Nietszche, Freud e a imanência da subjetividade

totem e tabu

Entendo imanência como aquilo cujas causas estão no mesmo nível do causado – o nível da nossa realidade; é o oposto de transcendência, que diz respeito a algo cujas causas estão em um nível diferente da realidade “comum”, compartilhada. O exemplo mais comum de transcendência é o conceito de divindade, que seria “causa de si mesmo”, o que significaria, basicamente, que suas causas não são as mesmas causas do resto do mundo, essas causas que nós, mortais, compartilhamos.

 

A importância desses conceitos prende-se à história da filosofia, e também à religião. Por exemplo, se Deus é imanente, significa que Ele é parte do conjunto das coisas, e sofre suas influências como qualquer ser. Assim, para dar um exemplo famoso, nem Ele mesmo poderia fazer com que 2 + 2 = 5. Em outras palavras, Deus estaria limitado pela realidade (e pela matemática…), uma vez que Deus seria parte dessa realidade, não estaria “fora” ou “além” dela. Já um Deus transcendente estaria além dessa realidade, e para Ele as leis daqui não se aplicariam. Isso tornaria possível dizer que “para Deus nada é impossível”, inclusive 2 + 2 ser igual a 5.

 

O que isso tem a ver com psicologia? Parece uma questão puramente teórica, filosófica. E é, hehehehe… mas pode ser útil ter isso em mente, quando vamos analisar conceitos e teorias em seu conjunto. Grosso modo, o movimento do pensamento ocidental nos últimos séculos tem sido marcado por uma busca maior de imanência, ao mesmo tempo que por um abandono da transcendência. Isso fica muito nítido quando se acompanha a história da religião cristã, um exemplo claro de pensamento transcendente: outrora dominante, hoje ocupa um lugar menor, frente à ciência, por exemplo, que seria uma corrente eminentemente favorável à imanência.

 

A psicologia fez parte desse movimento. Como veremos, Freud ensaiou vários passos em direção à imanência – o que combina, aliás, com sua veia cientificista – mas acabou, em alguns deles, criando uma nova transcendência. Mas não avancemos rápido demais.

 

***

 

Nas ciências humanas a dualidade imanência x transcendência pode ser aplicada aos conceitos que tentam dar conta da subjetividade. Por exemplo, uma noção transcendente da subjetividade seria entender que ela nos é dada por Deus, sendo então a “alma” algo além e separado do corpo. Já noções imanentes tentam explicar como a subjetividade surge do corpo mesmo, da vida tal e qual a conhecemos.

 

Nesse post gostaria de falar um pouco sobre dois grandes nomes na história da subjetividade, ou mais precisamente do movimento de transformação que levou a subjetividade de um âmbito transcendental (religioso) para um âmbito mais imanente. Falo de Nietzsche e de Freud.

 

* * * * *

 

1 – Freud

 

Freud propôs, em linhas gerais, que a subjetividade humana se inicia com a passagem do homem de um momento tribal ou fechado para um momento social ou aberto (termos meus). Nesse primeiro momento o homem seria mais propriamente um animal, vivendo em hordas compostas de filhos descendentes de um mesmo pai e várias mulheres. Os filhos seriam todos intimidados pelo “pai da horda”, que lhes proibiria o acesso às ‘fêmeas’. Até o momento em que o ódio gerado por essa proibição fizesse os filhos se unirem e juntos matarem o pai.

 

Freud argumenta que a culpa advinda desse assassinato – pois o pai era odiado mas também amado, e em seu poder servia também de modelo para os filhos da horda – faria com que os filhos “endeusassem” o pai morto, numa tentativa de compensar o ato extremo realizado e apaziguar sua angústia. Arrependidos, os filhos acordariam entre si que ninguém mais poderia matar a outrem, e que tampouco era permitido cobiçar a mulher alheia (o que teria sido uma das causas do parricídio). Assim, o pai morto acabaria transformado num Deus, e sua imagem serviria para lembrar a todos das “leis” da convivência entre irmãos: não matar e não desejar a mulher do próximo.

 

Freud chama então a atenção para a semelhança entre essas primeiras “leis” do convívio social e as “leis” psicológicas que ele vinha percebendo em sua clínica: como se sabe, Freud postulou a existência de um complexo de Édipo a governar todo o desenvolvimento de nossa subjetividade, e esse complexo se resumiria nas mesmas tendências que Freud imagina que existiram nos primeiros homens: o desejo de matar o pai e de desposar a mãe (uma das mulheres da horda).

 

No contexto deste artigo, a tentativa de Freud consiste em dar imanência a algo até então ainda muito obscuro e transcendente: nossa subjetividade. Ela nasceria, segundo Freud, do encontro de impulsos egoístas, agressivos e sexuais, e sua complexificação a partir das relações entre pais e filhos. Como essas causas da subjetividade são todas “internas” à própria subjetividade – não figuram num registro de realidade intangível, alheio, radicalmente “outro” em relação à ela – diremos que se trata de um esforço de imanência.

 

***

 

2. Nietzsche

 

Mas – e Nietzsche nessa história? Nietzsche foi um filósofo muito atento à sedução das teorias, e à facilidade com que criamos uma nova transcendência mesmo quando acreditamos estar fazendo o contrário. Ele dizia, por exemplo, na Genealogia da Moral – uma tentativa própria de encontrar causas imanentes para a moralidade – que geralmente falta aos historiadores autocrítica, e que eles muitas vezes apenas pegam um estado atual, resultado de transformações profundas e complexas, e o transpõe para um estado inicial, como “causa” daquele estado que procuram explicar. Assim, o estado em questão acaba atuando como “causa de si mesmo”. O que, como vimos, seria pura transcendência.

 

Se agora voltarmos essa crítica à concepção freudiana exposta anteriormente – não é exatamente isso que Freud acaba fazendo? Ao propor que a humanidade se desenvolveu através da culpa, ele não está utilizando um estado final – a culpa – como causa de si mesmo?

 

É o que argumenta Jurandir Freire Costa no artigo “Psicanálise e Religião” (estava disponível em http://jfreirecosta.sites.uol.com.br; hoje já não consegui acessar. Mas o argumento segue válido…), do qual extraio o seguinte argumento: a morte do pai, precisamente, a culpa, seria o operador imanente a transformar o ANIMAL homem no homem SOCIAL. Mas animais não sentem culpa; de onde viria essa culpa primeira? E mais: como os animais homens saberiam quais eram seus “irmãos” nessa horda? Como saberiam quem era o “pai”? Isto é, de onde viriam essas estruturas (familiares), se apenas o assassinato fundasse a sociedade (e a família propriamente dita?)

 

***

 

3 – A “imanência” é imanente?

 

Como vemos, a explicação proposta por Freud – sua tentativa de dar imanência a algo até então obscurecido por transcendência – tropeça numa questão lógica: ela não pode prescindir de conceitos e estruturas tardias, que seria o resultado de uma transformação, para explicar como se deu justamente essa transformação. Em outros termos, Freud utiliza o estado final para explicar o estado inicial. E acaba caindo na transcendência outra vez.

 

Num texto posterior pretendo apresentar a solução nietzschiana para a questão da subjetividade, tentando analisar até que ponto ele mesmo consegue manter-se na imanência. Por hora, quero apenas salientar que todo esse tratamento da questão é teórico. Isto é, discutimos mais a relação dos conceitos entre si, do que os conceitos propriamente ditos. Como já argumentei em outro post (disponível aqui), acredito que a prática tem precedência sobre a teoria, e muitas vezes atuamos de forma correta, mesmo sem saber explicar ou teorizar sobre o que fazemos.

 

Acredito que Freud tenha razão – ou que se aproxime dela, mesmo que, logicamente, sua teoria pareça falha. Mas não reconhecer essa possibilidade implicaria em transformar a lógica em… transcendente, isto é, em causa não-causada, explicação não-explicada por nenhuma outra coisa, e é justamente isso que estamos tentando criticar…

 

Por enquanto, explicitar aquilo que percebemos como ‘erros’ serve justamente ao propósito de fazer avançar a teoria e o diálogo. Afinal, não se trata tanto de negar a psicanálise quanto de reforçar um princípio que lhe é intrínseco, e ao qual Freud certamente subscreveria: a investigação. Mais ainda, a investigação na direção da imanência, o que, bem considerado, encontra-se no cerne desse movimento chamado psicanálise.

 

 

 

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