Winnicott e a realidade II – a necessidade de desilusão

desilusão-amorosa

 

Salvo engano, foi Hume quem disse que nunca vemos CAUSAS na natureza, mas apenas sequências de atos que interpretamos como causas e efeitos. Na natureza, tudo está interligado, e não existe essa separação entre aquilo que é causado e aquilo que causa; isso está em nós. Nós estruturamos o real para nosso uso.

 

De Hume também vem uma história famosa, a respeito do “Cisne negro”,  que dizia que não seria correto deduzir que “todos os cisnes são brancos” – a não ser que víssemos TODOS os cisnes existentes. Como isso não é possível, deveríamos dizer: “todos os cisnes são brancos – até agora”. Ou seja, a passagem do cisne particular, branco, que vejo, para os cisnes em geral, todos brancos, seria um acréscimo ‘não autorizado’ pelos fatos. Mais uma vez, um acréscimo nosso, uma estruturação do real segundo a nossa medida.

 

O meu interesse nessa história tem a ver com o fato dela supor como dada uma característica essencial da subjetividade, em geral não muito notada: a continuidade.

 

Pois para poder comparar todos os cisnes brancos que aparecem, aquele que observa deve permanecer o mesmo, ou ao menos manter o mesmo interesse pelos cisnes. Deve haver continuidade, assim como na observação de causa e efeito – se não houver continuidade na observação, no sujeito que observa, veremos apenas instantes dispersos a partir de sujeitos (ou subjetividades) dispersas. A continuidade NO homem é condição para observar as continuidades – ou descontinuidades! – NA natureza.

 

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Em geral imaginamos isso como dado. A subjetividade como um continuum seria um fato da vida adulta, que aconteceria com todos e poderia ser pressuposta. Mas a patologia sugere que não é assim. Existem memórias que se tornam inacessíveis, existem quebras na continuidade do “ser”, e o interesse pode ser volátil e não querer hoje o que queria ontem.

 

De certa forma, a psicanálise se erigiu inteira sobre exemplos como esses. As memórias recalcadas que retornam após removidos os entraves emocionais, os esquecimentos “interessados”, bem como os interesses causados por constelações de emoções, todos mostram a interligação entre aspectos da cognição e da personalidade e a estrutura emocional do sujeito – sugerindo, mais uma vez, que o continuum da subjetividade é UM dos resultados possíveis do desenvolvimento.

 

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Em artigo anterior comentei algo dessa relação entre realidade x subjetividade em Winnicott (link). Basicamente, procurei mostrar como a relação com o real é tensa no ser humano, em função de um certo viés “alucinatório” anterior, relacionado com o bom aprovisionamento ambiental – necessário para o desenvolvimento. Ser bem cuidado pelo ambiente implica na sustentação de uma certa ilusão, no bebê, de que ele é quem “cria” o real. Depois dessa fase, torna-se igualmente importante desiludir a criança, sempre num ritmo suportável por essa. Que ritmo é esse? Justamente, um ritmo que não quebre a continuidade da experiência de “ser”.

 

De modo simplificado, entendo essa continuidade como a experiência de existir em seu próprio ritmo, sem intrusão ambiental nem ausência prolongada do ambiente (sentido como abandono). A imagem que me vem é novamente a do bebê no útero – só que, nesse caso, o “útero” vai sendo paulatinamente substituído pelo cuidado do ambiente. O bebê deve estar à vontade para se desenvolver e existir; e uma quebra na continuidade é exatamente uma quebra nesse “estar à vontade”.

 

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Winnicott propõe que a desilusão da criança aconteça aos poucos, buscando, idealmente, equilibrar a quebra da onipotência (aquela ilusão de criação) com a capacidade nascente de elaboração do bebê. Um tanto de onipotência é abandonada quando um tanto de elaboração é alcançado, e vice-versa.

 

Desilusão, aqui, significa uma demora um pouco maior do ambiente em responder à criança, uma “falha” da mãe no entendimento do bebê, etc. Isso é normal no desenvolvimento, em função da desidentificação da mãe com a criança – ela volta, aos poucos, à sua vida normal – e do próprio crescimento do bebê. Por outro lado, se ocorrer de forma muito brusca ou para além de um certo limite – dado pela capacidade de elaboração do pequeno – essa desilusão pode acarretar numa quebra da continuidade do existir / se desenvolver.

 

E como se dá esse aumento de elaboração? Se entendi bem, um dos principais eventos dessa elaboração é a introjeção do ambiente externo, constituindo um ambiente “em reserva”, uma certa reserva do ambiente como objeto interno.

 

O ambiente externo é esse cuidado materno, que protege o bebê das demandas da vida, simplificando a realidade para a criança – entregando uma realidade já “mastigada”, como se diz. Pois o desenvolvimento de uma capacidade de elaboração na criança implica na introjeção desse cuidado externo, como ambiente interno; na incorporação dessa capacidade “digestiva” da mãe.

 

Como já deve ter ficado claro, a constituição desse ambiente interno está diretamente relacionada à possibilidade de constituir uma sensação de existência sem quebras, isto é, de constituir uma sensação de continuidade da existência, já que, quando o ambiente externo falhar, o interno atuará, impedindo que a “quebra” se estabeleça.

 

Resumindo então: a desilusão, a falha da mãe (ambiente externo), deve ocorrer respeitando o ritmo do bebê, isto é, respeitando a capacidade desse de constituir um ambiente interno em reserva. Somente assim uma continuidade na experiência do “ser” pode se instaurar, o que vai permitir uma relação mais tranquila com a realidade.

 

Já ouvi dizer que a mãe passa para o bebê algumas enzimas fundamentais para o processo de digestão através da amamentação, sem as quais a criança acaba ficando intolerante à uma série de alimentos. De certa forma, esse cuidado do ambiente atua como essas “enzimas” na “digestão” da realidade, e a mãe pode passar elas para a criança, ou não, caso em que algumas “intolerâncias” serão inevitáveis.

 

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A passagem do “nível zero” de introjeção do ambiente para o “nível 100 %” não se dá do dia para a noite; é preciso um tempo, durante o qual a criança poderá socorrer-se na mãe sempre que uma demanda real ultrapassar sua capacidade de elaboração; esse retorno à mãe atua como um plus elaborativo que permite à criança vivenciar o que, sem essa ajuda, seria uma quebra na continuidade do ser.

 

É claro que esse mecanismo continua atuando na vida adulta, só que o adulto não se refugia mais na mãe, mas nos grupos próximos, a família, os amigos, a sociedade em geral. A identificação e o acolhimento que esses grupos oferecem permitem que se alcance uma “suplência” de elaboração quando as coisas se tornarem “reais” demais, isto é, ego-distônicas demais, passíveis de estabelecer uma quebra na continuidade do ser.

 

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Mas o que acontece quando o próprio grupo se encontra indisponível para sustentar esse apoio? O sujeito não terá capacidade de elaboração suficiente, e precisará lidar com as demandas do real a partir de mecanismos mais básicos e defensivos – como a onipotência ou a negação da realidade.

 

É o mesmo que dizer que quando existe uma falha muito grande no real – como uma guerra longa demais, períodos de miséria extrema, doenças, etc – é possível que as capacidades de cuidado do grupo social acabem exauridas, e toda uma população regrida em sua capacidade de elaboração, passando a acreditar em qualquer discurso que prometa, por mais inverossímil que seja, uma salvação. O grupo se identificará justamente nessa regressão, e cada um encontrará no outro um acolhimento à esse tipo de relação “regredida” com o real.

 

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Tal possibilidade me faz pensar em momentos históricos como o de Hitler: seu discurso, notadamente “narcísico”, isto é, adulador – onipotente – de seus ouvintes, basicamente colocava em cena essa luta entre a realidade desejada – a realidade da onipotência – versus a realidade tal qual era percebida pela população, a triste realidade da perda da 1ª guerra mundial, a penúria que daí adveio e a miséria extrema em que se vivia pela subsequente quebra da bolsa de Nova York (o crash de 1929).

 

Diante de uma realidade extremamente difícil de engolir, muitos cederam às ilusões ego-sintônicas do ditador. E creio que esse mecanismo possa descrever muitas outras situações políticas semelhantes, aonde a pobreza e a miséria da população a pré-dispõe a aceitar realidades mirabolantes – já que, no fundo, ninguém aguenta mais a realidade.

 

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Psicologicamente, todos seríamos aparelhados para elaborar o real na medida de nossas reservas de “bom ambiente introjetado”; mas essas reservas têm um limite. Infelizmente, quando esse limite é atingido, mesmo as melhores razões parecerão mudas perto das mais disparatadas mentiras, desde que sejam belas mentiras.

 

Há um ponto em que ninguém mais aguenta a realidade. E sempre haverão sujeitos que, em virtude de um desenvolvimento emocional precário, sentir-se-ão à vontade num tal estado de coisas. Eles nunca alcançaram aquela capacidade de elaborar a realidade a partir do cuidado ambiental; para eles, a vida inteira foi uma luta crua com a realidade, e a situação caótica pode lhes dar destaque, pois eles parecem saber o que fazer. Eles acreditam em seus delírios; e a força da sua crença se espalha pela população desacreditada.

 

No fundo, esses ditadores apenas expressam de forma mais nítida um desconforto que nos é comum a todos, o desconforto com o real. E, se bem compreendi a proposta winnicottiana, para isso sempre houve apenas uma solução: o cuidado, o pertencimento ao grupo, o apoio, a camaradagem; numa palavra, o amor.

 

 

 

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