade automaticamente parece ter melhorado.

 

Em qualquer tempo, em qualquer época, existe e existiu sempre um grande número de desenganados. Seja por mérito próprio ou não, eles nunca encontraram lugar na sociedade, e vivem à margem, e sofrem um abandono que só podemos avaliar tendo em conta o verdadeiro sentido do apoio de um grupo. Tal como tentei abordar em outro post [link], a sustentação do grupo é sempre fundamental ao ser humano, como suplemento ao grupo interno, ao ambiente interiorizado pelo sujeito na infância. Este ambiente interiorizado é justamente aquilo que me permitirá a identificação com o outro, e impedirá que a agressão ocorra, na justa medida em que ocorreu a identificação.

 

Minha identificação com o outro – repito, minha capacidade de me identificar com alguém -, repete a relação que tive na infância com aqueles que cuidaram de mim. A qualidade dessa relação influenciará na qualidade da minha relação atual com os outros. E para além dessa capacidade, só há uma coisa me separando do outro – a Lei. E a lei, nós brasileiros o sabemos, não pode muito.

 

Como já disse, a onipotência é uma necessidade no início da vida, e só é mitigada pela relação de amor estabelecida com os outros significativos durante o desenvolvimento. É na medida em que introjeto o ambiente cuidador, que posso “permitir” que o ambiente externo – a realidade – NÃO seja conforme ao meu desejo. Em outras palavras, mitigo minha necessidade de onipotência na medida em que introjeto um ambiente bom, já que esse ambiente suplementa as falhas que possam ocorrer na minha relação com a realidade. Entretanto, quem não teve esse bom ambiente introjetado segue “batendo cabeça” contra a realidade, e só encontra algum alívio quando consegue impôr-se, à força, no real – isto é, quando consegue se sentir onipotente.

 

Essa é a realidade para muitas pessoas, infelizmente; a falta de cuidado tanto material quanto emocional os empurra para uma relação sempre tensa com os outros, com a realidade, com os limites. Tudo aquilo que se contrapõe a eles – e existe muito disso na vida – é sentido como uma ofensa pessoal, que não pode ser contrabalançada pelo bom ambiente introjetado. Nesse caso só existe uma saída: a agressividade, a ofensa ou a fuga. E é contra isso que a lei atua. Agora, quê fazer quando justamente a Lei se coloca do lado da agressão, e sanciona a agressividade de uns contra os outros?

 

***

 

Voltemos à história: aquele estado de penúria, junto com a incapacidade de resolvê-lo de imediato, foi um dos grandes causadores da 2ª Guerra Mundial. A população, cansada de viver daquela forma, começou a dar ouvido à belas promessas, esquecendo qualquer dado real da situação. Nas palavras de Peter Gay, “As consequências políticas eram inteiramente previsíveis: a miséria econômica gerou a busca desesperada de panaceias. Foi uma boa época para os anunciantes de remédios infalíveis: à medida que floresciam os oradores sedutores, as vozes sensatas perderam audiência” (Peter Gay, em “Freud: uma vida para nosso tempo”, pg 534).

 

Só isso explica, se é que algo explica, a ascensão meteórica de Hitler. Para além de seu talento como orador e do uso inteligente da propaganda, o fato de a população não aguentar mais lidar com uma realidade hostil, e nesse sentido desejar alguma panaceia, deu o empurrão que faltava ao ditador. Hitler foi designado Chanceler da Alemanha em 30 de janeiro de 1933 e, conforme Peter Gay, (op. cit, pg 535), “em poucos meses ele liquidou sistematicamente os partidos políticos, as instituições parlamentares, a liberdade de expressão e de imprensa, as universidades e organizações culturais independentes e o domínio da lei.  […] Instaurou campos de concentração para os adversários políticos” e – ponto fundamental – deu ao público sedento um bode expiatório: os judeus. Neles o povo pôde extravasar toda a sua penúria, apoiando o ditador enquanto ele terminava com qualquer resquício de democracia.

 

Em 10 de maio de 1933, um evento emblemático, orquestrado pelo Ministério da Propaganda de Hitler, mostrava um pouco do que viria a seguir: a queima de livros contrários à ideologia do partido. As obras de Marx, Kafka, Einstein e Freud, para citar apenas alguns, foram queimadas em praça pública, sendo o fogo “Acompanhado por desfiles de estudantes à luz de archotes e discursos apaixonados de professores” (Op. cit. pg 536). Como disse Heine, profeticamente, “onde se queimam livros, ao final também se queimam pessoas” (citado por Gay, pg 536).

 

Aqui, um retrato do que foi a instauração do nazismo na Áustria; note-se o regozijo da população com a “permissão” para a crueldade; lembremos também que os judeus eram parte da classe alta da época:

 

“O popular dramaturgo alemão Carlo Zuckmayer, um liberal, esteve pro acaso em Viena naqueles dias, e nunca os esqueceu. ‘O submundo abriu seus portões e soltou seus espíritos mais baixos, mais revoltantes, mais impuros. A cidade foi transformada num pesadelo pintado por Hienonymus Bosh’, e o ‘ar preenchido por uma gritaria incessante, selvagem, histérica de gargantas masculinas e femininas’. Para Zuckmayer, todas essas pessoas tinham perdido seus rostos, ‘parecendo caretas distorcidas: algumas de angústia, outras de decepção, outras ainda de triunfo furioso e cheio de ódio’ […] O que foi ‘desencadeado aqui foi a sublevação da inveja, da malevolência, da amargura, da gana cega e pérfida por vingança’ (Peter Gay, pgs 559 / 560)

 

Chamo a atenção para esse fato: para além de ter sido imposto pela Alemanha aos países vizinhos, o nazismo foi também de encontro à uma aspiração antiga da população, e nesse sentido foi apoiado desde dentro. Uma aspecto essencial do novo regime, que justificava parte desse apoio popular, era justamente a oportunidade de ser agressivo contra alguém há muito visto como ‘indesejado’: o judeu – seja pela riqueza, seja pela estranheza, seja simplesmente porque – agora – ele é mais fraco. Cito:

 

“Mas ainda mais pavorosa foi a violência espontânea. A visão de um judeu indefeso estimulava a imaginação de turbas austríacas em todas as cidades. […] Enquanto seus torturadores urravam de prazer, crianças, mulheres e velhos judeus eram forçados a apagar, com as mãos ou com escovas de dentes, os slogans que tinham ficado nas ruas desde o plebiscito malogrado de Schuschnigg [tentativa de prebicito CONTRA a ocupação nazista]. Um jornalista inglês presenciou um desses “piquetes de esfregamento”: […] ‘Homens da SA arrastaram um trabalhador judeu idoso e sua mulher por entre os aplausos da multidão. Rolavam lágrimas pelas faces da velha, e enquanto ela olhava fixamente à frente, praticamente atravessando seus torturadores com o olhar, pude ver como o velho, a quem ela segurava o braço, tentava afagar sua mão. ‘Trabalho para os judeus, finalmente trabalho para os judeus’, berrava a multidão. ‘Agradecemos nosso Führer, ele deu trabalho para os judeus!” (idem, pg 560)

 

Peter Gay salienta que os judeus se sentiam mais tranquilos com os guardas nazistas, porque estes tinham limites (ao menos no início do regime), enquanto que a população parecia ter um ódio ilimitado, do qual não se sabia o que esperar (pg 561).

 

***

 

Por fim, para quem tem estômago, lembro do trecho de abertura do livro “Vigiar e Punir”, de M. Foucault, onde o autor transcreve uma das últimas punições no estilo da Idade Média, contra um certo Damiens, em 1757 (pgs 9 e 10) – evento terrível de tortura, onde arrancaram pedaços do peito do condenado com grandes tenazes de aço, jogaram-lhe enxofre fervendo e ainda o esquartejaram, para por fim jogar o corpo numa fogueira. E tudo isso era público, era um espetáculo para o público.

 

 

 

 

 

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