A agressividade em Nietzsche

agressividade

 

 

Publico abaixo um texto antigo, sobre a agressividade em Nietzsche. Parece interessante contrapô-lo, hoje, ao texto que publiquei imediatamente antes, sobre “continente e violência”, já que, em certa medida,  o texto anterior responde antecipadamente à este. De fato, no texto sobre “continência” vemos uma hipótese de A. Ferro criticando a existência de um ‘excesso pulsional’ no humano, e atentando para uma defasagem no lado relacional, social ou ‘mental’ da balança. Numa primeira visada, essa crítica valeria para a hipótese nietzscheana também, já que essa se baseia num excedente pulsional agressivo. Mas olhando bem, é possível argumentar que cabe na hipótese do filósofo alemão uma defasagem no ‘continente’, dado que o animal humano, antes de ser dominado e escravizado, viveria uma relação de pura expressão agressiva com o ambiente. Numa palavra, a escravidão teria transformado o ambiente de maneira brutal, e essa transformação, e não o excedente pulsional, seria o decisivo. Discussões para um próximo post…

***

“Uma das grandes vitórias da psicanálise, parece-me, foi ter tido a coragem e a obstinação necessárias para dar consistência à uma idéia que não é nova, mas que sem uma obstinação quase irracional não chegaria tão cedo ‘à razão’: a de que não basta expor a consciência à determinada informação para que ela “tome consciência”; que há processos inconscientes determinando essa capacidade de conscientização, e que, portanto, “tomar consciência” é efeito complexo de várias causas, nem todas conscientes.

Nietzsche, a seu modo, também chamava a atenção para a situação ‘subsidiária’ da consciência no conjunto do corpo[1]. Tal percepção, entretanto, permaneceu relativamente muda, recalcada. Questão eminentemente política? Talvez. Quiçá exista aí, também, uma certa medida daquilo que o tempo está disposto a escutar – ou a não-escutar. Não era Nietzsche mesmo que dizia que só se ouve aquilo que já se sabe?[2] E que saber, antes de tudo, é uma questão de coragem, e não de informação[3]? Mas analisemos um caso particular.

 

A idéia de que a interioridade é um efeito da agressividade não é, certamente, um lugar comum. E no entanto encontra-se explicitamente formulada na Genealogia da Moral[4], já em 1887, e, de certa forma, é como se não o estivesse. Podemos, com isso, medir sua exterioridade com relação à nossa cultura? Talvez. Talvez  seja indicado, ao contrário, seguir essa idéia mais de perto, em suas consequências, seu outramento fundamental, mas também em sua irmandade e proximidade inusitadas.

 

Há toda uma tradição, já antiga, que passa por Rousseau, Locke, Hobbes e os iluministas, que apoiava o surgimento da sociedade num certo uso da razão (concebida, então, como razão natural). Essa idéia perdurou até bem pouco tempo atrás – e talvez algo dela perdure ainda – sofrendo então vários deslocamentos interessantes, dentre os quais o de Freud, que situa o surgimento do social não na razão, mas no crime, na desrazão oriunda da ambivalência humana, a qual, por sua vez, é pensada como característica das relações familiares do homem – calcadas no amor e no ódio -, e portanto, de certa forma, também, ‘natural’.

 

Ambas as escolhas dão margem à discussão, já que partem de um dado – a razão, os afetos  parentais, a culpa em particular – que é, em si mesmo, pressuposto. Se por um lado, obviamente, tais hipóteses encontram apoio na existência atual do que elas supõe (a razão, a culpa), por outro é na transposição dessa existência atual à origem, isto é, é em sua utilização como causa da sociedade, que a situação se complica. Mas é aí também que ela se torna interessante.

 

Nietzsche fez uma escolha bastante rica, e que, no contexto dessa discussão, ganha alguma densidade: para ele, a interioridade nasce junto com a sociedade, e ambas são filhas legítimas da agressividade. A agressividade, sendo comum a homens e animais (diferentemente da razão e da culpa), não suscita os problemas acima levantados, e não precisa ser pressuposta.

 

Entretanto, o homem se considera tanto mais “homem”, tanto menos “animal”, justamente na medida em que não é agressivo – ou, para ser mais preciso, na medida em que sua agressividade não aparece socialmente, isto é, conscientemente. Como entender isso? Esse é o ponto da inovação nietzschiana: ele supõe que o animal ‘homem’ se torna homem de fato, isto é, homem ‘humano’, à medida que a agressividade natural do animal homem é utilizada não mais para fora, contra outros homens, mas ‘para dentro’, isto é, contra o homem mesmo, contra as demais pulsões do animal homem[5]. É pela complexificação da agressividade que o homem pode controlar seus impulsos; pode fazer uso da memória mesmo contra seus interesses; pode manter relações afetivas não plenamente satisfatórias. Enfim, pode viver em sociedade.

 

Trata-se de um movimento tipicamente nietzschiano: alí onde a tradição do pensamento via um progresso na negação da animalidade, Nietzsche diz explicitamente: “é pela afirmação da animalidade, pela sua intensificação, e pela complexificação desta, jogando um animal contra outros dentro da selva que é o homem, que pôde surgir o ser humano, o homem em sociedade”. É somente ao afirmar essa animalidade que o homem pode, de fato, negá-la. Pois quem nega a agressividade – ou, para dizê-lo explicitamente, a animalidade – no homem é o próprio animal agressivo que nele perdura.

 

A obrigação de voltar essa agressividade contra si mesmo, em Nietzsche, não é fruto de afetos nem muito menos de raciocínios: tal auto-agressividade, como coisa terrível que é, só foi levada a cabo por meios terríveis: o domínio, a escravidão, o jugo de raças inteiras obrigou os dominados a encontrarem satisfações substitutivas para sua agressividade. E foi nesse solo e nessa origem, da exploração, da injustiça e da expressão pura da agressividade de uns, que outros, a eles submetidos, foram obrigados a inventar para si uma “interioridade”, isto é, objetos pulsionais que pudessem servir de meio de descarga para a agressividade obstruída. E assim o dominado dirige sua agressividade para sua sexualidade. Inventa ritos para realizar com dificuldade o que antes era simples, como a alimentação. Cria para si uma vontade de não esquecer, já que esquecer é uma forma de prazer[6]. Investe, em suma, contra si mesmo sua agressividade, dominando, em si, outras pulsões, para, por meio desse domínio, satisfazer a pulsão essencial do agressivo. E de tanto dominar-se, termina por transformar-se em senhor de si; ele, de escravo que era, torna-se homem soberano[7].

 

Temos então que, pelo domínio e pela injustiça, a agressividade é complexificada e como que “dobrada” sobre si mesma, encontrando satisfações substitutivas por influxo de um outro, um dominador, que obriga uma tal solução. Mas com isso temos as bases da sociabilidade: o sujeito encontra-se inevitavelmente atrelado a um Outro; por via desse atrelamento, reorganiza-se pulsionalmente levando sempre em contra esse Outro; dessa reorganização ele extrai controle de impulsos, suspensão do esquecimento, uso da razão e do pensamento, e até mesmo a culpa, todas formas de satisfazer sua agressividade ao não-agir, não-exprimir diretamente suas pulsões. O “interior”, portanto, a subjetividade, é um efeito direto do “exterior”, as relações sociais (o Outro) que estruturam os caminhos dessa reorganização pulsional e as formas de satisfação que elas alcançarão.

 

* * * * *

Talvez agora possamos entender melhor o silêncio que acompanha tais idéias nietzschianas, em seu arraigado anti-humanismo. Decorre delas que tudo o que estimamos, e que nos acostumamos a ver como valor e força – a razão, a percepção do outro e os afetos a ele endereçados, a memória, o controle dos impulsos, a própria sociabilidade – são efeitos necessários de injustiças e agressões milenares, inserções ‘cirúrgicas’ (sem anestesia) de tais predicados divinos num animal encurralado, espremido, pela sociedade. De fato, quem gostaria de tomar conhecimento disso? Reconhecê-lo suporia a aceitação de uma grande dose de auto-agressividade, a percepção de que uma animalidade comanda, a convivência saudável com uma espécie de superego às avessas, o supra sumo da agressividade colocado no papel de condutor da ‘racionalidade’ humana, rumo à sua “divinização”. De fato, esse é o pensador, para Nietzsche: alguém que exige de si mesmo não qualquer resposta, nem uma que apenas “funcione”, mas a resposta mais difícil, a resposta veraz[8]. Veracidade, bem entendido, como o ponto de fuga inalcançável que norteia a tensão entre uma vontade de aceitar qualquer proposição, efeito do ‘espírito animal’ no homem, princípio da inteligência, e outra vontade cruel, efeito da agressividade, que exige de si a verdade mais “verdadeira”, mais difícil, aquela que, justamente, não encontra em si apoios ou satisfações pulsionais secundárias. A verdade “em si”. O pensador, isto é, o artista da crueldade, aquele que retoma a auto-agressividade humana em favor do conhecimento e da criação daquilo que, no homem, é, a cada vez, a verdade.

[1]    NIETZSCHE, Além do Bem e do Mal, §3 e 19; Crepúsculo dos ìdolos, “O problema de Sócrates”;  Gaia Ciência, §354, e outros

[2]    NIETZSCHE, Hecce Homo, “Porque escrevo tão bons livros” §1

[3]    NIETZSCHE, idem, Prólogo, §3.

[4]    NIETZSCHE, Genealogia da Moral, II dissertação, §16.

[5]    NIETZSCHE, Genealogia da Moral, II dissertação, §16

[6]    NIETZSCHE, idem, §1

[7]    NIETZSCHE, idem, §2

[8]    NIETZCHE, ABM, §§ 229 e 230

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