Winnicott – a arte & a guerra

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Winnicott entende que nossa relação com a realidade é uma relação … tensa. Lembremos[1] : o bebê foi seduzido para a vida pelo cuidado materno; esse cuidado funcionando, no ritmo certo, cria uma “bolha” que protege o bebê das agruras da realidade e do tempo – coisas que não controlamos. Aos olhos do bebê, no entanto, tempo e real parecem se submeter aos seus desejos… quando na verdade é a mãe que, sincronizando o cuidado ao apelo da criança, cria essa ilusão. É a velha questão do seio: o seio já estava lá, é claro; mas para o bebê, o seio foi criado por sua fome, sua vontade. Ele cria as coisas, ele alucina – mas a mãe faz parecer que, do ponto de vista dele, o bebê alucina o real.

 

O próprio desenvolvimento quebra essa sincronicidade, já que a criança deixa de ser tão frágil e dependente de cuidados. Começa então a haver mais espaço entre o apelo e o cuidado, ou seja, mais “realidade” vai sendo ‘injetada’ na relação. “A realidade é uma ofensa”, dirá Winnicott: sim, pois ela nos tira aquela ilusão de onipotência que vínhamos embalando até então. Onipotência lastreada pelos cuidados da mãe, que sustentava nossa diluição no ambiente, nosso co-pertencimento ao todo. Aos poucos, nossa criação não vai mais corresponder ao real, e por isso mesmo “real” e “alucinação” – ou criação – vão se separando.

 

Em consequência, crescendo, nos vemos obrigados à considerar a realidade, mas – e isso é importante – ainda como uma forma de satisfazer nossos desejos. Não é que nos interessemos pela realidade das coisas; é só que, para não sermos desmascarados em nossa “não onipotência” diante do real, preferimos ‘alucinar’ – criar, como no início – ALÍ AONDE O REAL ESTÁ.

 

Dito de outro modo, buscamos fazer coincidir nosso criação com uma realidade que lhe dê suporte, NÃO pela realidade da coisa, mas sim porque essa coincidência vai permitir que o desejo fale ainda de nossa onipotência – mesmo que, para isso, tenhamos que atendê-lo laboriosamente. Numa palavra, nós criamos – e a realidade “respondeu”. Na verdade, tivemos o cuidado de “criar” O QUE JÁ EXISTE, apenas para poder sentir novamente aquela integração com o ambiente, aquela diluição e poder que desfrutamos ao nascer.

 

A realidade é, então, um jogo ruim. No fundo todos toparíamos uma onipotência revisitada, uma vida aonde não exista separação entre o desejo e sua realização, aonde somos, de certa forma, integrados ao todo, ligados ao todo, de forma que não exista contradição nem conflito, luta ou esforço. Nós somos o todo. Nós somos o seio.

 

***

 

Tudo isso para falar da arte e do artista. Porque a arte, de certo modo, recupera algo desses primeiros tempos de vida, desse co-pertencimento do homem às coisas. A arte nos devolve àquela visão primeira, aquele olhar que tínhamos para a vida quando recém nascidos, um olhar amistoso, de quem contempla, sereno, o mundo – como sua posse. Mas o artista também é um homem, e um homem adulto, “realizado”. Também ele sofre com a realidade e a necessidade de considerar a realidade – e com ela, nossa finitude. Ele sofre, repito, como todos nós, “onipotentes decaídos”; mas não chama esse sofrimento de ‘sofrimento com a realidade’. Ele dirá, antes, que sofre com a burguesia, com a obtusidade do tempo presente, com a calmaria dos homens da sociedade, com a falta de revolta, de luta, de sangue, etc.

 

Lembrei disso lendo um trecho da biografia de Freud escrita por Peter Gay. O trecho em questão trata dos primeiros dias daquilo que veio a se tornar a primeira guerra mundial, dias que, hoje, com um olhar retrospectivo, imaginaríamos tristes e desolados. Mas não é isso que nos revela o autor. Cito:

 

“A coisa mais extraordinária em relação a esses acontecimentos catastróficos não foi tanto o fato de terem acontecido, mas sim a forma como foram recebidos. Europeus de todas as espécies reuniram-se saudando o advento da guerra com um fervor que beirava uma experiência religiosa. […] A ideologia triunfante era o nacionalismo […]. A febre da guerra patriótica acometeu romancistas, historiadores, teólogos, poetas, compositores, de todos os lados,  […]. O poeta austríaco Rainer Maria RIlke, […] celebrou a deflagração das hostilidades com “Cinco Canções”, datadas de agosto de 1914, onde ele via o “Mais remoto e inacreditável Deus da Guerra” a se erguer novamente: “Por fim um Deus. Como frequentemente não mais nos apoderávamos do Deus pacífico, o Deus do Combate se nos apodera de súbito, brande o facho” […]. “Guerra!”, exclamou Thomas Mann em novembro de 1914, “era purificação, libertação o que sentíamos, e uma enorme esperança”; ela “incendiou os corações dos poetas” com um sentimento de alívio: “Como poderia o artista, o soldado no artista, não louvar a Deus pela ruína de um mundo pacífico do qual ele estava farto, absolutamente farto!” (Peter Gay, pp 322/323, grifos meus)

 

Farto de um mundo por demais pacífico, o poeta se revolta com ele, proclama a guerra, conclama a todos para o combate. Porque, na arte, há criação mas também destruição. Para criar é preciso antes destruir. E este é o sentimento que, talvez, captamos nos exemplos acima: “abaixo com esse mundo, com essa gente complacente, com essa mesmice”. O artista quer algo mais, quer um mundo novo, e sempre se colocará contra o mundo – a realidade – atual. Mas… adorar a guerra??…

 

Peter Gay comenta, citando o crítico Karl Kraus, que “os escritores que lançavam esses frenéticos e quase dementes apelos às armas lutavam energicamente, e com êxito, para escapar ao serviço no fronte“… (pg  323). E continua: “Suas explosões constituíam um clímax adequado a décadas de irritação contra o que eles e seus ancestrais de vanguarda gostavam de denunciar como a cultura burguesa obtusa, segura, vulgar; eles resumiam em si uma paixão jocosa, sofisticada e irresponsável pela desrazão, purificação e morte” (pg 323).

 

Não teria muito sentido criticar os artistas por sua falta de realismo, quando a arte é, essencialmente, essa criação sobre ou para além do real. O artista é, essencialmente, o desenvolvimento daquela luta contra a realidade, daquele mal-estar que todos vivemos com ela. Interessa-me bem mais tentar pensar nos limites, tanto da arte quanto da “fuga da realidade”, visto que, como pretendi mostrar no exemplo acima, o homem não está isento de se exceder e adorar “falsos Deuses”, parodiando Rilke.

 

***

 

Vou simplificar a coisa e supor que a primeira guerra mundial se baseou, à nível psicológico, naquela ideologia dos nacionalismos de que fala Peter Gay. Entendamos: todo ser humano deseja, no fundo, retomar àquela onipotência da primeira infância. Contra isso colocam-se nada mais nada menos que toda a realidade, o tempo, o fato de as pessoas serem diferentes, de cada um ter uma perspectiva… de não haver contato mágico entre nosso desejo e sua realização, nem muito menos entre o que queremos e o que os outros percebem, querem ou respondem… Resumindo, todos esses “contras” são o “outro” – porque nossa onipotência implica em que o nosso “EU” É o mundo; não há “outro” nisso aí. Já o tempo, a realidade, as outras pessoas, os desentendimentos, as diferenças… são todos “outros” que se chocam contra nosso Eu.

 

Assim, proponho que a guerra se baseou, em alguma medida, nesse mecanismo psicológico, nessa vontade de retomar ao absolutismo do “Eu”, que cada um sentia em si mesmo – e projetava em sua nação. “O MEU país é melhor” = “EU” sou melhor; “eu posso tudo”; “eu sou absoluto”, etc. Cada país escolheu um “outro” para ser o contrário desse absolutismo, e buscou na guerra afirmar sua onipotência.

 

Instaura-se então um círculo vicioso: eu quero a guerra porque preciso sentir que sou onipotente novamente, e cada derrota inflama mais a ferida, assim como cada vitória faz-me sentir mais próximo do ponto almejado. Tudo converge para a destruição do “outro”, e nada se opõe à isso. Somente o avanço da guerra, com o acumulado de perdas, faz perceber que a “onipotência” que se buscava não será alcançada tão cedo.  A dissonância entre o que se busca – o ideal onipotente – e o que se tem – uma luta cara, cansativa e provavelmente sem vitoriosos – é grande demais. E essa divergência é também um insulto à onipotência; pois “eu criei o real… eu preciso ressoar com o real”.

 

***

 

No curso do desenvolvimento, Winnicott entende que uma “guerra” parecida trava-se entre o sujeito e o “outro”, incluindo aí a mãe, aquele objeto de amor que fez tudo parecer resolvido no início. Perceber a mãe como um “outro” deve ser dilacerante para o bebê. A proposta de Winnicott para solucionar essa equação é muito interessante, e equaciona tanto a experiência de ser agressivo – parte da saúde, na visão dele – quanto a necessidade de um limite para a agressão, limite que não pode ser dito simplesmente externo.

 

Mas isso fica para um outro post.

 

***

 

  1. Falei mais sobre isso no post https://euemtorno.wordpress.com/2017/05/31/trecho-de-ogden-sobre-winnicott-2/

 

 

4 Respostas para “Winnicott – a arte & a guerra

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