Tempo e reserva

o tempo

Recortai no espaço vazio das paredes portas e janelas

a fim de que um quarto possa ser usado.

Desta forma o ser produz o útil

mas é o não-ser que o torna utilizável” (Lao-Tsé, 21)

Não sou um cara religioso. Tenho meus pressentimentos de que há “algo mais” na vida, além do puro materialismo, mas não estou absolutamente certo de que as religiões compreendem ou traduzem da melhor maneira esse “algo mais”. No entanto, pensando em religiões, lembro de Bérgson, talvez o melhor ‘intérprete’ desse “além” da vida material que eu conheça. Sua filosofia compõe-se de argumentos tão bem estruturados e definidos sobre esse “algo mais” que, literalmente, não sei o que responder. Lendo-o, tenho muitas vezes a impressão de estar tocando com a mão em coisas muito profundas, na essência das coisas mesmo. Ou, para dizer tudo, é como se Bérgson me permitisse “tocar o tempo”, tamanha é a clareza de sua exposição – o tempo, aquilo do qual somos feitos, para ele.

Sim, o tempo é um desses conceitos-monstro em Bérgson, tão transformado e reescrito que acaba praticamente irreconhecível, incomparável com seu duplo não-filosófico. Mas como pensar o tempo de outro modo, depois de compreendê-lo à sua maneira?

No texto abaixo, escrito a alguns anos para um seminário, eu tentava aproximar a leitura bergsoniana do tempo com alguns requisitos subjetivos para uma real escuta analítica. Não sei se ainda concordo com essa aproximação. Hoje estaria mais disposto a pensar aquela “presença reservada”, ou “presença em reserva” de que fala Luis Cláudio Figueiredo como justamente uma disposição ao acolhimento, um retirar-se para que o outro possa se colocar – não enquanto tempo, mas enquanto presença, demandas, desejos. No entanto a sugestão de que o tempo homogêneo (o tempo espacializado) seria o tempo do consciente, enquanto o tempo real (o tempo vivo, virtual, pura abertura) seria o tempo do inconsciente ainda me parece uma boa sacada. De toda forma, como disse no início, acho que Bergson pertence a outro registro que não o da clínica.

***

Introdução

Acho difícil o tema do tempo. Mesmo assim, quando pensei nele, de imediato me veio à mente o nome de Bergson, um filósofo não muito lido mas com ideias fascinantes a respeito do tempo. Pensei que poderia aproximar algumas de suas concepções sobre a duração e apontamentos técnicos que Luis Cláudio Figueiredo sublinha na obra de Freud. O que, disso, consegui fazer, é o que apresento agora.

* * * * *

Atiro uma pedra em um lago. No instante em que a pedra sai de minha mão, sei que ela atingirá a água. Prevejo sua trajetória, desenho-a inclusive, calculo o tempo necessário para que o lago seja atingido. Digamos que esse tempo seja igual a 10 segundos. No desenho que faço representando a trajetória da pedra, marco o tempo total e subdivido, em função do espaço, os instantes t1, t2, t3…, que me dão a distância percorrida pelo móvel.

Posso dizer então que, na metade do tempo, a pedra se encontra parada exatamente na metade da distância – embora saiba que, no movimento real, ela não poderia parar nesse ponto. Sublinho aí a relação entre espaço e tempo, e especialmente o fato de tempo e espaço aparecerem vinculados e previsíveis um em função do outro. O que representa aí, de fato, o tempo?

Para Bergson, esse tempo homogêneo, que pode ser anexado ao espaço, não passa de uma abstração; ele seria apenas uma espécie de ‘quarta dimensão’ do espaço. Tempo vazio, divisível, quantitativo, ele seria uma tentativa de pensar o tempo fora da temporalidade mesma, através de sua diluição em espacialidade.

Por isso, em minha representação da pedra, o movimento parece poder ser decomposto em infinitas posições estáticas. Entretanto, é claro que um movimento não pode compôr-se de paradas sucessivas; não obstante, é assim que nos representamos o movimento, segundo Bergson, quando pensamos o tempo enquanto esse tempo homogêneo.

* * * * *

De fato, pensamos o movimento como algo divisível; mas por outro lado percebemos que mesmo infinitos pontos parados não constituirão jamais um movimento. Pois o movimento é um contínuo, não pode ser interrompido (dividido) sem alterar-se.

O argumento é bem conhecido em Bergson: o que é divisível, no nosso exemplo, é a representação que me faço do movimento (o desenho que fiz, a trajetória que rabisquei); o movimento em si mesmo é indivisível.

Diremos o mesmo do tempo: embora nos representemos ele divisível – e o relógio é um exemplo – o fazemos apenas porque o “espacializamos”. Em si mesmo, o tempo seria antes um contínuo, aparentado ao movimento, onde não se pode falar em “partes”. O tempo é um contínuo aberto, em permanente fazer-se.

* * * * *

O exemplo do movimento é interessante porque mistura esses dois âmbitos: o espaço e o tempo. Sempre do ponto de vista de Bergson, o espaço presta-se mais a divisões porque não tem virtualidade1: pode ser pensado como puramente atual (como um movimento já terminado).

O tempo não. O tempo seria indivisível (ou, para falar com Deleuze, mudaria essencialmente ao ser dividido2) por ser pura virtualidade, isto é, nunca estar completamente dado3: o tempo seria como um movimento ainda em andamento, ainda não acabado. Nesse sentido ele seria pura incompletude, puro renascimento, pura indefinição.

* * * * *

Se nos parece difícil pensar o tempo dessa forma – indivisível, virtual, imprevisível -, isso não se dá sem motivo. É que a inteligência, para Bérgson, estaria essencialmente a serviço da ação do organismo – ela se apoiaria em repetições, em constâncias, buscaria o estático. Visaria nisso a eficácia da ação, e, então, o tempo seria algo a desconsiderar por princípio, justamente enquanto motor de mudanças.

Daí que a inteligência sinta-se em casa quando pode pensar os sólidos e desconsiderar a virtualidade, o processual (o tempo). Bergson chega a postular que nossa linguagem, nossos conceitos e inclusive nossa lógica estruturam-se a partir de nossas relações com os sólidos, isto é, expressam essa tendência estatizante de nossa cognição.

Teríamos uma tendência a pensar o tempo como essa espécie de espaço invisível e vazio, onde os movimentos ocorrem. Esse seria o tempo homogêneo: nele, cada instante é igual ao anterior, pura forma vazia destinada a acolher passivamente o que a realidade do espaço nela realiza. O tempo aí não tem eficácia, nada altera, nada produz .

* * * * *

Bem diferente é o tempo bergsoniano. É difícil falar dele, porque, como se viu, nossa inteligência, nossa linguagem, nossa consciência, seriam atravessadas por uma tendência anti-temporal desde a raiz.

Bergson pensa o tempo como continuidade e heterogeneidade4. Continuidade: há uma ligação entre o instante que passou (o passado) e o que passa agora (presente). Não se trata de simples sucessão; não são elementos separados que se sucedem um ao outro (pois então haveria divisão): o passado sobrevive ainda no presente, carrega algo de si para ele, mistura-se nele numa criação imprevisível.

É como um movimento: não se constitui da soma de paradas sucessivas, mas deve ser pensado indivisível, um continuum que liga o passado no presente e insere ambos no por-vir, no aberto. Há portanto heterogeneidade, isto é, cada instante atual, influenciado por um passado singular, irrepetível, é, ele também, singular e irrepetível.

O tempo é uma multiplicidade, portanto. Compreende diferenças5. É preciso sublinhar aí a imprevisibilidade do tempo real. Cremos poder prever acontecimentos, baseados em seu passado imediato. Mas é claro que tal previsão só é possível na medida em que esse passado se conserva inalterado, na medida em que vemos repetições no tempo. Prever é exatamente ver no futuro, algo já visto, simples repetição.

Para Bergson, no tempo real não há repetição. Cada momento do tempo é único. Mesmo assim nossa inteligência, desconsiderando o sutil andamento do tempo sobre as coisas, procura a repetição e a insere deliberadamente onde não a encontra, para, nisso, prever e agir.

* * * * *

O mesmo não ocorre no domínio da vida. Aí não podemos desconsiderar o tempo. Evoluímos rapidamente, e isso se dá, para Bergson, justamente pelo acúmulo de tempo. “De fato, por toda parte onde algo vive há, aberto em algum lugar, um registro no qual o tempo se inscreve”6.

O tempo implica conservação do passado. Do ponto de vista ontológico, o todo do passado se conserva, numa acumulação gigantesca. É utilizando esse passado que a vida estende sua influência sobre o futuro. Mas não todo o passado: o organismo se aproveitaria dessa memória ontológica criando uma memória orgânica que, mais que acessar o passado, o selecionaria em função da ação presente.

Haveriam então duas memórias: a memória “ontológica”, voltada para o todo do tempo, e a memória biológica, voltada para a ação no presente. Assim também haveriam dois tempos: o tempo heterogêneo, efetivo, pura virtualidade – tempo ontológico – , e o tempo homogêneo, abstrato, fruto da inteligência – tempo psicológico ou da ação.

Sublinho ai que, para Bergson, a cognição é pensada inteiramente em função da ação, e de uma ação que se efetua no presente. Esse presente da ação espelha, para o organismo, sua capacidade de agir sobre as coisas. Dito de outra forma, dá a medida das repetições que o organismo consegue inserir no real – ou em sua crença no real.

Assim, nossa cognição se estruturaria criando para si mesma uma temporalidade fictícia, na qual a repetição é destacada e o novo obscurecido. Quanto mais eficaz minha ação, mais eu desconsidero o tempo real. E, ao contrário, seria necessário uma espécie de afastamento da eficácia da ação, um certo excesso vital, uma capacidade de aproximar-se da morte, para permitir-se acessar essa temporalidade real, essa pura indeterminação aonde o eu não age, mas, antes, é agido (isto é, chegou ao tempo real, aonde “é vivido” pelo acúmulo do passado).

* * * * *

Teríamos então dois regimes subjetivos em função do tempo: um, ligado ao estático e ao presente – o tempo homogêneo-, tempo da ação, montado por nossa inteligência e nossa memória em função da conservação do organismo. Tempo da repetição à serviço da vida. Outro, ligado ao tempo como movimento aberto e inacabado, ao virtual – tempo heterogêneo. Tempo de não agir, mas de ser agido, tempo da não conservação, mas do que muda, tempo da indeterminação à serviço da criação. Um eu-espacial e um eu-temporal, respectivamente.

Pensamos o tempo homogêneo, mas vivemos no tempo heterogêneo. Pensamos o estático, com elementos estáticos, mas estamos imersos no tempo que flui. Acessamos o tempo homogêneo pela inteligência. O tempo heterogêneo, para Bergson, é acessado pela intuição. A intuição, como simpatia ao virtual, seria a abertura, no sujeito, a essa temporalidade real, não determinada pela ação presente, mas aberta justamente à abertura que há no existir.

Penso que poderíamos aproximar esse eu-espacial do sistema da consciência em Freud, e o eu-temporal do inconsciente, mesmo que, para Freud, a consciência é que estaria ligada ao tempo, ao passo que o inconsciente, não. Se trabalharmos com a hipótese de que a noção de tempo para o pai da psicanálise é mais próxima desse tempo homogêneo que definimos acima, o problema se resolve. O não-tempo do inconsciente se aproximaria do tempo heterogêneo ou real em Bergson.

Uma passagem do trabalho “Sobre a transitoriedade”7 pode ser lida a partir desse contexto. Alí, Freud aproxima a afirmação da passagem do tempo com a capacidade de elaborar o luto que o tempo, em sua transitoriedade, continuamente nos impõe.

A partir do que dissemos acima, podemos pensar que é o eu-espacial quem sente-se morrer diante da presença inescapável do tempo. Poder viver no tempo, com tudo de indeterminado e de incompletude que ele comporta, passaria por essa capacidade de suspender-se ou de afirmar a própria morte, numa identificação com o tempo enquanto eu-temporal.

* * * * *

Uma outra passagem, dessa vez de Luiz Claudio Figueiredo, nos permite outra aproximação. Trata-se de um texto sobre técnica. Nele, o autor salienta o caráter negativo das prescrições técnicas de Freud, que sempre dizem o que NÃO fazer, ao passo que pouco se diz sobre o que fazer de fato.

Essa aparente insuficiência seria proposital, para Figueiredo. Pois o que Freud teria buscado aí seria, sobretudo, evitar posições que impeçam o essencial, ou seja, a própria liberdade criativa na relação clínica.

Assim, interdita-se o uso abusivo da sugestão; o furor interpretativo ou compreensivo; também a pressa ostensiva na cura não é recomendável. Mais interessante seria uma discreta – mas firme – convicção de possibilidade de cura, de onde se retira firmeza e consistência para insistir na posição de analista. Sublinho: um sustentar-se no tempo enquanto fazendo-se.

No conjunto, o que se vê é a interdição a todas as formas de imposição (impaciência, excesso de determinação, pressa com as interpretações, extração a fórceps de lembranças…). Barra-se a imposição para que possa se constituir um espaço de abertura. E não seria a imposição aquilo mesmo que, saturando o tempo enquanto criação indefinida, ‘destemporalizaria’ a ação?

Abertura que se constitui enquanto uma forma particular de presença, e, por isso, numa forma ética: estar presente sustentando ao mesmo tempo uma ausência de si (enquanto tempo homogêneo). Dito de outro modo, estar presente enquanto forma (eu-espacial), mas abrindo continuamente espaço para uma ausência de si (eu-temporal). Nos termos de Figueiredo, uma “presença reservada”.

O fundamental aí é uma reserva de si para o outro, um espaço não ocupado (nem por si mesmo) onde poderão surgir lampejos de uma experiência nova. Reserva enquanto escuta para o novo. Reserva de si para a alteridade, indeterminação – para o tempo real.

Nesse sentido, o que o analista pode oferecer ao paciente é sua progressiva ausência. Introjetando essa ausência na relação consigo mesmo, criando, de si para si, um espaço, um intervalo, é também a experiência do tempo como indeterminação que o paciente redescobre. O que implica também uma certa disponibilidade para a morte do eu enquanto determinação.

O analista sustenta essa ausência (de si) NO PROCESSO MESMO DA ESCUTA. Sustenta essa criação de vazios em si. Assim como, na análise, sustenta a posição analítica de escuta – presença reservada – para as criações do paciente, que deve se confrontar a cada vez com um vazio.

Um vazio que é a própria materialização do tempo real, enquanto morte de si, mas abertura para a vida.

Recortai no espaço vazio das paredes portas e janelas

a fim de que um quarto (eu) possa ser usado.

Desta forma o ser produz o útil

mas é o não-ser que o torna utilizável (vivo)” (Lao-Tsé, 21)

1Relativamente, claro.

2Bergonismo, cap ??/

3Pensei que essa ‘incompletude’ do tempo o liga com a noção de “falta”

4Bergsonismo,

5mas tais diferenças não são dissociáveis de forma absoluta, pois isso significaria dividir o contínuo e “parar” o tempo, para isolar nele um instante, um elemento (note-se que ‘parar’ também é um conceito espacial)

6“A Evolução Criadora”, Bergson, pg 18

7Livro XIV das “Obras completas” de Freud, pgs 317/319

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