Na sala de análise – Antonino Ferro

Divã

 

Posto na sequência alguns tópicos extraídos do livro “Na sala de análise”, de Antonino Ferro. Ferro é um autor especial para mim, na medida em que seu estilo de análise, de escrita e de pensamento foram fundamentais para que eu encontrasse meu próprio caminho no vasto “campo aberto” de que se compõe a prática na psicanálise. Os tópicos não substituem a leitura do livro, pelo contrário…

 

Para quem não é familiarizado com o assunto, aí vai um resumão: Bion considera que tudo que chega ao aparelho psíquico, tanto vindo de fora quanto de dentro, é um “elemento beta”, um elemento bruto, sem sentido ainda, impossível de ser ligado a outros elementos, e portanto impossível de lembrar – logo, de esquecer – , enfim, um elemento desconfortável, incômodo, à espera de alguma elaboração. Essa elaboração acontece por via de uma função, que Bion chamou de “função alfa”, que pode ser tanto uma função mental (introjetada) quanto o cuidado exercido pela mãe ao bebê, ou o acolhimento que o analista ajuda a construir aos elementos beta do paciente. Finalmente, um elemento beta elaborado, digerido, é chamado de “elemento alfa”, e esse processo de digerir um elemento em alfa é chamado de “alfabetização”. Os elementos alfa podem ser ligados uns aos outros, constituir memória (e esquecimento), e são os antecessores dos pensamentos, das emoções e das imagens mentais). Logo, pensamento ou emoção = elementos beta acolhidos e transformados. Ferro vai um pouco mais adiante nessa lógica, e aposta na narração como elemento de transformação. Isto é, narrar, colocar em palavras, como uma forma de “continência” dos problemas. Seguindo Bion, Ferro vê na transformação (Beta em Alfa), na expansão da função alfa e do “parelho para pensar os pensamentos” a meta da análise.

 

Posteriormente pretendo escrever um post sobre as diferenças de abordagem que essas premissas implicam, em relação à uma psicanálise mais tradicional.

 

***

 

  • Fundamental é a noção de CAMPO; o campo é o somatório de tudo que acontece entre analisando e analista; todas as imagens-palavras-impressões trocadas, e sobretudo mutuamente incentivadas-transformadas-criadas-elaboradas. (fls. 27)
  • os elementos beta do paciente devem expressar-se no campo e, em contato com a função alfa deste e do analista, irem se transformando em elementos alfa – ganhando nome e sentido; não sentidos verdadeiros (não se trata de decifração) mas sentidos que impliquem em vinculações-adições de sentido. Fundamental é que os sentidos expressem a  capacidade da mente do analista em acolher os elementos beta, pois é essa capacidade que será introjetada pelo paciente (essa introjeção indo no sentido da cura)
  • a cura, então, está na direção da criação, no paciente, de um aparelho para pensar os pensamentos (pensamentos são elementos alfa, já elaborados,  o que supõe, portanto, também, a intensificação da capacidade de criar sentidos – transformar beta em alfa – no paciente); esse aparelho será fruto da introjeção criativa das capacidades da mente do analista, tais como experimentadas realmente; na experiência do campo (fls 27-29)
  • daí a metáfora de Ferro sobre a análise como algo feito por dois moinhos: um a vento (para as palavras) e outro a água (para as identificações projetivas), aos quais são levados para moer grandes sacos de trigo (elementos beta) que deverão virar farinha (elementos alfa), ser amassados e cozidos, originando os pensamentos oníricos (pensamentos com os quais compomos nossa ficção de vigília, de estarmos “acordados”; por isso “pensamentos oníricos de vigília”) ; (fls 28)
  • Nessa metáfora dos moinhos, espera-se que mais sacos de trigo passem no sentido paciente –> analista; ocorrendo o contrário, há intrusão do analista no paciente e sobrecarga desse;
  • Ferro propõe que desse trabalho de “moagem” surgem os “agregados funcionais”, que são agregados de sentido que não pertencem nem a um nem a outro, mas ao campo, e que são “funcionais” justamente em relação ao campo – ao encontro dos “moinhos” de analista e paciente; (fls. 28)
  • escutando tudo que ocorre no campo como uma narração contínua em tomada direta das emoções e movimentos do campo, temos uma indicação do sucesso ou insucesso das transformações no sentido terapêutico (beta para alfa) (fls 29)
  • tais sinalizadores são a resultante, momento a momento, das forças emocionais do campo; eles constituem uma aproximação significativa da verdade emocional do campo (o “O” da dupla – ver BION); fls 29
  • daí que podem ser usados esses sinalizadores para se pensar  a analisabilidade ou não de um paciente; como os sinalizadores já são produtos do campo, e o campo é relacional, a analisabilidade é uma função da capacidade do analista de acolher os elementos beta do paciente; fls. 30
  • o modelo de escuta do analista, se usado sem consciência, estrutura o campo e termina por confirmar as teorias do analista. Há uma “colonização interpretativa” das falas do paciente. Fls. 32
  • com isso o analista evita permanecer no ignorado, na posição PS. Ao invés disso, é sugerido permanecer em PS, escutar, acolher, baseando-se nas suas  “capacidades negativas” (ver BION – tolerância à dúvida; ao não saber, que permite uma atenção não-focalizada-não-saturada em tudo o que o paciente diz), e, daí, poder passar a algum fato selecionado que comporte uma hipótese interpretativa, nascida de alguma emoção que agrega o que estava disperso em PS e o faz passar à D; fls 33
  • isso implica, obviamente, em uma operação de luto por tudo aquilo que não foi acolhido nessa passagem PS → D; e permitir-se esse luto (que é também um luxo) não é fácil… mas daí a necessidade de estar em escuta “sem memória e sem desejo”; fls 33
  • em análise, não se usam teorias; teorias são muito abstratas e muito saturadas; em análise, usam-se modelos, conjuntos de hipóteses que permitam criar sentidos a algo desconhecido; daí a importância de usar mais as próprias “capacidades negativas” do que interpretações decodificadoras ; fls. 34
  • como quesito sobre a questão da analisabilidade ele propõe a avaliação da função alfa do campo; um aspecto útil para isso é considerar, já no  primeiro encontro, a possibilidade de operações transformadoras na sessão, vendo quais as capacidades de formar imagens, histórias, reveries que se ativam na dupla; pequenas intervenções acolhedoras podem, por exemplo, transformar a direção narrativa da sessão, o que seria um bom indicador da fertilidade da dupla (fls. 35);
  • pacientes muito graves ou regredidos implicam em riscos para a mente do analista, que terá de elaborar angústias muito primitivas e catastróficas; (fls. 35)
  • o campo também sinalizará o fim da análise; essa sinalização não depende tanto de uma teoria que o preveja, quanto de um modelo que o permita; (fls. 36)
  • dito de forma abstrata, a introjeção suficiente, pelo paciente, do “aparelho para pensar os pensamentos” do analista, é um ponto-chave da sinalização do paciente do término da análise. O que é introjetado aí é também o método que o analista criou para dar sentido aos elementos beta do paciente; (fls 37)
  • interessante ver que esse “aparelho”, no analista, relaciona-se com sua capacidade de passar da posição esquizoparanoide (PS) para a posição depressiva (D), e em sua capacidade de relacionar e criar conteúdos e continências; para isso é fundamental, portanto, que o analista se deixe levar até um estado de PS, e possa sair de lá; essa experiência real é que deve ser “ensinada” – introjetada – pelo paciente… daí a necessidade de o analista não se defender…. (fls 37)
  • é fundamental, portanto, o quanto a mente do analista acolhe e transforma no aqui e agora as angústias do paciente – as microtransformações em sessão. Não importa, nisso, o que o analista acredite estar fazendo, ou o dialeto em que creia que faça algo (fls. 38);
  • lembrar sempre da aproximação entre a análise e a relação mãe-bebê : acolher, transformar, é cuidar, e permitir criação em relação; e não fazê-lo equivale a traumatizar; por outro lado há interpretações intrusivas, que ferem ou fecham o campo…
  • Pode ser util fazer uma separação entre interpretações fortes e saturadas, que tendem a ser raras e bem fundamentadas (exigem tbém que o paciente possa digeri-las; ele deve estar quase alí…), e interpretações leves, insaturadas, que são ligações entre o que é dito e alguma outra situação, do campo ou do paciente, comentários, nominações, resumos do que é dito, etc;
  • ele fala da interpretação como uma cesura, um corte; atentar então para essas duas funções da interpretação: uma, dura, como corte, e outra, leve, acolhedora, que fala antes de um ajudar a criar histórias novas , a desenvolver o texto;
  • há que se suportar uma relativa insaturação do campo (é estar em PS); suportando bem isso (vivendo-o, claro, mas elaborando-o; não se trata de racionalizar em PS…), se permite ao campo se dilatar e estender a partir do paciente; o campo que se ativa é uma função das capacidades negativas do analista (fls 65);
  • Ele cita três níveis de ‘decodificação’ do texto: o nível das relações históricas, real, exterior,  onde os personagens tem uma existência “própria”, o nível das relações intrapsíquicas, onde os personagens são um disfarce comunicável da realidade interna do paciente e o nível das relações interpessoais (intragrupais), onde os personagens nascem como “hologramas da inter-relação emocional atual analista-paciente; (fls 67)
  • esses vértices se autoconfirmam, dada a estabilidade do vértice de escuta; (68)
  • em contraposição a eles, ele apresenta um quarto modelo, onde o vértice de escuta é instável, compreendendo todas as histórias possíveis; nesse modelo há liberdade de combinações narrativas exponenciais; (68)
  • aí, obviamente, já não se pode mais “decodificar” uma mensagem, mas somente construir uma história que terá a característica de ser necessária àquelas duas mentes, já que serão as defesas de ambos (do campo) que organização a narração num sentido próprio (68);
  • isso acontece contanto que o analista se deixe transitar pelas emoções da sala; essa modalidade suscita suspeita e medo no analista, pois supõe a renúncia a um código certo de leitura em favor da capacidade criativa de ambos; Ferro não acredita que se possa trabalhar sempre nessa posição livre, havendo necessariamente oscilação entre momentos baseados nos modelos rígidos, e momentos baseados no trabalho criativo (68/69);
  • se o analista se permite compartilhar o “dialeto” do paciente, a relação analista-paciente tende a gerar um acréscimo de significados (é um diálogo, uma conversa que vai sendo enriquecida pelo acréscimo dos diversos pontos de vista); o contrário disso é a manutenção dos significados, ou sua tradução num dialeto mais de acordo com o analista, ou, pior ainda, o empobrecimento dos significados, por enrijecimento do analista. (70)
  • O acréscimo de significado é tanto mais necessário quanto mais graves forem os pacientes; eles não toleram o empobrecimento de significado de sua comunicação (70);
  • Se a onda emocional (identificação projetiva) não é acolhida no aqui-agora do campo, mas interrompida e fotografada pela interpretação, o paciente (especialmente os graves) o sinaliza imediatamente; (71)
  • a questão é montar junto com o paciente os scripts/cenografias necessários para que ele possa exprimir o que vive, permitindo também transformações emocionais no campo; o não-acolhimento dessa necessidade tende a gerar reações terapêuticas negativas (atuações, projeções psicóticas); (72)
  • o texto linguístico-emocional da sessão nos sinaliza continuamente as hemorragias do mesmo; o que acontecerá dependerá da nossa capacidade de escuta; (73)
  • Trabalhar no aqui e agora não significa fazer contínuas interpretações sobre o que está acontecendo no hoje, mas apenas que o que o paciente traz deve encontrar um acolhimento para uma transformação narrativa no hoje; tudo o que o paciente traz no hoje deve ser acolhido, transformado, semantizado com a contribuição ativa do próprio paciente (77);
  • Toda a sessão pode ser categorizada ao longo da fileira C da grade (ver Bion, “Elementos de Psicanálise”), como um sonho que a mente do paciente faz do funcionamento da mente do analista e do funcionamento do campo (79);
  • A verdade relacional (dos parceiros do campo) é o único lugar possível das transformações, sendo as outras duas realidades (a das relações histórias e a das relações intra-psíquicas do paciente) o lugar do conhecimento (mesmo que conhecimento e transformação estejam em necessária oscilação entre si). (80)
  • As partes primitivas de cada paciente testam o grau de disponibilidade mental, tendo uma percepção do gradiente de identificações projetivas que a mente do outro está disponível para acolher; o paciente conhece sempre, e retorna, a qualidade do funcionamento mental do analista na sessão; (80);
  • O principal interesse do analista deve ser pelo material que ele conhece diretamente: a experiência emocional das sessões de análise. (83)
  • são infinitas as possibilidades de desenvolvimento narrativo, o que aproxima a sessão de uma “obra Aberta”, conforme ECO; nisso, deve-se entretanto atentar que a) haja, na direção a ser tomada, um gradiente beta → alfa positivo, a favor do paciente, e b) que o desenvolvimento da sessão tenha como “limite” o levar em conta a transferência (como repetição e como projeção das fantasmatizações); (83)
  • a resposta do paciente nos permite orientar no percurso, desde que vejamos nela: a) uma quota de transferência como repetição; b) uma quota de transferência como projeção de fantasmas; e c) a organização de tudo isso por parte do pensamento onírico de vigília, que “sonha” a resposta ao estímulo interpretativo em tempo real; (84);
  • A patologia do paciente não entra no campo a não ser com relação a pessoa do analista, que por sua vez contribui ativamente para a constituição da patologia do campo, que será o objeto concreto da elaboração psicanalítica; (isto é, é nas relações analista-paciente, tal qual atuadas no campo, que se darão as transformações analíticas).; (85)
  • O analista deve deixar-se envolver, quase capturar, pelas forças do campo, para depois recuperar uma tercialidade através da interpretação e daquele “segundo olhar” que permitirá ver com distância o processo que, por um lado, ele ajudou a constituir, mas por outro deve ser capaz de captar e descrever em sua especificidade; (85);
  • O insight se verifica quando analista e paciente adquirem uma compreensão comum das fantasias inconscientes ativas no campo naquele momento. Isso coincide com uma reestruturação do próprio campo, pois a possibilidade de pensamento e de comunicação de áreas antes resistentes as dissolve (enquanto defesas à comunicação e ao pensamento) (86);

Uma resposta para “Na sala de análise – Antonino Ferro

  1. Pingback: Vinhetas clínicas 1 – Francesca | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s