Ecce Homo, de F. Nietzsche

Nietzsche

 

“Ecce Homo”, um dos últimos livros de Nietzsche, é um livro sobre saúde. A frase significa algo como “eis o homem”, e teria sido dita por Pôncio Pilatos ao apresentar Jesus aos judeus, de acordo com o evangelho.

 

Assim, Nietzsche se apresenta para ser julgado. Como se sabe, o povo escolheu crucificar Jesus, nesse sentido rejeitando-o, rejeitando sua palavra. Teria Nietzsche imaginado ter um fim igual?

 

Não foi o que ocorreu. A ‘palavra’ de Nietzsche prosperou, ganhou o mundo, e continua, ainda hoje, animando seguidores e debates.

 

***

 

Nesse livro, então, vemos Nietzsche se apresentando, mostrando “quem é”, mas principalmente mostrando “como chegar a ser quem se é”, como desenvolvemos nossas potencialidades até seu limite.

 

O tema é caro à filosofia, especialmente à filosofia antiga, aquela, estóica ou socrática, que via um entrelaçamento necessário entre o saber e a subjetividade.

 

Foucault comenta, na “Hermenêutica do Sujeito”, que em algum momento da história esse vínculo entre o ‘sujeito do saber’ e o ‘conhecimento’ se perdeu; o conhecimento passou a valer por si, e até a valer pelo sujeito, como na famosa fórmula de Descartes, “penso, logo existo” (entendendo-se aí o “existir” como condicionado pelo “pensar”). A ciência, hoje, seria a expressão máxima desse conhecimento “sem sujeito”, ou independente de sujeito.

 

Nietzsche, retomando a tradição grega, procura mostrar que para se poder pensar algumas coisas é necessário transformar-se subjetivamente. Trata-se de uma reversão de Descartes; o ser condiciona o pensar. Há então uma relação necessária entre serconhecer, e o conhecimento puro, sem sua contraparte subjetiva, é vazio. Conhecer para se transformar; transformar-se para conhecer.

 

***

 

No livro, Nietzsche se utiliza de si mesmo como exemplo. Expõe partes de sua vida, as constantes oscilações entre saúde e doença, o aprendizado do ‘cuidado de si’ e a ligação de tudo isso – junto com hábitos de alimentação, exercício, lazer, preceitos de moralidade e de conduta – com sua obra.

 

Trata-se menos de um ‘manual de conduta’ do que de uma superação – a demonstração de um superar-se, de uma saúde conquistada a partir da doença, e de como isso o qualificaria para colocar ‘sérias exigências à humanidade’. De quais exigências se trata? Certamente exigências relativas aos ideais e ao seu combate.

 

Há idealidades demais no mundo, segundo Nietzsche, e eles entravam a realidade das coisas. Tudo o que conhecemos como “verdades” seriam apenas ideais; o mundo “forjado” do ideal – erigido a partir da doença – teria obstruído o caminho da realidade, impedindo o homem de alcançar uma vida mais plena. Nas palavras de Nietzsche,

 

“A realidade foi despojada de seu valor, sentido e veracidade na medida em que se forjou um mundo ideal… O “mundo verdadeiro” e o “mundo aparente” – leia-se: o mundo forjado e a realidade…A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, que fez a humanidade mentirosa e falsa até seus instintos mais básicos – a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro.” (copiado do resumo abaixo)

 

Saúde e doença não são, então, questões menores, mas essenciais – brota de cada extremo uma visão de mundo diferente. Nossa cultura estaria tomada por uma visão doentia da realidade, aquela que acredita na existência de um mundo ‘verdadeiro’, de uma realidade ‘em si’, de um conhecimento ‘absoluto’. Aqui é Platão que Nietzsche vira do avesso, apontando o mundo ‘das aparências’ como o mundo real – em contraposição a qualquer mundo ideal, a qualquer idealidade.

 

A ligação entre conhecimento e subjetividade é então relançada como fundamento de uma crítica de todos os valores: quais valores brotam da saúde, quais valores brotam da doença? Até que ponto tudo aquilo em que acreditamos não foi somente expressão de nossa fraqueza, de nossos fracassos, até que ponto não estamos nos tornados fracos, doentios, pelos erros carregados por nossa cultura? Tudo isso, já se vê, Nietzsche procura responder NÃO a partir do conhecimento, mas – a partir do ser. Da saúde. Da sua experiência em reconquistar sempre de novo uma saúde renovada.

 

***

 

Para mim, outrora um nietzschiano apaixonado, é difícil tomar distância e tecer um julgamento equilibrado de textos como esse. Diria, hoje, que se ele peca em algo é na exigência – ou suposição – de que basta ser tocado pelo martelo da crítica para alcançar a ‘cura’ do idealismo – sendo que essa própria cura pode virar outro ideal, o que parece ser o caso de muitos nietzschianos por aí. Quando, como o próprio texto percebe, saúde e doença são estados necessários, efeitos de causas diversas, é preciso primeiro ser saudável, ter “estômago” – e fome – suficientes, para a crítica fazer sentido. Senão ela será negada, como qualquer outra verdade inconveniente.

 

Numa palavra, o livro não tanto exalta a possibilidade de transformar o doente em saudável, quanto revela a saúde à si mesma – criando, até, uma espécie de divisão ‘ontológica’ entre sadios e doentes bastante criticável, penso eu. Para um psicólogo, essa desvalorização da transformação é um problema, pois estamos interessados justamente nessa possibilidade. Mas quem disse que Nietzsche pretendia atuar como ‘médico’ da cultura?

 

Nietzsche – Ecce Homo

 

 

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