Trecho de Ogden sobre Winnicott

 

Transcrevo abaixo um texto de Thomas Ogden sobre o conceito de “holding” em Winnicott, tanto para salientar a escrita de Ogden em si quanto pela luz que ela lança sobre o conceito – aparentemente simples – de Winnicott.

(extraído de “Esta arte da psicanálise – sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos, de Thomas H. Ogden, Ed Artmed, 2005, pg 121 a 126. Meus comentários estão entre [ ] e em itálico)

“Como é o caso para quase todas as contribuições seminais de Winnicott, a ideia de holding é enganosamente simples. A palavra holding, como utilizada por Winnicott, é fortemente evocativa de imagens de uma mãe que nina delicada e firmemente seu bebê nos braços e, quando ele está em sofrimento, segura-o apertado contra seu peito. Estes estados psicológicos/físicos de mãe e bebê são os referentes experienciais essenciais para a metáfora/conceito de holding de Winnicott.

Muitos poucos psicanalistas contestariam a importância do impacto do holding materno sobre o crescimento emocional do bebê. Contudo, o significado do conceito de holding de Winnicott para a teoria psicanalítica é muito mais sutil do que esta ampla definição sugeriria. Holding é um conceito ontológico que Winnicott utiliza para explorar as qualidades específicas da experiência de estar vivo em diferentes estágios do desenvolvimento, assim como os meios intrapsíquicos-interpessoais mutáveis pelos quais a sensação de continuidade do ser se sustenta no decorrer do tempo.

SENDO NO TEMPO DO BEBÊ

A qualidade mais precoce de vivacidade gerada no contexto de uma experiência de holding é apropriadamente denominada por Winnicott “continuar a ser”, expressão que é toda verbal, destituída de um sujeito. A expressão consegue transmitir o sentimento do movimento da experiência de estar vivo em uma época em que o bebê ainda não se tornou um sujeito. O estado emocional da mãe em seu ato de segurar o bebê em seu estado mais precoce de continuar a ser é denominado por Winnicott “preocupação materna primária”. Como é verdade em relação ao estado do bebê de continuar a ser, a preocupação materna primária é um estado sem sujeito. Isso deve ser assim porque a presença sentida da mãe-como-sujeito rasgaria o delicado tecido do continuar a ser do bebê. Na preocupação materna primária não existe algo como uma mãe. A mãe “sente a si mesma no lugar do bebê” (Winnicott) e assim remove-se não apenas da experiência que o bebê tem dela, mas também da experiência que ela tem de si própria.[…]

Uma das principais funções do holding físico e psicológico inicial da mãe inclui o isolamento do bebê em seu estado de continuar a ser da alteridade implacável, inalterável, do tempo. […] O tempo [nas formas “humanas”, isto é, dividido em dias, horas, semanas, etc] nada tem a ver com a experiência do bebê; o tempo é diferente para ele em um estágio no qual a consciência do “não eu” é insuportável e perturbadora de sua continuidade de ser.

Em seu holding mais precoce do bebê, a mãe, com um alto custo emocional para si mesma, absorve o impacto do tempo (por exemplo, privando-se do tempo de sono que necessita, do tempo que necessita para renovação emocional oriunda de estar com outrem, etc). Com efeito, o holding mais precoce da mãe envolve sua participação na sensação de tempo do bebê, deste modo transformando para ele o impacto da alteridade do tempo e criando em seu lugar a ilusão de um mundo no qual o tempo é medido quase totalmente nos termos dos ritmos físicos e psicológicos do bebê. […]

holding inicial do bebê pela mãe representa uma anulação de si própria […]. A presença discreta dela […] “provê um ambiente […] para que o bebê experimente um movimento espontâneo e torne-se o detentor das sensações que são apropriadas a esta fase inicial da vida” (Winnicott) [ou seja, ele não percebe as – suas – sensações como externas, como intrusivas, na medida em que a mãe permite que ele sinta as coisas em seu próprio tempo; de outra forma, “suas” próprias sensações seriam sentidas como externas, como dissociadas]. O movimento mais precoce de organização “é um movimento cru; o novo indivíduo sente-se infinitamente exposto” (Winnicott).

 

A COLETA DE PEDAÇOS

 

À medida que o bebê cresce, a função do holding muda da de salvaguarda do tecido do continuar a ser do bebê para a da sustentação ao longo do tempo dos modos de estar vivo mais relacionados ao objeto. Uma dessas formas posteriores do holding envolve a provisão de um “lugar” (um estado psicológico”) no qual o bebê ou paciente possa se organizar. Winnicott fala da

experiência muito comum do paciente que se põe a contar todos os detalhes do fim de semana e se sente satisfeito se no fim tudo tiver sido dito, ainda que o analista sinta que nenhuma elaboração analítica foi feita. Às vezes devemos interpretar isso como a necessidade do paciente de ser conhecido em todos os seus pedaços e partes por uma pessoa, o analista. Ser conhecido é sentir-se integrado ao menos na pessoa do analista […]

[a mãe sustentará os diferentes modos de estar vivo do bebê em um só lugar; nesse tempo, o bebê é um todo disperso, formado de várias formas de estar no mundo; ele é um quando está com fome, outro quando está saciado, outro quando sente raiva, etc; esses estados todos são sustentados pela mãe, que oferece ao bebê uma continuidade, uma unidade de experiência que ele não sente consigo mesmo. No futuro, esse “lugar unificado” que a mãe representa será introjetado pelo bebê, propiciando sua integração e unificação. Então a criança sentirá que é “ela” mesma quem sente fome, saciedade, raiva, etc]

INTERNALIZAÇÃO DO AMBIENTE DE SUSTENTAÇÃO

A experiência dos fenômenos transicionais assim como a capacidade de estar só podem ser consideradas como facetas do processo de internalização da função materna de sustentar uma situação emocional no tempo. […] Winnicott vê esta terceira área da experiência – a área entre fantasia e realidade [isto é, a área dos fenômenos transicionais] – não simplesmente como a raiz do simbolismo, mas como “a raiz do simbolismo no tempo”. O tempo está chegando para portar a marca do mundo externo que está fora do controle da criança […] A capacidade de estar só envolve a internalização da mãe ambiental que sustenta uma situação no tempo [e este holding internalizado será a matriz da mente do bebê, isto é, um ambiente de holding interno]

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